Uma conversa ao lado, uma vida à três

Sexta-feira. Enfim, a esperada sexta-feira.
Pego uma van e sigo rumo a Lapa, o telefone toca da passageira ao meu lado toca. O papo dela com uma amiga segue amistoso. Incomoda-me no início, tento ouvir radio no celular, mas não consigo, pois a voz dela junto com o barulho da rua sufoca a música do momento “Oh, natiruts reggae power chegou…”.
Desisto da música, e troco de estação, fecho os olhos até que o silêncio ao lado chega do nada. Depois de alguns segundos, meus ouvidos aguçam-se pela história que estar por vir da minha companheira de viagem.
-Amiga, desculpa meu sumiço. Estava sem celular. Este aparelho aqui é emprestado e só consigo receber porque a tela está com defeito igual ao teclado. Por quê?
(novo silêncio)
Um suspiro forte.
-Porque fui roubado pelo meu sobrinho. Sim ele mesmo, meu sobrinho que mais amo me roubou.
Não sou alcoviteira, mas a partir daí, mesmo que tentasse não conseguiria mais me concentra em nada, principalmente na frase cantada numa outra música de sucesso, por Vanessa da Mata, “Acabou, boa sorte”.
**************
O sobrinho passara o fim-de-semana com a tia. Tem exatos 12 anos, completados há uma semana. Mesmo desempregada, ela levou o sobrinho para o desafio de Mcs no Viaduto Negrão de Lima, com direito a pizza depois. Foram para casa. De manhã, levou o sobrinho até a escola e resolveu ligar para um amigo, mas não encontrou o celular na bolsa. Procura dali e acolá e nada.
Até que resolve reconstituir seus passos em casa até o café da manhã e se lembra que colocou com certeza o celular na bolsa após ter lido o torpedo do namorado. A bolsa ficou aberta em cima da mesa da cozinha, onde estava o sobrinho comendo pão e, de lá ela abriu a porta e foram…
Não, que tolice pensou. Deve ter caído na cozinha. A procura segue até que senta na cozinha e chora. Tem certeza que fechou o zíper da bolsa antes de sair. O celular não caiu na rua. Parece impossível, mas a única explicação é o telefone ter sido pego por alguém de dentro da sua casa. Mas só estavam ela e o sobrinho. Bobagem pensa. O sobrinho deve ter visto de repente até pegou o celular para jogar e sem querer guardou na mochila.
Volta à escola para buscar o telefone, afinal alguma empresa pode ligar marcando uma entrevista. Pergunta ao sobrinho sobre o telefone. Ele fica assustado demasiadamente. Gagueja e diz que não sabe de nada, mas apesar dos apelos de inocência o pânico, o jeito do sobrinho o denuncia.
De volta em casa, ela pressiona até que o sobrinho começa a chorar e diz: – Tia peguei, mas não conta para minha mãe. O motivo ele do roubo ele não fala.
Depois do choque, ela demorou uma semana para conseguir falar com a irmã. Decidiu contar, alguma coisa está errada, o que será?
Já aguarda uma primeira descredibilidade da irmã, mas se surpreende com a resposta que ouve pelo telefone: – Meu Deus, desta vez ele foi longe demais. Calma irmã vem para cá agora. Você nem imagina, o PH, está aprontando e não é de hoje.
********
A partir daí mãe e tia tentam reverter à situação. A tentativa é impedir desde já que o menino siga os passos do pai, que se envolveu adolescente no tráfico de drogas como fogueteiro. Mais tarde, arrumou um emprego de segurança de loja, onde conhecera a futura mãe do filho. Mas o emprego era apenas um disfarce para cometer assaltos. Foi preso e acabou morto dentro do Sistema Carcerário Brasileiro. O menino sabe de toda a história. a mãe quis usar o exemplo do pai para afastar o filho de más companhias e dos caminhos errados da vida. Mas por algum motivo ainda oculto ele estava extremamente revoltado e agora, roubou o celular da tia.

As duas foram na escola conversar com os professores e a diretora. Ouviram que ele andou discutindo com um dos meninos do tipo que não se devem ter atritos. E logo depois, começou a fazer favores. Os professores perceberam várias vezes, que as conversam não eram amistosas.

Além disso, a família também teve a testemunho de um dos professores. Ele viu o menino entregando o celular para um outro aluno. Para aula, apura daqui e ali. Descobre se que o tal aluno já repassou o celular para boca e que ficou com o dinheiro.
*******
O fim desta história eu não sei. Só tenho conhecimento que a tia está evitando o sobrinho porque o menino já percebeu a mágoa dela nos olhos – ela tem medo que isto o afaste ainda mais da família. Veio junto com o pedido de desculpa e o apelo para acreditar nele, que o roubo foi o primeiro, que teve que fazer isso, que morre de vergonha todos os dias de ir para escola porque todos ficaram sabendo, e que ele não foi para conseguir dinheiro e nem drogas. Mas então, por quê? Fica mudo.

Escola, mãe tia estão atentas a todos os passos dele. E a tia diz a amiga: – Não vou ver meu sobrinho virar estatística. Não vou.

Cinelândia, meu ponto, hora de descer e encontrar os amigos para papear e bebericar uma cerva numa noite quente. A personagem inicial desta história também desce e caminha junto comigo rumo a Lapa. Fita-me nos olhos sabe que ouvi a conversa.

Fala amenidades até que diz: – Quer saber, vou tomar um banho me arrumar e ir para o Baile charme no viaduto de Madureira. O que você acha?
– Uma boa pedida. Ótimo para a gente relaxar e ainda, serve para a gente acordar para um novo dia. Ter um novo olhar para as coisas da vida. (risos)
-Obrigado, também acho.

A partir do bar Arco Íris, fico a espera da minha prima sozinha, que estar como sempre atrasada e, a espera de uma nova fase na vida destas três pessoas que passei a conhecer mesmo de relance, quase sem querer e de forma tão forte, em apenas 40 minutos entre Ramos e Cinelândia. Coletivos são incrívéis, não?

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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2 respostas para Uma conversa ao lado, uma vida à três

  1. Nossa, ja ouvi cada historia tb no 238, indo para o mesmo destino, a Lapa… Mas essa bateu todos os recordes… Dava um livro, ou, no minimo, um belo capitulo! ate, e otimo 2008 pra vc!!

  2. ENCENA disse:

    é.. coletivos são inesperáveis memso… acho q vc pode re-publicar uma série de coisas ( ou histórias que acontece com vc dentro deles né tati, lembra do cartão de credito passando na roleta de onibus?? essa eu não esqueço nunca. BJs !!!!

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