A banalidade do mal de um domingo de sol

O Rio de Janeiro é um mapa de desigualdade também nas suas dores e no direito à vida e ao luto. Parece uma obviedade falar disso, mas aprendi com um texto de Darcy Ribeiro que as obviedades precisam ser descritas ainda que seja para falar sobre o óbvio. O dia hoje foi lindo, de céu azul, brisa fresca, tipo perfeito para boa parte dos cariocas e fluminenses. Enquanto que para outros foi quente, imperfeito, cinza e dilacerante, de medo sentido na carne, pele e alma. E isso, informo, é ter a experiência de viver na cidade do Rio de Janeiro.

Até o momento, primeiramente por furo jornalístico da mídia local (é bom pontuar e dar o devido protagonismo da cobertura desse conflito armado), sabemos que além de um helicóptero caído (acidente que vitimou 4 policiais) temos também 7 corpos caídos no brejo em posição de execução. “O saldo das últimas 24h na Cidade de Deus SÃO MAIS DE DEZ MORTOS, entre PM’s e traficantes. Há corpos ainda no brejo que precisam ser retirados. Inocentes foram baleados em casa, inclusive uma criança” (Vivi Salles), segundo denúncia dos familiares divulgada na mídia local (http://bit.ly/2gbZIDK) e também publicada nas mídias comerciais como o jornal O Globo (http://glo.bo/2fhPXVU). inclusive, também sabemos que como direito à vida, o direito ao luto estava sendo cerceado.

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Fotos de Fabiano Rocha/ Jornal Extra

Ainda, sabemos que: o novo secretário de Segurança Pública Roberto Sá, afirmou que, até agora, os laudos preliminares feitos pelo IML indicam…tcham tcham tcham: “que nem os corpos dos quatro policiais mortos nem o helicóptero da Polícia Militar que caiu na Cidade de Deus foram atingidos por disparos de arma de fogo” (trecho retirado do portal UOL http://bit.ly/2fekFfa). Mas também na manchete do Globo: “RIO – Perícia inicial não viu perfurações em helicóptero, diz secretário” e). A queda desse helicóptero intensificou ainda mais a operação que já ocorria dentro das favelas da Cidade de Deus. E não é eu quem estou afirmando isso. São as manchetes dos principais portais (“Após queda de helicóptero, polícia faz operação na Cidade de Deus” – UOL; e “Perícia preliminar não encontrou perfuração no helicóptero, diz secretário de Segurança” O GLOBO – http://glo.bo/2gbfrDE).

Ainda, em rápida análise (tipo de bate o olho a partir de olhos treinados e estudos na área, mas também para os atentos), sabemos olhando as principais notícias do portal O Globo que, todas as formas de lidar com o acontecimento da violência no Rio de Janeiro, seja pela mídia, Estado e população, foram desencadeados: 1)um acontecimento (a queda do helicóptero) amplamente divulgada pela mídia com dizeres que deixam todos em estado de suspeição e medo, 2) propaga-se uma reação de vingança (ao que parece) do governo impulsionada pela cobertura jornalística (a imagem da queda repetida vezes divulgada em todos os telejornais e portais) e demais notícias “Os policiais ocupam a comunidade à procura de bandidos que entraram em confronto com agentes no sábado” (trecho de O Globo http://glo.bo/2fSiq32), 3) notícias adjetivadas com foco na emoção, 4) evoca-se o luto público pelos policiais mortos na arena pública e institucionalmente (“Governador decreta luto oficial pela morte de policiais na Cidade de Deus”, o Globo, http://glo.bo/2fhRDyG), 5) gerando outras operações policiais na cidade e na localidade do acontecimento “por tempo indeterminado” (O GLOBO), legitimando uma ação violenta do Estado, 6) legitima-se prisões de “suspeitos” (“PM detém pelo menos três pessoas em operação na Cidade de Deus” O Globo), 7) surge rapidamente a oferta de reforço da Força Nacional – e Exército – em manchetes de jornais (“Governo oferece Força Nacional para ajudar na Cidade de Deus” http://glo.bo/2gbXGne), 8) veicula-se notícias de depredação a patrimônios públicos (Estações de BRT sofrem vandalismo após confrontos na Cidade de Deus. Consórcio estima prejuízo material em mais de R$ 37 mil. O GLOBO).

Por fim, 9) chega a denúncia de ações violentas arbitrárias pelo Estado com a informação primeiro do desaparecimento, seguida da morte, fechando o quadro da desigualdade da vida e do luto: “moradores da Cidade de Deus retiraram da mata sete corpos de jovens da comunidade, na manhã deste domingo (…) Familiares começaram a denunciar o sumiço das pessoas no sábado após ação da policia militar no local. Na ocasião, um helicóptero caiu, resultando na morte de quatro PMs: o major Rogério Melo Costa, o terceiro-sargento Rogério Félix Rainha; o capitão William de Freitas Schorcht e o subtenente Camilo Barbosa de Carvalho. Após o acidente, o Bope iniciou uma operação na comunidade” (O Globo).

 

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E o ciclo se fecha com a notícia que registra outro obviedade: a catarse coletiva que eventos de violência geram no Rio, ocasionado “boatos”: “A queda de um helicóptero da Polícia Militar, durante operação na Cidade de Deus, ontem, matando quatro policiais gerou uma onda de boatos sobre tiroteios e outros confrontos na cidade”. Como hoje há mídias locais em diferentes favelas e periferias do Rio, alguns dos eventos de violência tipificados pelo jornal como boatos, foram confirmados por essas mídias. Outros de fato se mostraram sendo boatos. Também por essa mídia local sabemos que “SÃO 14 MORTOS em 24h na Cidade de Deus!”, “O Ministro da Justiça do governo golpista disponibilizou a Força Nacional e o Exército para a Cidade de Deus. Escrevo isso ao som de bombas”, “Policiais militares não identificados tentaram me acuar agora há pouco, pegaram meu celular pra apagar o vídeo durante uma transmissão ao vivo e me xingaram ameaçando! NÃO PASSARÃO!” (Vivi Salles http://bit.ly/2gtgaCL).

Por 4 dias, estive hospedada na Lapa. Vivi um outro mundo de proximidades e rotina. Enquanto a Cidade de Deus estava ardendo e tensa por conta de uma ação policial iniciada desde às 7h da manhã – que eu sequer sabia está acontecendo pelo noticiário. Bom, enquanto isso, eu consegui ir até uma feira literária no Palácio do Catete, comprar livros, espairecer, tirar fotos daquele bonito lugar e voltar viva e feliz, bem e relaxada de volta a Lapa. Até que carreguei meu celular e primeiro pelas mídias locais – é bom dizer -, e posteriormente pelo jornal Extra, soube da queda de um helicóptero do RJ e da ação policial que ocorria. Meu sábado seguiu perfeito – exceto pela dor na garganta. Jantei e até conversei com amigos.

Acordei domingo na Lapa ainda,  em um dia parecendo perfeito, parede de vidro da ilusão quebrada pelas notícias da situação na CDD que chegava pelas mídias locais, e posteriormente, pelo noticiário da mídia comercial. Assim, soube e vivi o óbvio: do lado de cá da Cidade Nova pra Zona Sul, a vida seguiu bem normalzinha nesse domingo. A cidade está nervosa, muitos comentários ao redor, mas a rotina de parte da cidade não foi parada por conta disso. Mas veja: de uma parte do subúrbio (Zona Norte) também não. É bom frisar. Assim como em diversas partes da Zona Oeste.

Por que estou ressaltando isso? Porque há uma experiência de guerra e muitos conflitos no Rio de Janeiro, mas não uma guerra como querem fazer parecer em toda cidade, que o noticiário nos leva a crer. Mas existe um Rio de medos como relata Letícia Matheus em seu livro “Narrativa do medo”. Um medo espraiado que toma e é retomado por um jornalismo feito a partir, com e para provocar sensações.

cddUm discurso que invade o nosso peito e faz a gente primeiro achar que estamos debatendo política de segurança pública quando não estamos. Ao contrário, estamos deslegitimando a falta de segurança e a política calcada na vingança.  Uma vez que a convocação de uma solução é dada através da convocação de uma reação do Estado para se chegar a uma solução. Esse ciclo é repetido, repetido e repetido por tantas vezes na história do Rio de Janeiro que, talvez (precisaria confirmar com pesquisa), a primeira página do portal jornal O Globo de hoje (20/11/2016, 21h51min), pode ser muito parecida com os discursos de outros episódios de violência e outras primeiras páginas.

 Minha intenção não é contradizer o discurso de guerra e tão pouco crítica somente a mídia. Minha intenção é RESSALTAR que nessa guerra espraiado no Rio de Janeiro quem enterra os efeitos colaterais são os pobres. Os efeitos concretos são corpos inertes no chão, se antes armados, agora sem vida, sem existência, seja ela sem farda ou fardada. Não é o Rio como cidade cidadã e anfitriã do mundo que enterra nenhum desses mortos ou lida com seus efeitos. São os corações de perifas e favelas, de gente pobre, de familiares de farda e sem farda que sepulta seus amores antes armados para uma guerra sem nexo. O Rio Maravilha até enterra algo, mas é a sua memória e esse acordo tácito com a banalidade do mal (Hannah Arendt) promovido todos os dias na arena pública e midiática. E com essa prática, nós também sepultamos juntos a nossa banalidade do mal. Fazemos parte disso quando aceitamos a falta de informação, a alusão a uma hipótese como verdade no discurso jornalístico e compartilhamos essa alusão abertamente nas conversas facebookianas ou no sofá de casa. Portanto, falo do Rio de Janeiro quanto Estado, mas também do Rio de Janeiro formado por nós, um Rio de Janeiro de sentidos, esses sim, direcionados”.

 

Segundo Arendt, o mal, quando atinge grupos sociais, é sempre político e ocorre onde encontra espaço institucional. A banalidade do mal se instala no vácuo do pensamento e dos sentidos trivializando a violência. No caso, seríamos Alfred Eichmann tanto quanto alguns enxergam desse jeito os policiais, o Estado e até a galera do “movimento” (o tal tráfico de drogas). Sujeitos não necessariamente antisemita, bom ou mal, só odiosos burocrata cumprindo ordens sem questioná-las (ou aceitando o que tem, as seleções postas no mundo). Pessoas medíocres, que de certa forma renunciam a pensar nas consequências que os seus atos poderiam ter. Até hoje, as conclusões da filosofa causam muita polêmica. Mas, no fim, o que se sabe é o concreto: Eichmann foi enforcado em 1962 em Tel Aviv.

A banalização do mal você concordando ou não existe e está posta na mesa da mídia e da nossa casa. Também é coisa nossa, saca? Comentamos com ar distraído sobre a “anestesia” da violência e de como perdemos a capacidade de nos chocar e nos surpreender por ela. Da mesma forma que contamos (ou selecionamos os mortos que vamos contar) quando compartilhamos notícias, boatos e até usamos a linguagem da violência de repertório para expressar e justificar a banalidade do mal nossa de cada dia.

Mobiliza nosso arcabouço de argumentos para as atrocidades cometidas por grupos de repressão seja na durante a ditadura militar até as crueldades praticadas atualmente por bandidos, policiais  e milícias no Rio de Janeiro. Mas, o Rio da Lapa, do Catete, da Zona Sul e das áreas de classe média baixa, media e alta do subúrbio e Zona Oeste não experimentam o resultado dessa banalidade do mal uma vez que não vivem a guerra real dos moradores das perifas e favelas. Ainda que experimente o medo dessa guerra virtualmente pelo noticiário de crime. Porque nesses Rios de medo, o luto é seletivo como direito pleno assim como a vida. E o domingo de sol e brisa fresca é garantido, independente do dia da consciência que marca o calendário no espaço da cidade. O domingo é dia sagrado e não pode ser a data de luto visível que dirá reclamado. Ou de qualquer um.

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Volto a dizer, não tenho intenção de negar a experiência de guerra no Rio de Janeiro. Ela é real para moradores de perifas e favelas e na rotina diária, inclusive, de policias em decorrência da política de segurança pública de enfrentamento ao comércio de drogas. Na real, por conta da ilegalidade da droga propagada por um Estado retrógrado que segue os ritos efetivos da política de guerra as drogas. Apenas, acho hipocrisia midiática e de muitos moradores do Rio de Janeiro repetirem o discurso da guerra e concordarem os efeitos dela, legitimar essa guerra, saindo de muitos chopps do Belmonte com amigos ou estado na frente de seus computadores proliferando comentários em redes sociais. A experiência da guerra não é sentida por vocês (e muitos de nós).

 

No máximo, ela projeta uma sensação de insegurança pública (que pode ser real ou falsa), alimentando a cultura do medo (Glassner, 2003) acionada por nossa mídia (e quando falo nossa, refiro-me a mídia comercial sim, mas também a cada posto nosso. Somos mídia hoje. Ou não). Inclusive, é essa sensação que faz a gente invisibilizar a militarização da rotina e da cidade, bem como da política. Porque se quer segurança e, por isso, não se liga para os custo dessa segurança: nossa banalidade do mal, porque seus efeitos colaterais garantem a ordem da vida.

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Alguém ou muitos ao ler esse texto podem discordar de mim (e devem, se assim sentir que devem). Afinal, a denúncia da morte  de pessoas na operação policial da Cidade de Deus está tendo repercussão na mídia. É fato. Bom,  eu vou concordar com essa ressalva ao texto quando souber o nome de cada um dos caídos no chão e jogado no brejo na Cidade de Deus, quando eles não forem só corpos no noticiário. Quando eu souber da história de suas mortes, mas essencialmente também de suas vidas. Enquanto isso não ocorre (vamos ver o noticiário amanhã, quem sabe?), o que me ajuda a compreender essa diária banalidade do mal nossa é o texto que li recentemente no livro “Quadros de Guerra” de Judith Butler.

 E por conta dele no o fim, percebo que esse meu devaneio (ou tentativa de análise aqui) nunca quer na realidade falar sobre o óbvio da hierarquização e desigualdade da dor. O que quero mesmo nesse desabafo  de blá blá blá é CHAMAR A SUA ATENÇÃO sobre A REPRESENTATIVIDADE DA VIDA COMO TAL: O que é vida, afinal?

“O que permite que uma vida se torne visível em sua precariedade e em sua necessidade de amparo e o que nos impede de ver ou compreender certas vidas dessa maneira?”, Butler (2015, p.82-83). Sobre a vida diante da guerra a filosofá nos dá certas pistas:

Butler não salva a mídia, mas também não salva a nós: “em nível mais geral, se “o problema diz respeito à mídia, na medida em que só é possível atribuir valor a uma vida com a condição de que esta seja perceptível como vida” (idem), essa legitimação só pode ser acionada “de acordo com certas estruturas avaliadoras [nós] incorporadas que torna uma vida perceptível como vida.

Mas já que o assunto é vida e guerra, pensando em nossa banalidade do mal diária, é outro trecho do texto que ajuda a olhar para esses “Quadros Guerra” desses “Rios de medo”.

“A guerra sustenta suas práticas atuando sobre os sentidos, fazendo-os apreender o mundo de modo seletivo, atenuando a comoção diante de determinadas imagens e determinados sons, e intensificando as reações afetivas aos outros. É por isso que a guerra atua minando as bases de uma democracia sensata, restringindo o que podemos sentir, fazendo-nos sentir repulsa ou indignação diante de uma expressão de violência e a reagir com justificada indiferença diante de outras. Para reconhecer a precariedade uma outra vida, os sentidos precisam estar operantes, o que significa que deve ser travada uma luta contra as forças que procuram regular a comoção de formas diferenciadas. A questão não é celebrar a desregulamentação completa da comoção, mas investigar as condições da capacidade de resposta oferecendo matrizes interpretativas para o entendimento da guerra que questionem e confrontem as interpretações dominantes, interpretações que não somente atuam sobre a comoção, como também ganham a forma da própria comoção e assim se tornam efetivas ” (idem, p.83-84).

Sabe… As pessoas na Cidade de Deus podem ter morrido no último sábado porque em parte muitos de nós acreditamos que elas eram responsáveis por todas as mazelas, por todo esse medo e insegurança e que, portanto, elas mereciam morrer diferentemente daqueles quatro policiais caídos no chão. A real é que nós hierarquizamos dores. A letalidade policial em uma ação pode ocorrer, mas quando ocorre demasiadamente deveria alçar nossos questionamentos, mas há tempos isso não acontece. Talvez, o último grande caso de comoção e reflexão pública seja Amarildo na Rocinha. Ele foi morto porque policiais cismaram que ele era traficante. Nós aceitamos que pessoas que praticaram crimes no passado sejam tratados como destituídos de vida, são corpos que não são passíveis do nosso luto. Nós não ligamos para o preço da morte quando é cobrada para nossa proteção. Damos as mãos aos senhores da guerra em acordos tácitos invisíveis tanto quanto aquelas vidas para garantir nosso domingo de sol. São “corpos com passagem policial” como disse a repórter ao vivo no RJTV em 21/11/2016.

Também não ligamos para as mais de 7 mil crianças sem aula lá ou no Conjunto da Maré, porque não ligamos também para a rotina de violência que o trabalhador, aquele cara que dirige o ônibus, serve seu café ou até de dá aulas (pois é, há favelado dando aula, construindo prédios etc.). Nós não ligamos que o despertador deles tenha sido voos rasantes de helicópteros, tiros ou bombas. Que dirá se vamos ligar para aqueles que aparecem mortos.

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A nossa falta de memória e reflexão não faz apenas a gente sepultar a morte em dezenas no noticiário, mas a nossa própria condição de questionar a banalidade, o mal, as consequências, perceber o preço dos efeitos que para os pobres é mais caro que o preço de uma bala, mas pra o Estado barato quanto qualquer munição: não há como calcular preço quando se trata de deixar o perigo longe de nós, não é?

Publicado em comunicação, Cotidiano, Favela, Rio de Janeiro | Deixe um comentário

A banalidade do mal de um domingo de sol carioca

O Rio de Janeiro é um mapa de desigualdade também nas suas dores e no direito à vida e ao luto. Parece uma obviedade falar disso, mas aprendi com um texto de Darcy Ribeiro que as obviedades precisam ser descritas ainda que seja para falar sobre o óbvio. O dia hoje foi lindo, de céu azul, brisa fresca, tipo perfeito para boa parte dos cariocas e fluminenses. Enquanto que para outros foi quente, imperfeito, cinza e dilacerante, de medo sentido na carne, pele e alma. E isso, informo, é ter a experiência de viver na cidade do Rio de Janeiro.

 

Até o momento, primeiramente por furo jornalístico da mídia local (é bom pontuar e dar o devido protagonismo da cobertura desse conflito armado), sabemos que além de um helicóptero caído (acidente que vitimou 4 policiais) temos também 7 corpos caídos no brejo em posição de execução. “O saldo das últimas 24h na Cidade de Deus SÃO MAIS DE DEZ MORTOS, entre PM’s e traficantes. Há corpos ainda no brejo que precisam ser retirados. Inocentes foram baleados em casa, inclusive uma criança” (Vivi Salles), segundo denúncia dos familiares divulgada na mídia local (http://bit.ly/2gbZIDK) e também publicada nas mídias comerciais como o jornal O Globo (http://glo.bo/2fhPXVU). inclusive, também sabemos que como direito à vida, o direito ao luto estava sendo cerceado.

 

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Fotos de Fabiano Rocha/ Jornal Extra

Ainda, sabemos que: o novo secretário de Segurança Pública Roberto Sá, afirmou que, até agora, os laudos preliminares feitos pelo IML indicam…tcham tcham tcham: “que nem os corpos dos quatro policiais mortos nem o helicóptero da Polícia Militar que caiu na Cidade de Deus foram atingidos por disparos de arma de fogo” (trecho retirado do portal UOL http://bit.ly/2fekFfa). Mas também na manchete do Globo: “RIO – Perícia inicial não viu perfurações em helicóptero, diz secretário” e). A queda desse helicóptero intensificou ainda mais a operação que já ocorria dentro das favelas da Cidade de Deus. E não é eu quem estou afirmando isso. São as manchetes dos principais portais (“Após queda de helicóptero, polícia faz operação na Cidade de Deus” – UOL; e “Perícia preliminar não encontrou perfuração no helicóptero, diz secretário de Segurança” O GLOBO – http://glo.bo/2gbfrDE).

Ainda, em rápida análise (tipo de bate o olho a partir de olhos treinados e estudos na área, mas também para os atentos), sabemos olhando as principais notícias do portal O Globo que, todas as formas de lidar com o acontecimento da violência no Rio de Janeiro, seja pela mídia, Estado e população, foram desencadeados: 1)um acontecimento (a queda do helicóptero) amplamente divulgada pela mídia com dizeres que deixam todos em estado de suspeição e medo, 2) propaga-se uma reação de vingança (ao que parece) do governo impulsionada pela cobertura jornalística (a imagem da queda repetida vezes divulgada em todos os telejornais e portais) e demais notícias “Os policiais ocupam a comunidade à procura de bandidos que entraram em confronto com agentes no sábado” (trecho de O Globo http://glo.bo/2fSiq32), 3) notícias adjetivadas com foco na emoção, 4) evoca-se o luto público pelos policiais mortos na arena pública e institucionalmente (“Governador decreta luto oficial pela morte de policiais na Cidade de Deus”, o Globo, http://glo.bo/2fhRDyG), 5) gerando outras operações policiais na cidade e na localidade do acontecimento “por tempo indeterminado” (O GLOBO), legitimando uma ação violenta do Estado, 6) legitima-se prisões de “suspeitos” (“PM detém pelo menos três pessoas em operação na Cidade de Deus” O Globo), 7) surge rapidamente a oferta de reforço da Força Nacional – e Exército – em manchetes de jornais (“Governo oferece Força Nacional para ajudar na Cidade de Deus” http://glo.bo/2gbXGne), 8) veicula-se notícias de depredação a patrimônios públicos (Estações de BRT sofrem vandalismo após confrontos na Cidade de Deus. Consórcio estima prejuízo material em mais de R$ 37 mil. O GLOBO).

Por fim, 9) chega a denúncia de ações violentas arbitrárias pelo Estado com a informação primeiro do desaparecimento, seguida da morte, fechando o quadro da desigualdade da vida e do luto: “moradores da Cidade de Deus retiraram da mata sete corpos de jovens da comunidade, na manhã deste domingo (…) Familiares começaram a denunciar o sumiço das pessoas no sábado após ação da policia militar no local. Na ocasião, um helicóptero caiu, resultando na morte de quatro PMs: o major Rogério Melo Costa, o terceiro-sargento Rogério Félix Rainha; o capitão William de Freitas Schorcht e o subtenente Camilo Barbosa de Carvalho. Após o acidente, o Bope iniciou uma operação na comunidade” (O Globo).

 

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E o ciclo se fecha com a notícia que registra outro obviedade: a catarse coletiva que eventos de violência geram no Rio, ocasionado “boatos”: “A queda de um helicóptero da Polícia Militar, durante operação na Cidade de Deus, ontem, matando quatro policiais gerou uma onda de boatos sobre tiroteios e outros confrontos na cidade”. Como hoje há mídias locais em diferentes favelas e periferias do Rio, alguns dos eventos de violência tipificados pelo jornal como boatos, foram confirmados por essas mídias. Outros de fato se mostraram sendo boatos. Também por essa mídia local sabemos que “SÃO 14 MORTOS em 24h na Cidade de Deus!”, “O Ministro da Justiça do governo golpista disponibilizou a Força Nacional e o Exército para a Cidade de Deus. Escrevo isso ao som de bombas”, “Policiais militares não identificados tentaram me acuar agora há pouco, pegaram meu celular pra apagar o vídeo durante uma transmissão ao vivo e me xingaram ameaçando! NÃO PASSARÃO!” (Vivi Salles http://bit.ly/2gtgaCL).
Por 4 dias, estive hospedada na Lapa. Vivi um outro mundo de proximidades e rotina. Enquanto a Cidade de Deus estava ardendo e tensa por conta de uma ação policial iniciada desde às 7h da manhã – que eu sequer sabia está acontecendo pelo noticiário. Bom, enquanto isso, eu consegui ir até uma feira literária no Palácio do Catete, comprar livros, espairecer, tirar fotos daquele bonito lugar e voltar viva e feliz, bem e relaxada de volta a Lapa. Até que carreguei meu celular e primeiro pelas mídias locais – é bom dizer -, e posteriormente pelo jornal Extra, soube da queda de um helicóptero do RJ e da ação policial que ocorria. Meu sábado seguiu perfeito – exceto pela dor na garganta. Jantei e até conversei com amigos.

Acordei domingo na Lapa ainda,  em um dia parecendo perfeito, parede de vidro da ilusão quebrada pelas notícias da situação na CDD que chegava pelas mídias locais, e posteriormente, pelo noticiário da mídia comercial. Assim, soube e vivi o óbvio: do lado de cá da Cidade Nova pra Zona Sul, a vida seguiu bem normalzinha nesse domingo. A cidade está nervosa, muitos comentários ao redor, mas a rotina de parte da cidade não foi parada por conta disso. Mas veja: de uma parte do subúrbio (Zona Norte) também não. É bom frisar. Assim como em diversas partes da Zona Oeste.

Por que estou ressaltando isso? Porque há uma experiência de guerra e muitos conflitos no Rio de Janeiro, mas não uma guerra como querem fazer parecer em toda cidade, que o noticiário nos leva a crer. Mas existe um Rio de medos como relata Letícia Matheus em seu livro “Narrativa do medo”. Um medo espraiado que toma e é retomado por um jornalismo feito a partir, com e para provocar sensações.
cddUm discurso que invade o nosso peito e faz a gente primeiro achar que estamos debatendo política de segurança pública quando não estamos. Ao contrário, estamos deslegitimando a falta de segurança e a política calcada na vingança.  Uma vez que a convocação de uma solução é dada através da convocação de uma reação do Estado para se chegar a uma solução. Esse ciclo é repetido, repetido e repetido por tantas vezes na história do Rio de Janeiro que, talvez (precisaria confirmar com pesquisa), a primeira página do portal jornal O Globo de hoje (20/11/2016, 21h51min), pode ser muito parecida com os discursos de outros episódios de violência e outras primeiras páginas. O que leva a conclusão desse devaneio ou epifania.
Não estou escrevendo sobre o óbvio tanto assim. Minha intenção não é contradizer o discurso de guerra e tampouco fazer uma crítica somente a mídia. É reclamar também de nós e de mim mesma, claro (ou não faço parte desse nós?). Minha intenção é RESSALTAR que nessa guerra e aura de medo espraiado no Rio de Janeiro quem enterra os corpos são os pobres. O Rio como cidade cidadã e anfitriã do mundo não enterra nenhum de seus mortos, apenas enterra o seu acordo tácito com a banalidade do mal (Hannah Arendt) bem fundo todos os dias na arena pública. E com o auxílio da mídia, também nos ajuda a sepultar nossa banalidade do mal juntos. Falo do Rio de Janeiro quanto Estado, mas também do Rio de Janeiro de sentidos, esses sim, direcionados.
Segundo Arendt, o mal, quando atinge grupos sociais, é sempre político e ocorre onde encontra espaço institucional. A banalidade do mal se instala no vácuo do pensamento e dos sentidos trivializando a violência. No caso, seríamos Alfred Eichmann tanto quanto alguns enxergam desse jeito os policiais, o Estado e até a galera do “movimento” (o tal tráfico de drogas). Sujeitos não necessariamente antisemita, bom ou mal, só odiosos burocrata cumprindo ordens sem questioná-las (ou aceitando o que tem, as seleções postas no mundo). Pessoas medíocres, que de certa forma renunciam a pensar nas consequências que os seus atos poderiam ter. Até hoje, as conclusões da filosofa causam muita polêmica. Mas, no fim, o que se sabe é o concreto: Eichmann foi enforcado em 1962 em Tel Aviv.

A banalização do mal você concordando ou não existe e está posta na mesa da mídia e da nossa casa. Também é coisa nossa, saca? Comentamos com ar distraído sobre a “anestesia” da violência e de como perdemos a capacidade de nos chocar e nos surpreender por ela. Da mesma forma que contamos (ou selecionamos os mortos que vamos contar) quando compartilhamos notícias, boatos e até usamos a linguagem da violência de repertório para expressar e justificar a banalidade do mal nossa de cada dia.

 Mobiliza nosso arcabouço de argumentos para as atrocidades cometidas por grupos de repressão seja na durante a ditadura militar até as crueldades praticadas atualmente por bandidos, policiais  e milícias no Rio de Janeiro. Mas, o Rio da Lapa, do Catete, da Zona Sul e das áreas de classe média baixa, media e alta do subúrbio e Zona Oeste não experimentam o resultado dessa banalidade do mal uma vez que não vivem a guerra real dos moradores das perifas e favelas. Ainda que experimente o medo dessa guerra virtualmente pelo noticiário de crime. Porque nesses Rios de medo, o luto é seletivo como direito pleno assim como a vida. E o domingo de sol e brisa fresca é garantido, independente do dia da consciência lembrado pelo calendário nesses espaços da cidade. O domingo é dia sagrado e não pode ser a data de luto invisível reclamado.

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Volto a dizer, não tenho intenção de negar a experiência de guerra no Rio de Janeiro. Ela é real para moradores de perifas e favelas e na rotina diária, inclusive, de policias em decorrência da política de segurança pública de enfrentamento ao comércio de drogas. Na real, por conta da ilegalidade da droga propagada por um Estado retrógrado que segue os ritos efetivos da política de guerra as drogas. Apenas, acho hipocrisia midiática e de muitos moradores do Rio de Janeiro repetirem o discurso da guerra e concordarem os efeitos dela, legitimar essa guerra, saindo de muitos chopps do Belmonte com amigos ou estado na frente de seus computadores proliferando comentários em redes sociais. A experiência da guerra não é sentida por vocês (e muitos de nós).

 

No máximo, ela projeta uma sensação de insegurança pública (que pode ser real ou falsa), alimentando a cultura do medo (Glassner, 2003) acionada por nossa mídia (e quando falo nossa, refiro-me a mídia comercial sim, mas também a cada posto nosso. Somos mídia hoje. Ou não). Inclusive, é essa sensação que faz a gente invisibilizar a militarização da rotina e da cidade, bem como da política. Porque se quer segurança e, por isso, não se liga para os custo dessa segurança: nossa banalidade do mal, porque seus efeitos colaterais garantem a ordem da vida.

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Alguém ou muitos ao ler esse texto podem discordar de mim (e devem, se assim sentir que devem). Afinal, a denúncia da morte  de pessoas na operação policial da Cidade de Deus está tendo repercussão na mídia. É fato. Bom,  eu vou concordar com essa ressalva ao texto quando souber o nome de cada um dos caídos no chão e jogado no brejo na Cidade de Deus, quando eles não forem só corpos no noticiário. Quando eu souber da história de suas mortes, mas essencialmente também de suas vidas. Enquanto isso não ocorre (vamos ver o noticiário amanhã, quem sabe?), o que me ajuda a compreender essa diária banalidade do mal nossa é o texto que li recentemente no livro “Quadros de Guerra” de Judith Butler.

 E por conta dele no o fim, percebo que esse meu devaneio (ou tentativa de análise aqui) nunca quer na realidade falar sobre o óbvio da hierarquização e desigualdade da dor. O que quero mesmo nesse desabafo  de blá blá blá é CHAMAR A SUA ATENÇÃO sobre A REPRESENTATIVIDADE DA VIDA COMO TAL: O que é vida, afinal?

“O que permite que uma vida se torne visível em sua precariedade e em sua necessidade de amparo e o que nos impede de ver ou compreender certas vidas dessa maneira?”, Butler (2015, p.82-83). Sobre a vida diante da guerra a filosofá nos dá certas pistas:

Butler não salva a mídia, mas também não salva a nós: “em nível mais geral, se “o problema diz respeito à mídia, na medida em que só é possível atribuir valor a uma vida com a condição de que esta seja perceptível como vida” (idem), essa legitimação só pode ser acionada “de acordo com certas estruturas avaliadoras [nós] incorporadas que torna uma vida perceptível como vida.

Mas já que o assunto é vida e guerra, pensando em nossa banalidade do mal diária, é outro trecho do texto que ajuda a olhar para esses “Quadros Guerra” desses “Rios de medo”.

“A guerra sustenta suas práticas atuando sobre os sentidos, fazendo-os apreender o mundo de modo seletivo, atenuando a comoção diante de determinadas imagens e determinados sons, e intensificando as reações afetivas aos outros. É por isso que a guerra atua minando as bases de uma democracia sensata, restringindo o que podemos sentir, fazendo-nos sentir repulsa ou indignação diante de uma expressão de violência e a reagir com justificada indiferença diante de outras. Para reconhecer a precariedade uma outra vida, os sentidos precisam estar operantes, o que significa que deve ser travada uma luta contra as forças que procuram regular a comoção de formas diferenciadas. A questão não é celebrar a desregulamentação completa da comoção, mas investigar as condições da capacidade de resposta oferecendo matrizes interpretativas para o entendimento da guerra que questionem e confrontem as interpretações dominantes, interpretações que não somente atuam sobre a comoção, como também ganham a forma da própria comoção e assim se tornam efetivas ” (idem, p.83-84).

Até que ponto nós estamos sustentando padrões e comportamentos deploráveis do Estado simplesmente porque não analisamos as repercussões da mídia e até dos nossos atos? Assim, quais são os acontecimentos, as notícias e as mensagens compartilhadas, sem uma análise crítica, que legitimam a seleção do luto e da vida, construindo esse mal banal registrado ou não em noticiários, mas amplamente vivido e sentido por parte de nós?

Sabe… As pessoas na Cidade de Deus podem ter morrido no último sábado porque acreditamos (convocado por nossos medos e pelo discurso midiático e do Estado) que elas eram responsáveis pela morte de quatro policiais atacados no ar. Foram mortas porque nós não ligamos para elas. Foram executadas porque damos as mãos aos senhores da guerra em acordos tácitos tão invisíveis quanto aquelas vidas para garantir nosso domingo de sol.

Ah, e amanhã, dezenas de crianças não terão aula para garantir suas vidas em casa (assim espero!).

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Vida de barbárie e o cotidiano

O cotidiano me cerca, me suga e fala comigo. Não estou com esquizofrenia. Isso acontece a cada ônibus, van, metro ou trem que eu entre. Eu circulo pela cidade. Talvez ainda com o vício de repórter foca que ouvia: “jornalismo se faz nas ruas”. Tenho ouvidos atentos. Se eu não estiver estudando inglês ou num dia de estresse, você não via me ver de fones de ouvido. Não uso. Não gosto. Prefiro ouvir música sem. Então acabo ouvindo em casa. Exceto, quando preciso relaxar. O que tem acontecido muito, rs. Mas sempre temto equilibrar. Preocupação tola, você diria. Mania esquisita, afirmaria outros. Mas, é só esse vício de foca. Essa mania de ouvir o cotidiano. Não é à toa que o cotidiano faz parte até do nome do programa de Mestrado do qual faço parte, motivo que me afastou da escrita livre, do respirar da alma. Mas, que hoje retorno. Porque facebook é cercado e quero minha discurso ilimitado.

E nesse entreouvir o cotidiano, sexta-feira de sol no Rio, eu caminhava apressada para a aula. Peguei uma kombi 284 em Benfica. Meu destino era o Museu Nacional de São Cristovão para ter a aula ‘Pensando as favelas nas Ciências Sociais’. Minha companheira de viagem falava alto. contava “causos”. Dialogava com a passageira da frente que não era eu.  Coisa de carioca que parece íntimo de tudo e de todos em 5 segundos. Eu permanecia de costas. Ouvindo. Anotando com a minha caneta lá no cérebro. Riscava e escrevia por cima em letra prendada para entender depois a confusão no bloco de nota da mente. A história era boa, cheia de nuances, ida e vindas que dão muita análise ou apenas abrigo as ideias ou o espanto do coração.

A moça de voz forte, alta e firme, contava que um assaltante apontou uma arma pra cabeça de um bebê no colo da mãe na favela pacificada. Ela era a mãe. Sua filha, o bebê. A vítima dessa violência, revoltadíssima, contava que disse para o rapaz que a assaltava para levar tudo, mas tirar a arma da cabeça da filha dela. O pedido foi acatado. Mas, ela não deixou de dar lição de moral no cara. Disse ela que, se ele tivesse um filho, jamais faria aquilo, apontar uma arma para um bebê.  Estava indignada a moça. Mas ainda, porque não podia fazer nada. Isso tinha ocorrido em favela pacificada. Roubo, agora, é normal em favela, contava ela. Mas, nem sempre foi, ressaltou.

Ela contava que em favela assalto não existia. Lembrava de que, certa vez, fora roubada na pista perto da favela. Fico puta! Como pode alguém roubar favelado na cara do gol da favela. Resolveu ir nos homens, falar com o ‘movimento’.  A mãe dela pedira para não fazer queixa, mas ela disse que faria. E fez. Menina de palavra era ela.  Foi falar com os “home” que ficaram revoltados. Caçaram o ‘muleke’ e charam fácil. Era cria, mas estava perdido . Tão na merda que fez essa merda de rouba na beirada da favela.  Os ‘home’ ameaçaram de morte o guri. Mulher gritou: não para, pera! Não mata não que não quero ter esse peso da morte de alguém na mente. Só dá uma surra, uma bem dada.

Os ‘home’ então surraram o menino. Exigiram que ele devolvesse o roubado da moça: um celular. Não dava, peça já tinha sido passada. Perguntaram de quanto era o desfalque. R$550 disse a mulher. Então, tu te vira pra arrumar o din din pra mulher, caso contrário é ferro na cabeça e a gente te caça até em casa e vai atrás da família. Mulher tremeu nas bases. Tinha palavra, mas culhão de levar tanta morte nas costas. Era moça de família. Implorou pros “home” que só não queria ficar no ‘preju’.

Desfecho?

Bom, outros “alguéns” foram roubados. Porque os R$550 reais surgiram em 24h na mão da vitimada do assalto na boca da favela. E, o achismo desse desfeito não é meu. É a moça, a mulher, a mãe, a filha, a pessoa roubada que acredita na afirmativa acima.

“Não sei se ele roubou ou não. deve ter roubado, mas sei que com a carne doída, ele arrumou rapidinho o meu din din do celular e que aprendeu que em favela não se rouba, Pobre não rouba de pobre. Apesar da modinha em favela pacificada”.

A minha companheira de viagem não parecia ter nenhum remorso sobre sua atitude. Para ela, não importava muito que sua queixa resultou em outros assaltos. O essencial era que seu algoz teve o que merecia. Afinal, ele apontara uma arma para ela e tinha roubado na boca da favela porra, então, era isso que estava em jogo. Tem uma música que diz que o Rio é a ‘cidade maravilha da beleza e do caos’. Essa narrativa de um cotidiano pode parecer a prova cabal do versado na música. Mas, será que para essa cidade só restou a barbárie humana?

Sei não….

Para mim, esse cotidiano parece mais uma ‘causo’ a la Nelson Rodreigues, sem moral, sem discórdia, sem final feliz,s sem humanidade, sem muitas palavras, só um SEM.

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Dois cafés, um cigarro e a conta: medo, revolta e criminalização no Rio de Janeiro pacificado

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Ontem conversei com duas moradores de favelas com UPP. Uma amiga, outra que conheci sábado, uma do Alemão, outra da CCDD. Engraçado que ambas me deram respostas as minhas perguntas, ao papo se a UPP é positiva ou negativa de forma igual. Uma das unanimidades seriam os filhos, as crianças não terem mais aquela visualização do crime e de drogas de fora tão rascante, ali a olho nu: pessoas vendendo drogas gritando, gente cheirando, e em diferentes esquinas traficantes armados.

Então, PERGUNTEI SE SE SENTIAM SEGURAS. Para essa indagação a resposta veio com reticências na expressão que inundou o pequeno espaço da sala: “seguras não. falar em segurança é complicado. Ninguém se sente segura. Até porque você passa e o fuzil está lá”. Imagem

Na CCDD, foi comentado que o bom é que agora tem mais transporte. No Alemão, que tem o cinema lá. Mas comentou-se sobre crianças que estavam brincando de fogos e que isso chamou atenção dos moradores que ficaram receosos de “dar merda”. Mas no fim, não aconteceu nada. Ficou “tudo tranquilo”.

Sobre os problemas da convivência, as duas falaram que quem sente mais são os jovens, porque há abusos, violência física do policial nos “garotos”, porque o jovem sempre está nas ruas e tem dificuldade a essa lei e ordem que se torna a tônica da realidade das favelas com UPP.

Comentei com a moradora do Alemão que a minha impressão é de medo quando se fala em UPP, em pacificação, com os moradores. Um medo passado em respostas vazias (e compreensíveis) do morador que não quer se posicionar porque tem medo da outra situação (da qual o tráfico estava lá de forma exposta) e dessa (com a polícia nas esquinas). Ela confirmou que sim. Minha impressão estaca correta. Me disse: “todo mundo viu tudo que aconteceu, todo mundo sabe que no final é o morador que fica prejudicado”.

A moradora da CCDD confirmou: “a verdade e que seja na política de tiro e porrada ou agora, o morador é que fica no meio de tudo. Sempre sobra para ele. Esse é o medo”. 1070040_789212474441861_402494127_n

E hoje, em dia que acordei mega tarde, EU ABRO O JORNAL E VEJO QUE A POLÍCIA VAI INVESTIGAR SE MORADORES RECEBEM DINHEIRO PARA PARTICIPAR DE PROTESTOS CONTRA AS UPPS.

A frase e a mensagem subjetivas de que “o moradora sempre paga o pato no final”, nunca fez tanto sentido. E o MEDO DEVE IMPERAR NO ALEMÃO AGORA COMO NUNCA. OPS, nunca é tempo demais. É infinito. Pelo visto, é esse o X do problema. É muito tempo para se sentir medo na vida.

Muitos livros e associações a pensamentos, teorias e conceitos me veem a cabeça. Mas nenhuma letra fria de livro, me diz mais que essa conversa com duas cidadãs cariocas que vivem nessas duas favelas.

Ao abrir hoje o Facebook, recebi um desabafo do coletivo “#Ocupa Alemão”. Lá também havia um relato da continuidade de um estado permanente de violações. A diferença é que o X da questão nesse pequeno, mas significativo relato era a REVOLTA:

“Ninguém se lembra quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha. Mas em algum momento…

…tapas na cara de moradores geraram revolta. Que geraram a morte de um PM gerou revolta.
Que gerou a prisão da vários suspeitos dentre eles dois inocentes, que gerou revolta…
Que gerou manifestação com tiro no pé de manifestante que gerou mais revolta…
Que gerou maior efetivo militar que gerou tapas na cara quem não tinha nada a ver…que gerou revolta…
Que gerou tiros na direção da polícia..que adivinha???? Revolta!!!
Que gerou mais tiro no pé de um menino de 11 anos que gerou revolta…
Que gerou a morte de um subcomandante que gera revolta…

Que gerou o dia de amanhã que ninguém sabe de nada…

A única certeza é a revolta”.

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Aos amantes de livros, uma boa história

Há duas semanas atrás eu comentava com uma amiga sobre a história desse livro. A minha história com ele, E como já fui assediada para vendê-lo. Hoje, saiu uma reportagem de 4 páginas na revista do Globo justamente falando sobre isso.
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Eu comprei um exemplar do livro em 2007, uma semana após ele ser proibido judicialmente. Consegui um exemplar na Livraria Saraiva da Rua do Ouvidor. Antes havia tentado no Norteshopping, mas tinha acabado. Chorei. A vendedora me pediu calma e ligou para outra loja e consegui saber que restavam ainda 2. Um ficou reservado para mim por 24h. Já em 2008, ao me ver numa cafeteria com o livro, o dono de um sebo pediu licença e começou a falar do interesse dele de comprar o livro. Me ofereceu R$200. Devido a recusa, subiu para R$400. Agradeci, mas disse não, pois o livro tinha uma lado afetivo pra mim.
Sempre fui leitora do Paulo Cesar, que lançou um dos mais importantes livros sobre música brasileira antes do livro do Roberto: o livro chamado “Eu não sou cachorro não! Música Popular Cafona à Ditadura”. Um ano depoisde ler esse livro ele se tornaria meu professor na disciplina eletiva “Pesquisa em MPB” na Unicarioca, onde iniciei meus estudos de jornalismo. Faria outro curso com ele “Do Hip Hop à MPB” (acho que era esse o nome da matéria), mas foi cancelada. Justamente, porque Paulo precisava se dedicar a escrever o livro. a Editora pressionava. Assim, apesar de ser um dos professores com maior nota de avaliação positiva dos alunos, abandonou a cadeira da universidade e eu fique sem minha aula. Não entendo até hoje porque Paulo não voltou a lecionar essas matérias. A que fiz foi fantástica.
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Em 2009, reencontrei Paulo Cesar num debate sobre biografias no CCBB. Pedi para ele autografar o livro pra mim. Ele pegou o exemplar, assinou, fez dedicatória, mas percebi que deslumbrava o livro, observava o volume, olhava a capa, e depois suspirou. Falei algo do tipo: – é…deve ser difícil. Ele respondeu: Você sabia que eu mesmo não tenho um exemplar. Tomei um susto e claro ofereci o meu exemplar na hora. Ele recusou óbvio. (Não sei se ainda não tem. Pelo que li hoje em O Globo, conseguiu comprar para uma tia num sebo em Portugal, o que pode ser evidência de que ele mesmo ainda não tenha um exemplar do livro dele, mas isso é o que supus).
Uma semana depois acho, passei por uma feira de livros na Cinelândia e o exemplar estava na bolsa. Tirei
para pegar a carteira e pagar o livro que estava comprando. O dono do sebo arregalou o olho e me ofereceu R$500. Recusei. Me ofereceu R$700. Depois R$800. Disse que não e expliquei toda a relação que tinha com o livro, que como aluna do Paulo Cesar, acompanhei por uns 6 meses a construção da obra, pois ele sempre comentava como estava a pesquisa e tal. Por fim, abri o livro e mostrei o autógrafo. O dono do sebo ficou eufórico e me ofereceu R$1200. Ri de novo. E disse: – quem vai ser o louco que vai comprar um livro por esse preço? Ele respondeu: – eu eu eu. Me vende. Pedi desculpas e fui embora.
28770_745289052155128_576086657_nSó emprestei esse livro para uma pessoa: a Silvana Amorim. Ex-colega de trabalho que veio a falecer de câncer esse ano. Emprestei a ela porque a Sil tinha um jeito muito responsável. Então, confiei. Só fiz um pedido: para tomar cuidado com deslocamento, porque eu mesma já tinha perdido dois livros assim. Então, se fosse possível para ela ler o livro em casa. Não só pela dificuldade de encontrar outro exemplar, mas porque estava assinado por Paulo, quem acabei perdendo o contato. Mas nunca esqueci das suas aulas. Eram incríveis. É sério. Bom, e assim minha amiga Silvana o fez. Seguiu minha recomendação e em um mês me devolveu o livro lido. Agradeceu muito. Silvana era louca por biografias. Foi ela quem me deu a de Tim Maia num amigo oculto. Também era louca por música.
Bom, então, por todas essas histórias e pela valiosa obra, e me refiro ao conteúdo de pesquisa dessa historiador Paulo Cesar Araújo, já deu para perceber que esse livro nunca será vendido né? Pelo menos, não o meu exemplar especificamente. Que sejam vendidos todos os que estão guardados. Meu sonho é ver esse livro reeditado, contanto esse episódio da vida de Roberto…Bom, não…da vida da obra deste livro. A história do livro proibido que permaneceu circulando e que voltou as prateleira. Como diz o samba-enredo da minha Mocidade “não custa nada sonhar”.
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Café Olé Bistrô

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Com móveis de madeira e luz baixa, o Café Olé Bistrô é a miragem no meio do caos da Largo São Francisco de Assis, no Centro do Rio. Descobri o espaço no meio das minhas andaças por lá quando sai para almoçar perto do local de um novo. Fiquei encantada. Não só pelo lugar, mas tudo: a disposição dos livros, a decoração, e as três máquinas de escrever Remington  dispostas nas estantes. Não é à toa que o lugar ganhou o nome de Largo das Artes.
919946_692545414096159_526239869_oParei lá para almoçar. Mas meu olho cresceu par ao bolo de crede de damasco com baba de moça e desisti. Cai no céu do doce e de um cappuccino. Não me Arrependi. Estava uma delícia ambos. O ambiente recebe casais e grupos de amigos ao longo de todo o dia. De repente, fui sugada para longe. Quando sentei e fechei os olhos, me senti de volta a Buenos Aires. A cidade dos bistrôs calmos, serenos, com uma decente carta de vinhos e música ambiente que mistura clássicos italianos, latinos com uma batida suave lounge.
1076952_692545850762782_1575948727_oLogo cedo, pão, ovos mexidos e suco de laranja, entre outros itens, compõem o café da manhã (R$ 15,00 por pessoa). Mais tarde, no almoço ou no jantar, o cardápio relaciona salmão grelhado com purê de batata-baroa, arroz e legumes (R$39,00). Massas frescas com molhos para lá de especiais também é uma excelente opção (R$29). Porém, como já se percebe pelos preços acima, o preço é um pouco salgadinho. Um almoço da casa completo (com refeição, salada, vinho e sobremesa) sai por R$54,00. É que os pratos são preparados com esmero e produtos selecionados pelo proprietário e chef da casa: Mike.
964490_692545164096184_1977574409_oPor isso, essa miragem de lugar talvez só seja acessível para um café para o bolso de muitos. Mas seja qual for o tamanho do seu bolso, dá uma ida ao lugar vale muito, mas muito a pena mesmo. Para compensar o preço salgadinho das refeições (o que se pensarmos que se trata de um menu completo não é tão caro assim), além das diversas estantes com livros clássicos, há exemplares da Revista História à venda pela bagatela de R$2,00.

Endereço: Rua Luiz de Camões, 2
Largo São Francisco • Centro
Rio de Janeiro • RJ

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#Pratododia: mãe trabalhadora

Na falta de ter com quem deixar a filha, mães trabalhadoras levam seus filhos e filhas para o trabalho. É sacrificante? Sim é. Mas é uma opção em casos de emergência, quando a mulher que é mãe, trabalha. A dureza não é somente para a mãe, mas também para os filhos. Em alguns casos, a situação é muito ruim para ambos, afinal, qual mãe quer ver seu filho precisar come uma quentinha no meio de ônibus?

Foi à cena do cotidiano que vi hoje ao embarcar na linha 484 (Penha-Copacabana) para ir ao trabalho. Como a função de trocador e motorista de ônibus não tem hora de almoço, muitos conseguem no máximo 15 de minutos de lanche, a opção de Taiane, de 7 anos, foi almoçar ali mesmo, no local de trabalho da mãe.

Sentada no banco atrás do motorista (para ficar perto dos olhos da mamãe, a trocadora), a menina comia o prato do dia (frango com quiabo, arroz e feijão) com a quentinha na mão e um garfo de plástico na outra.

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Ninguém morre porque passa por esse tipo de situação. Isso é fato. Mas sejamos sinceros: é uma situação um pouco indigna, não? Mexe com a autoestima. Basta ter um pouco de consciência, seja qual for: humana, religiosa, ou ideológica política.

A situação de Taiane hoje é só um instante do cotidiano que massacra a vida dos trabalhadores no Brasil. Eu já vi diversos motoristas e cobradores comendo em pleno exercício da função. A pior cena foi quando no ponto final da linha 350 (Passeio-Irajá), vi um motorista tirar a marmita do motor do ônibus. Uma tática para a comida ficar quente e não estragar. Comeu em 10 minutos. O fiscal apareceu e deu a guia a ele e o ônibus partiu.

Aquela cena ficou na minha mente por semanas. Principalmente, porque dois dias depois, eu assisti um entregador de comida almoçar (muito constrangido) em pleno METRÔ. Ele estava com duas bolsas: uma disposta ao lado dele (era a entrega), na outra no colo. Dentro da bolsa uma quentinha. Ele enfiava o garfo na dentro da bolsa, pegava comida e levava a boca.

Ao lado, passageiros reclamavam do cheiro de frango e maionese em um local fechado. Eu só me sensibilizei. A lágrima desceu junto com meu passo para levar meu corpo para fora do trem do metrô. Passei o dia com aquela imagem, somando a do motorista de ônibus que, agora, juntou-e com a de Taiane hoje almoçando no ônibus.
Também não tem como não conectar esse cotidiano há tudo que tenho lido nos últimos tempos em decorrência do mestrado. Poderia aqui citar a questão da consciência de classe necessária e consciência de classe contingente dos estudos do filósofo húngaro István Mészáros, perspectivas marxistas, citar a questão de hegemonia discutida em Gramsci, as considerações de Agnes Heller sobre o Cotidiano, etc. Mas sigo só com a vontade de contar sem firulas para vocês a dor que senti hoje ao ver Taiane tendo que comer no ônibus.

Por outro lado, também senti um puto orgulho daquela mãe ali, a trocadora. Trabalhadora, provavelmente mãe e chefe da família, ali exercendo seu papel de mãe, cuidando (ainda que não como ela gostaria) da cria. Lá estava ela, uma mãe trabalhadora como tantas outras mulheres dessa cidade, país e mundo, com sua função dupla mais que misturada.

Sim, isso é precarização da vida de ambas. Mas, independente das adversidades, essas duas mulheres, mãe e filha, estavam juntas. Batalham juntas e vivem a vida. É provável que quando Taiane crescer torne-se muito amiga da mãe, se já não é a sua principal companheira.

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