Notícias de uma guerra social

Moro próxima à favela. Mas na cidade do Rio de Janeiro quem não mora?
A diferença é que no subúrbio as notícias chegam velozmente, pois o limite entre a favela e o asfalto é menor. Principalmente, quando se têm um informante particular como eu – nada mais natural, afinal, tenho ascendência nordestina e as favelas cariocas são grandes redutos deste povo, que vem ao Sudeste à procura de oportunidades.

Além disso, independente de você morar ou não em alguma comunidade, em todas elas há festas regadas a muito forró e, portanto, nordestino que se preze sempre freqüenta um destes bate-coxas, e meu informante não foge da regra.

Desta forma, as notícias dos “acontecidos” na favela sempre chegam ao asfalto sejam boas ou ruins. São fatos que não serão veiculados pela mídia. É o boca a boca que dá conta dessa demanda não absorvida pela chamada “mídia oficial”.

E numa manhã de sábado, a esta tal “fonte não-oficiosa” bateu na minha porta com uma notícia estarrecedora: – Tati, você não sabe o que aconteceu lá no Complexo.
-E mesmo o quê? Não passou nada na tevê.
-Ih, é ruim disso passa em jornal, hein. Esse tipo de coisa não vaza!
-Sei, sei… Deixa disso, sempre vaza. Tanto é que você vai me contar agora. (risos)
– Mas só assim mesmo.
– hum, pode ser. Ah, mais deixa para lá. Melhor não saber. Depois…
-Os caras lá da V. do João quebraram uma menina.
– Ué? Por quê? Estava no tráfico? Qual a novidade?
-Não, era mãe de família. Quer dizer, o problema era esse: ela devia ser uma mãe de família e não fez o serviço direito.
-Ah…?
****
Sábado à noite, é dia de baile funk. A “homarada” espera a semana toda por isso, e claro, as tchutchucas e cachorras também. Afinal, é o “point” certo da pegação regada a muita cerveja e suor, ou seja, “o programa imperdível”. Além disso, muitas vezes, é a única opção de lazer da juventude dentro da comunidade, e quando se é jovem “o programa imperdível” tem cheiro de liberdade. Agora, imagine qual é a sensação de não se pode mais fazer parte da festa? É quase a morte, não é?Principalmente, para uma jovem que há pouco tempo rebolava todos os sábados ao som palpitante do funk, é difícil aceitar que todos só amigos estarão lá, mas ela não.

Pior ainda, é ouvir de longe, sentir a vibração dos amplificadores gigantes balançando a janela do quarto, lembrando tudo de bom que está para acontecer no baile, mas sem você. É neste momento que a menina se pergunta: Será que não dá mesmo?
Do questionamento a imagem dela refletida no espelho é um pulo. O pensamento voa para onde não deveria e, ela se arruma. E pensa: será rapidinho, só duas ou três músicas, uma cerveja e volto para casa. De fato, as tragédias sempre acontecem em um piscar de olhos, apesar de o tempo parecer durar séculos nestas horas.

O que era para ser meia horinha de desconcentração se torna uma madrugada inteira, até que alguém diz que são 3 ou 4 da manhã e é necessário corre para casa. E, foi no primórdio de uma alvorada que a favela inteira acordou ao som gritos, chamando atenção de todos os vizinhos.
Ao retornar, ela se depara com a realidade que ela não aceita há cerca de 5 meses. Ela não era mais uma menina, é uma mãe e tem um bebê que precisa ser zelado à noite inteira, por mais que pareça que ele não acordará.

A pequena Luiza que fora ninada há algumas horas atrás, estava agora morta sufocada pelo vomito e a falta de ar de horas seguidas de choro, porque sua mãe funkeira A, de 17 anos, presumiu que ela dormiria a noite toda como sempre, principalmente após ter mamado tanto e não ter dormido à tarde. Oportunidade perfeita para uma escapadela até o agito da noite na favela.

O resultado foi rápido. Houve consenso na boca. A jovem A, não podia ficar impune. Em menos de 12 horas, mãe e filha teriam destinos semelhantes, mas não dividiriam o mesmo enterro. Não há luto para quem é julgado sumariamente pelo tráfico, simplesmente porque não existe corpo a ser velado (aliás, este é um dos motivos das estatísticas sobre os homicídios no Rio, não serem confiáveis).
Na favela, todos – somente em casa protegidos por quatro paredes – contavam baixinho sobre a morte da mãe funkeira. Dizem que morreu desfigurada, sem face e mutilada, e só então, foi incendiada. No mesmo dia, a moradora da favela que voltará da casa da Patroa, depois da semana de trabalho, perdeu o direito de ser chamada de mãe e avó. Logo depois, fechou a casa e sumiu.
E nas biroscas, mercadinhos e até no baile funk somente se repetia o aviso da boca:
-Quem quer ficar na putaria não põe filho no mundo. Ou se é puta ou se é mãe! Quem vai ser a próxima?
*********
Meu informante estava certo. Nunquinha este fato seria noticiado pelos jornais cariocas.

P.S: optei por não pôr imagens ilustrativas. Se alguém puder ilustrar algo assim, por favor, explica-me.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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