Apenas um desabafo

O Morro da Providência foi à primeira favela construída no Rio de Janeiro. Abrigou as famílias de soldados de guerra e com os passar dos anos, transformou-se no pólo das famílias de portuários. Ainda hoje, a comunidade é constituída pelos netos e bisnetos destas famílias, além de brasileiros vindos de todos os lugares, que escolhem a comunidade nas margens do centro da cidade para morar, seja pela proximidade das oportunidades de trabalho formal ou informal. Mais na última semana, noticias de uma guerra no morro da Providência, fizeram-me reviver lembranças quase esquecidas.
No noticiário da manhã de quinta-feira, nós, cariocas, fomos brindados com mais uma cena chocante, a de mais uma estudante morta por bala perdida. Esta, tinha vinte um anos e morreu enquanto dormia numa ação da policia, mas precisamente do Batalhão de Operações Especiais, o BOPE.
Segundo a polícia, a ação – que se iniciou durante a madrugada – tinha o objetivo de cumprir dez mandados de prisão, incluindo o suposto assassino de Priscila Belfort, irmã do lutador de Vale Tudo, Victor Belfort. Como de praxe, a versão oficial dos acontecimentos é sempre diferente, ou no mínimo, conflitante se comparada aos relatos dos moradores. Esta prerrogativa é comum, já que nossa imprensa tende a acreditar ou divulgar a história das fontes oficiais. E, também, porque poucos são aqueles que emitem suas vozes no meio destas tragédias.
Contudo, como disse, o noticiário particulamente remeteu-me às cenas vistas quando criança da laje de casa. A feroz vigilância no final da tarde de verão, fazia-se necessária, pois costumeiramente a policia estava no morro, sempre na mesma venda pegando o pagamento da semana. Mediante a isto, nenhuma criança do larguinho ousava descer para comprar bala naquele horário.
Entretanto, a recordação mais amarga é a de uma arma apontada para minha cabeça, com apenas seis anos de idade por um policial no quintal de casa. Felizmente, esses sustos fazem muito tempo que ficaram menos rotineiro, mas às vezes retorna como na manha daquela quinta-feira.
Até hoje, minha cabeça dá voltas por um motivo simples: como morei lá e conheço os atores sociais desta tragédia. E, talvez até tenha a confiança de muitos para ouvir os boatos, versões e noticias das ‘rádios becos’. Além disso, também posso dizer que sei distinguir as principais vias da comunidade muito bem, a ponto de ficar com um carrapato atrás das orelhas diante da versão oficial do incidente.
Assim, fica difícil acreditar num policial que vira para as câmeras de televisão e diz – apontando para o lado direito do morro – que os disparos foram efetuados pelos bandidos localizados no alto naquela direção, quando sei que geograficamente o alto do morro fica do outro lado, o esquerdo.
Minha incredulidade ainda é motivada pela a quantidade de balas cravejadas nas paredes da casa da estudante. A sensação de qualquer observador é que a casa foi metralhada, ou alguém já viu diversas balas perdidas irem para a mesma direção? Diante de tantas incoerências, no fim de semana, conversei com uma fonte da favela sobre a ação da policia. E, o que ouvi dela, veio ao encontro das minhas resignações.

Segundo esta fonte, o BOPE chegou de madrugada surpreendendo os “garotos” – ela os chama desta maneira -, não existindo troca de tiros entre o BOPE e eles. Os criminosos estariam encurralados no quintal dela, comunicando-se por rádio. Após muitos disparos e bombas – há diversas vidraças quebradas – os criminosos teriam pulado para outro quintal, onde foram presos.

Ela cita ainda, que uma prova da ausência de resistência, ou melhor, da possibilidade dela seria que os próprios polícias de baixo pediram para os colegas de cima pararem de atirar, pois estavam pondo em risco os companheiros e jornalistas presentes no local. E, após a interrupção, nem mais um tiro soou.

Mais do que isso, ela afirma que os traficantes só estariam vivos devido à ação dos moradores X e Y. Eles teriam supostamente impedido o cumprimento da ordem de execução do chefe da BOPE. Ainda, a mãe de um deles apareceu, começando a gritar e tirar a roupa para chamar atenção da imprensa. Somente após isto, eles teriam sido deslocados para a quadra no pé do morro já presos. A fonte também diz que a estudante foi socorrida pelos moradores da favela, e não pela polícia.
Semana passada, pela segunda vez, a polícia esteve na casa onde a estudante foi morta. Segundo relatos de outros dois moradores, nada foi modificado dentro da casa, até mesmo na hora do assassinato, os vizinhos se preocuparam em não deixar ninguém limpar o sangue da estudante para assim, a imprensa filmar a cena da real do assassinato.
Mas para eles, a realidade é que não modificar a cena do crime de nada aumenta as chances de prisão dos culpados, ou melhor, de uma investigação correta apesar dos esforços da imprensa e da perícia. O senso de injustiça no patamar social é unânime. Para eles, a única justiça existente para favelados, ou seja, pobres é a Lei de Deus.
Quanto à estudante morta, contaram que ela foi dormir na casa da tia para não ficar sozinha, pois a outra tia que morava com ela estava no Hospital, passando a noite com um irmão doente.
O que impressiona são os detalhes da narrativa dos moradores, além de que as denúncias não são novidades. Para quem assistiu os documentários ‘Noticias de uma guerra particular’ da Kátia Lund e Moreira Salles, ou mesmo, o ‘Falcão – Meninos do tráfico’, do MV Bill e Celso Athayde, ou ainda, para uma ex-moradora do morro da Providência, o fato faz parte da banalidade comum existente no alto dos nossos morros.
E, as perguntas que ficam martelando são sempre as mesmas: por que, quando e como a policia poderá cumprir mandados sem julgar a favela como território livre. Não discute-se a necessidade da intervenção da polícia nas favelas, mas é inconcebível que em pleno século vinte um ainda não exista um serviço de inteligência no Rio de Janeiro. O resultado é um ódio crescente nas massas pobres, criando um estigma e um ciclo de vida ou seria de uma pré-morte perpetua para nossos policiais, que no fim de tudo é a mesma presente nestes ex-garotos, desde que entram para a fábrica do tráfico.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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