CARTAS QUE NÃO ESCREVI EM 2007



I

Caro Sr. Presidente,

Olhando para trás é quase inacreditável afirmar que 2007 teve apenas 365 dias. Entre discursos sem tempo para acompanhar, entrevistas não assistidas, fica a sensação do ano não ter sido dos melhores também para o senhor, ainda que os números demonstrem outra coisa. Mas números são números e sabemos bem disso. Justo, não é mesmo? Afinal, como todo bom brasileiro, a vida não está fácil.

A perda da CPMF deve tê-lo abalado, apesar das entrevistas nas quais afirma não ter o fato lhe tirado o sono. O que de certa forma me tranqüiliza, pois um presidente descansado e bem-disposto é tudo o que mais precisamos para o próximo ano.

Eu tive lá minhas insônias. Não é fácil quando não se pode comandar o destino, ficando à mercê de interesses sabe-se lá de quem e pra quê. Mas, hoje, dormirei, sim. Sem remorso. Consciente de ter feito o possível, de ter passado um ano bom. Não pretendo viajar. E o senhor, vai mesmo para o Rio? Bom, isso não é da minha conta, mas, ainda correndo o risco de me intrometer demais, acho melhor o senhor não ir de avião. As coisas continuam desarranjadas. E nunca se sabe quando um outro pode cair, derrapar, não frear… Use um bom carro, um desses novos modelos. Ou então um mais antiguinho, daqueles do tempo de São Bernardo. Na volta, se não for pedir muito, o senhor poderia me trazer uma cópia dos filmes em lançamento por lá? Não pagar o frete já é uma ótima economia…

Gostei dessa idéia de não permitir mais o uso da língua estrangeira em estabelecimento comercial. Imagino que sinta a mesma frustração minha afinal nem todos falam outro idioma, e nem por isso somos menos que… que… o resto do mundo. Só acho confuso, então, quando a questão é o português. O de Portugal é estrangeiro ou não? Juntar tudo não é meio esquisito? Gosto da maneira como nossa língua se formula. Gosto de falar e escrever do nosso jeito. Eu sei, é um pouco complicado, o senhor tem razão. Vejo o senhor se atrapalhar e muitas vezes querer dizer uma coisa e sair outra. Mas essa é a graça da nossa língua! Há 500 anos falamos uns com os outros sem conseguirmos nos entender. Por isso acho bonito e até me emociono quando ouço o senhor se enrolar.

Mas voltando ao assunto, que ano difícil, não é? O coringão na segunda divisão, as reformas que não foram feitas… E, em ambos os casos, é curioso perceber que a maior oposição era “si mesmo”! Descompassos de meio de campeonato. Vamos em frente! E se o timão foi pra segunda, o senhor vai pro terceiro. Tenho fé! 2010 já está no papo… Só é preciso acertar o meio-de-campo, trocar os atacantes e, quem sabe, arranjar um juiz camarada.
E nem tudo foi tão ruim assim. Pera lá! O Renan Calheiros foi uma vitória homérica. Tanto se quis, e ele vem se livrando caso a caso. Como o senhor desejou. Desculpe. Como o governo desejou… Essas coisas de “ser” e “estar” me confundem um pouco…
Mudando de assunto… Bonito o paletó enviado pelo Evo Morales, heim? Elegante. Gostei. Poxa queria ter amigos assim também. Roupa importada…

Bom, presidente, 2008 está aí. Agora é com o senhor. Eu vou no ritmo que consigo e no que me permitem. Sempre esperançoso de serem minhas neuroses apenas neuroses. Só um último conselho, porém: aquela cachacinha de antigamente… fico triste que tenha parado. Havia certo destempero antes que era bem interessante.

II
Nossa mãe,

Não te escrevo há muito tempo! Peço perdão. Acontece que te escrever é lembrar que não está mais comigo. São sete tortuosos anos sem lhe desejar Feliz Natal, Feliz Aniversário, Feliz Ano Novo, Feliz Dias das Mães…

A nossa menina tá linda. Prestes a fica mocinha, mas ainda é nossa menina porque conserva uma ingenuidade rara nos tempos de hoje. Vê se pode? Tem 12 anos e pediu uma Barbie de presente. Não para mim, pois sigo na minha missão de fazer ela e a Rebeca gostarem de ler.
Comprei uma caixa com livros do Ziraldo para as duas, já presentei-ás com quadrinhos do Laerte e Quino. Foi a primeira vez que elas devoraram um livro. Lembra que também comecei assim? Amando quadrinhos e depois de alguns anos fascinada por qualquer papel que reproduzisse um texto independente de qual fosse?
Sua irmã, tão querida e leal, envelheceu. Mais do que deveria nestes últimos sete anos. Foi às angústias e sustos da chamada vida. Sabe mãe, ela não aceita que perdeu você. E, em especial nas festas de fim-de-ano ela sofre. Entra numa letargia, num saudosismo que dói de vê. Tudo começa pela saudade da sua salada de bacalhau até chegar à fé que você depositava nas suas filhas. Ah, ela ainda me chama de menina, apesar de já ser uma mulher de 28 anos – mas acho que você também me chamaria ainda assim, né?
Além disso, houve um segundo flagelo: a morte do Gilmar. Sim, mãe, seu compadre morreu. Porém, até os últimos dias ele cumpriu o seu pedido de cuidar da sua filha mais nova. Criou-a muito bem, transmitiu para ela uma educação e caráter que parecem até seus. E, nunca fez distinção entre uma e outra. Mas isto, você já saberia que seria assim. Sua irmã, também faz tudo por ela. Acertou em cheio! Achou que nem mesmo eu poderia cria – lá tão bem. Entretanto, Mãe, a saúde de sua irmã não é mais a mesma e isso me preocupa muito.
Mudando de assunto, ela agora é catolicissíma. Ajuda até o padre na missa. Foi através da fé em Deus que ela suportou estes sete anos de perda das pessoas que mais ama. Mas, claro, como todo Silva que se preze continua a bebericar uma cervejinha….
Outra novidade é que descobri uma companheira na família. Isso mesmo, igual a você e a Tia Vera. Eu e sua sobrinha Karine estamos super unidas e amigas. Reze por nós, pois quero os “Olhos de Boneca” sempre comigo. Sabe às vezes a gente briga. E já viu né? Quando as duas batem o pé, fudeu! Ops…
Trago também notícias de seus sobrinhos. O Duquinha voltou a estudar e os meninos, dividem um táxi agora. Ah, o Duquinha casou-se com a Renata e tem um filhinho Lindo!
Bom, quanto ao papai, é complicado falar. Amo painho, mas tem horas que quero sumir. Acredita que ele já casou mais duas vezes! Vê se posso com isso? Contudo, mesmo assim, amo ele e sei que, dentro do jeito dele de amar – você sabe que ele é uma pedra de gelo, né? – sei que me ama e tenta ao seu modo, fazer algo por mim. Somos a própria encarnação do desenho do Tom e Jerry…
Voltando a nós… Mainha, to com muita saudade. Chamo por você praticamente todas as noites. E ultimamente, quase todos os dias, tive pesadelos com o dia da sua morte. Acordo gritando, suada e triste, mas, depois como tudo na vida o pesadelo passa e, volto a dormi mesmo sentindo falta de teus braços a me proteger.
Mãe, sigo firme no objetivo de te fazer mãe de uma filha formada. Entrei para a faculdade de Jornalismo que tanto sonhamos, mas a grana encurtou. Entretanto, não desisti. E agora, ganhei uma bolsa integral para concluir a faculdade. Peça por mim, porque ainda falta a aprovação da documentação, mas tenho certeza que dará, afinal, foste tu que me ensinaste a ter ideais e fé em mim.
A única parte chata é que são justamente netas horas, as das conquistas, vitórias e sucessos que mais sinto falta de ti. Volto para casa, mas não tenho ninguém torcendo por mim. Assim, todas as alegrias têm cheiro de uma mistura de doce e amargo. Aliás, o dia mais difícil será daqui a dois anos. É minha formatura e você, mamãe não estará lá…
Creio que você teria orgulho de mim. Foi um ano difícil, mas meus atos falam por si. Mostrei ao mundo de quem sou filha. Cai, chorei, deprimi, sorri, beijei, amei, compartilhei, lutei e no final de tudo, me olhei no espelho e vi você. Vi uma mulher cheia de defeitos e qualidades que goza da vida como lhe provém e que, antes de qualquer coisa, têm objetivos e metas – os famosos ideais que tanto falava – e assim, faz a roda da vida gira.
No mais, está tudo indo bem. Em 2008, devo chorar por ti alguns dias, mas choro, mãe, por ter a certeza de ter sido amada pelo ser humano mais fantástico que conheci na vida. Além disso, também terei iguais e diferentes desafios. É a roda a girar de novo como um moinho d’água.
Término por aqui, tentado fazer com que estas linhas cheguem ao espaço do céu e pisquem ao som de “EU TE AMO, MARIA EMILIA” como uma estrela, pois desde pequetita, que aprendi que os mortos viram estrelas.
E, na mais pura ingenuidade de criança, acredito e te procuro no céu.
Beijo na boca, mainha.
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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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