###Relato: Chuvas fortes no Rio de Janeiro###

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Lapa em 5/3/2013 (Foto: Renan Castelo Branco – Facebook)

Sai da Cinelândia às 21h15. Andei até o ponto do ônibus na Rua Santa Luzia. Lá, encontrei mais de 15 pessoas confusas e sem saber muito para onde ir. Elas me informaram que não estava passando qualquer ônibus lá há mais de 40 minutos. Decidi seguir para Lapa para tentar pegar o ônibus de lá. Nem cheguei à Lapa. Outras pessoas avisavam “volta, volta, volta”, está tudo alagado.

Voltei. Segui para a estação do metrô na Cinelândia. Encontrei um trem parado (linha 2) na plataforma de embarque. Pelo alto falante, o metrô informava que mesmo o trem sendo da linha 2, os passageiros teriam que descer na estação Estácio para fazer transferência para outro trem devido as fortes chuvas. Depois, veio outro aviso informava que a linha 1 do metrô só estava indo até a estação do Estácio devido ao alagamento na estações da área da Tijuca.

Liguei para minha amiga Sheila Jacob. A preocupação era tentar avisar aos que ainda estavam na sala de aula do Curso de Comunicação Avançada do NPC (eu havia saído um pouco antes da aula terminar), na Cinelândia sobre a situação nas ruas e no trasporte público. Sheila também estava presa no Centro, em uma rua que dá acesso a Lapa devido ao alagamento da rua. Liguei para Sheila porque estava sem o telefone da galera do curso e ela tinha o de outra amiga que estava lá, desta forma, levando as informações sobre a situação, sendo o elo das informações.

Em torno da Tijuca, Praça da Bandeira (bairro foi interditado), na Rua do Matoso, e Maracanã (5/3/2013). (Foto-montagem: Raphael de Luca - Facebook)

Em torno da Tijuca, Praça da Bandeira (bairro foi interditado), na Rua do Matoso, e Maracanã (5/3/2013). (Foto-montagem: Raphael de Luca – Facebook)

Bom, meu destino no metrô era chegar até a estação da Central do Brasil para tentar de lá pegar o trem até o bairro de Ramos. Pura inocência minha. Na Central, além das linhas de quatro ramais estarem sem serviço, fui testemunha de mais dois absurdos.

Primeiro, a maior parte das catracas estavam interditadas, inclusive com cercas de ferro. Logo, todas as pessoas tinham que passar por apenas três catracas. Na fila (se é que se pode chamar aquilo de fila) uma mulher disse; “depois quando acontece tumulto é o povo que é incivilizado. Mas pedem né?”. Balancei a cabeça que sim em concordância.

O segundo problema era a falta de informação exata nos painéis de informações. A Supervia avisava aos usuários que “as estações São Francisco Xavier, Olaria e Penha, não estavam funcionando devido às chuvas”. Pensei: “ok, mas e Ramos?”. Nenhum agente da Supervia estava na parte da frente da catraca para dar informações aos usuários. Logo, precisei passar a roleta para descobrir que toda a linha da Zona Norte, conhecida por Zona599216_602402036455901_1860893444_n Leopoldina estava parada, o que significava que não poderia chegar de trem até Ramos. E ainda tive que pagar passagem para saber disso.  Mas tudo bem, teve gente que conseguiu entrar no trem para conseguir chegar em casa e ainda assim, utilizou um transporte público com precárias condições, tomando literalmente chuva na cabeça.

Ir de ônibus e enfrentar o congestionamento, pensei. Impossível. Na Avenida Presidente Vargas, a visão era de caos total. As pessoas atônitas para chegar em casa, desciam (não é exagero dizer que em massa) dos ônibus para tentar justamente usar o trem ou metrô. Nessa hora, pensei: “será que Bonsucesso alagou?”.

Decidi voltar para a estação do metrô e tentar enfrentar o tumulto que deveria está a plataforma Estácio (já que todas as transferências estavam sendo feitas por lá) e assim, tentar chegar até Vicente de Carvalho e de lá, talvez, conseguir uma van, kombi ou ônibus para ir para casa (Ramos), fazendo dessa forma o caminho inverso e evitando a possibilidade de ficar presa em Bonsucesso. Mas pensei: “e se mais área da Zona Norte tiver alagado como a Penha? Se o trem foi suspenso…”

No metrô, o alto faltante, informava que o serviço de trens ia funcionar até as 2h da manhã devido as fortes chuvas. Pensei: “fudeu! A situação está realmente complicada”. O alto falante informava que a Praça da Bandeira estava interditada e todas as estações da Tijuca do metrô também. Passei mensagem novamente para amiga avisando a situação preocupada com os amigos tijucanos Claudia Santiago e Vito Giannotti.

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Trilhos do metrô na estação Sans Pena em 5/3/2013. (Foto: Marcela Vasconcelos – Facebook)

No metrô, já começando a fica meio desesperada, consegui falar com a amiga Milene Vieira, que falou para eu ir para a casa dela na Glória, que a situação estava muito complicada até na Zona Sul. Tanto que ela ficou 1h20 presa na estação da Glória.

Fui. Na subida da rua dela, liguei de novo para Sheiloca preocupada com ela. Depois de 30 minutos tive notícias que ela tinha conseguido chegar até sua casa e que os amigos tijucanos estavam presos na Cinelândia.  Um tempo depois recebi mensagem da amiga Sheila também preocupada comigo.  Quando ia responder minha bateria de celular acabou.

Pelo Facebook, usuários postavam fotos dos alagamentos. Cada uma pior que outra. Todos abismados com o alagamento da estação do metrô da Sans Pena (tinha até marolinha) e eu atônita com a foto de passageiros de ônibus saindo pelo teto do veículo em um rua de Bonsucesso,  a três ruas de casa. Só agradeci a lembrança e o abrigo da amiga Milene.

Todo esse relato aqui, ao contrário do que posso parecer, não tem intenção de ser um compartilhamento da vida privada, estilinho diário. Só o faço por um único motivo. Esse relato é de uma cidadã do Rio de Janeiro, cansada, muito cansada, de morar numa cidade rodeada de morros e montanhas que parecem ser somente vistas por nós cidadãos.  Nossos políticos não as enxergam, a não ser claro, se no topo de uma montanha tiver um ponto turístico.

Não dá e é insustentável qualquer desculpa para os cidadãos da cidade do Rio de Janeiro no ano de 2013, terem que conviver com alagamentos iguais aos de quando eu era pequena.  Tenho hoje 33 anos. E refiro-me ao ano de 1988, quando tinha apenas 9.

A questão não é Copa do Mundo em 2014, Olimpíadas em 2016, e qualquer outro evento. O problema é o cotidiano, o dia a dia da população trabalhadora dessa cidade. Não vou tecer críticas no que se refere à preparação da cidade para os supostos megaeventos. A crítica é a uma infraestrutura inexistente de uma cidade que abriga trabalhadores que precisam ter paz e certeza que se o céu não desabar, vão chegar as suas casas.

Não há como ano após anos, mês após mês e dia após dia, a desculpa ser “as fortes chuvas”, ou seja, o sabor da natureza (não adianta vim com o plantão da meterologia no telejornal dando explicações de que numa só hora choveu mais que sei lá quantos meses). Não há mais como isso ser aceito de forma passiva por nós e pela imprensa dos jornais de massa do Rio de Janeiro, que somente tem feito à cobertura dos estranhos, do caos, mas que a reportagem, aquela que vai a fundo e mostra como o problema é cíclico, tem se refutado de fazê-la.

Lixo também não é desculpa. Não deve e não pode ser. Não dá mais para a imprensa cai nesse argumento e jogar somente na população, a responsabilidade dos alagamentos “porque as pessoas jogam lixo na rua”. Sim há esse problema, sim há essa falta de educação e responsabilidade, mas a questão é mais densa. Isso serve apenas de cortina de fumaça para as saídas políticas de nossos governantes.

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Rua Santa Marina, Bonsucesso, às 21h20, em 5/3/2013. (Foto: GuarAntiga – Facebook)

Com absoluta certeza, o alagamento no bairro de Bonsucesso, Zona Norte do Rio, chegou a ponto das pessoas terem que sair pelo teto no ônibus porque ontem (6/3), uma terça-feira, era dia de pôr os sacos de lixo, na rua, para ser recolhido. A Comlurb passa à noite, lá pelas 23h. Logo, o lixo aumentou a proporção do alagamento sim, mas de forma alguma foi o motivo principal ou estava de disposto de forma equivocada e irresponsável pelos moradores e lojas comerciais do bairro.

De boa, estou cansada de ligar para uma amiga toda vez que chove pedindo abrigo em algum bairro no Centro do Rio. E isso é porque, na verdade, ficamos desassistidos em todas as frentes de transportes públicos devido aos alagamentos. Seja de ônibus, seja de trem pela Supervia ou metrô, não se chega.

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Estrada do Itararé (Complexo do Alemão) alagada. Rua Arapá, no Morro do Adeus, alagada e com pessoas ilhadas. (Foto: Vozes das Comunidades)

Enquanto isso, um aluguel no bairro de Bonsucesso, por exemplo, custa em torno de R$ 1.200, se for um apartamento de 2 quartos ou até mais caro que isso. Em Ramos idem e em outros bairros de diversas regiões do Rio também, incluindo ainda (por quê não?) as casas nas favelas e morros dessa cidade, onde moram os principais trabalhadores que movimentam todas as frentes da economia do Rio de Janeiro. Lá também os aluguéis

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Rua das Laranjeiras, em Laranjeira (Zona Sul) em 5/3/2013. (Foto Gabrielle – Facebook)

subiram e cada família sente o custo de vida alto dessa cidade (com o aumento dos impostos que pagam nos produtos que consomem).

E assim caminhamos no custo de vida do Rio de Janeiro, mas não na qualidade de vida dessa porra de cidade maravilhosa sejam para pobres ou para a classe média.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
Nota | Esse post foi publicado em Cotidiano, Rio de Janeiro e marcado , , , . Guardar link permanente.

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