4 big macs e uma sobremesa

A vida inteira, ouvi meus amigos fazendo altos comentários sobre prostitutas. Passei a adolescência escutando histórias sobre elas, principalmente quando o mais famoso prostíbulo da cidade mudou de endereço, e, foi parar na rua mais freqüentada pela minha turma de escola, a famosa Rua Ceará, palco do extinto Garage. Um local onde assisti bandas como Ratos de Porão, Planet Hemp, entre outros, e, por isso, era nosso paraíso rebelde que infelizmente já fechou. Bom, mas o assunto deste bate-papo é outro.

A questão aqui é que o personagem das prostitutas sempre figuraram de algum modo o meu (in)consciente. Claro que guardava isto em segredo absoluto até agora, que resolvi contar e explicar o por quê.

Pois bem, quando criança minha mãe freqüentava um salão no Flamengo e no retorno para casa, via as “mulheres de trabalho fácil”, nas ruas “produzindo”. Depois de um tempo, o cabelereiro oficial de “mama” se mudou e lá fomos nós para o Centro. Ali também via as “rameiras” em ação, como dizia o meu pai, um nordestino e absolutamente sempre me indaga como elas no íntimo. E assim foi por toda minha infância. Seja na orla de Copacabana ou nas telas – sim, porque os autores de tevê e cinema gostam “muito” destas profissionais -, fui crescendo observando estas personagens da vida urbana e óbvio o meu maior desejo era conversa com uma delas.

Aliás, para ser mais clara, a verdade é que tenho um certo fascínio pelas figuras noturnas da cidade. Fico me pergutando como essas pessoas podem se sentir tão seguras, nos mesmos lugares que nós nos sentimos tão expostas. Nunca consigo parar de pensar nisto quando no caminho de volta para casa, vejo homens, mulheres, crianças e até prostitutas pela vidraça do ônibus, durante a madrugada que volto da Lapa.

Enfim, tantas perguntas tão precocemente me levaram ainda pirralha a tentar achar respostas.

Aos 12 anos, minha professora de Literatura – uma senhora de cabelos curtos cor de mel e de óculos -, depois da turma ler o livro Dom Casmurro, de Machado de Assis – uma obra onde vários personagens são narrados tendo como ofício as chamadas profissões liberais – passou um trabalho para classe. Toda turma deveria se dividir em gurpos para entrevistar um profissional liberal e saber como era exercer este tipo de atividade. Podia ser qualquer profissão: médico, dentista, advogado, etc. A única regra é que fosse um profissional com atividade liberal.

Pois bem, como habitual fiz meu trabalho com os meninos porque sempre odiei os faniquitos femininos, as capas rosas e os babados de papel crepom. Por isso, sempre tinha meu grupo de salvamento para estas horas – calma, não sou e nem fui lésbica -acontece que o universo masculino curiosa como era sempre me causou mais curiosidade. Afinal de contas, mulher era coisa que não faltava lá em casa e também, para ser sincera sabia que as meninas não iriam topar conversar com quem queria.

Sim, porque tive a brilhante idéia de entrevistar uma prostituta. O grande problema era “como”? Depois de muita indagação eis que surgi uma luz no fim do túnel: – Que tal chamarmos uma em casa?

Franzi a testa. Todo mundo riu e depois de algum tempo refletindo, não é que esta idéia era perfeita!

Então, abrimos o jornal e começamos a escolher pelo nome que parecece menos sombrio. Sim, porque Veruska, Natasha e Tyfani é meio bizarro para uma turminha de menos de 13 anos, chega a ser obsceno.

Daí que minah estratégia começou a ter problema, pois logo percebemos que esta “entrega em casa” ia custar caro. Mas se nós….calculassemos em Big mac’s…até que…Pronto. A chave era essa. O gasto do trabalho de escola seria o valor de 4 big macs para cada um (o que na época dava cerca de vinte pratas). Para arranjar o dinheiro tivemos que esperar até completar quatro idas ao cinema e óbvio uma saída estrategica da minha mãe, justamente num dia que só largaria bem mais tarde do trabalho.

Ligamos para várias que bateram o telefone na nossa cara, mas especificamente na dos meninos. continuamos tentando até que uma aceitou: a Sra. Márcia. Achei ótimo parecia nome de professora e de uma profissional experiente, pois não era um nome em voga ou moda da novela. Estavamos radiante e de verdade achamos que iria ser fácil, afinal, o raciocínio era lógico ela trabalhava por uma hora pelo valor de R$80. Logo, ela chegava faziamos as perguntas e pronto, estava feito nosso atividade escola.

Porém, quando ela chegou as coisas não se sucederam nesta ordem e ela queria ir embora na mesma hora. Foi um caos total. Depois de tanta economia a minha oportunidade segurava a porta entreaberta e dizia que em grupo era mais caro e ainda, que com uma ninfeta lésbica ela não topava. Para completar ela tomou um puto susto quando revelei o que queriamos: – Mas a gente só que conversar com senhora!

Até hoje, não sei se o susto foi por causa da “senhora” ou da palavra “conversar”.

Ela parou, respirou, esbugalhou o olho e fez um som. Sabe aquele barulhinho quando alguém engole algo a seco? Encarou-me por alguns segundos que me pareceram horas e riu incrédula: – Minha filhinha vai sacanear outra vocês estão fazendo eu perder mue tempo, e, tempo na minha carreira é dinheiro.

-Mas eu pago pelo seu tempo. O dinheiro esta ali na mesa de centro, pode olhar, Senhora! – a esta altura todos os meninos estavam estáticos.

– Olha aqui?

-Senhora a porta ta aberta e vai continuar aberta o tempo que a senhora quiser. Seu pagamento esta ali (apontei para a mesa) se quiser pode até pegar já mesmo sem falar uma palavra a mais. Eu só não entendo qual é o problema. Qual é o problema de nós te pagarmos para conversar?

-Como é que é coisinha?

-A senhora não é uma profissional? Não exerce atividades liberais, sem vinculo empregatício fixo? Sua profissão não é autônoma, assim como a do meu pai que é comerciante diferente da minha mãe que é auxiliar administrativa e tem que bater ponto todo dia? Não é? Muito bem, é disso que preciso. De uma profisisonal liberal para entrevistar e fazer meu trabalho da escola.

Foi ai, que a Sra. Márcia se sentou e virou a Sra. Maria aparecida. Mas não antes de pegar o dinheiro e olhar atrás de alguns móveis e paredes. E resolveu enfim, nos conceder a tão esperada entrevista, repetindo hora ou outra a frase “Você é uma menina muito má, sabia? Vai dar um trabalhão para sua mãe? Não quero está na pele dela. Você não vai ser fácil!”. A partir daí, todo mundo na sala relaxou, os garotos, a Dona Maria Aparecisa e eu, claro. Sim, a rainha da situação estava quase indo chorar debaixo da cama com as bochechas quentes.

Para deixa ela a vontade ofereci biscoito e coca-cola e expliquei que não deu para comprar salgadinhos ou pasteizinhos, porque não sobrou nada do dinheiro da mesada. Ela riu. Aliás, ria muito, custava acreditar naquela cena, e, acho que só levou fé mesmo quando mostrei o meu caderno com a descrição do peculiar trabalho escolar.

Bom, e foi assim que eu entrevistei aos 12 anos uma puta.

O final da história vocês podem imaginar, não é? Minha professora gritava o tempo todo “profissional liberal não é isso. Não era desse tipo de liberalismo que eu estava falando Tatiana Lima”. Além disso, também balançava a cabeça e urrava para todos os lados: -Como vocês puderam? Como? O que vocês têm nessas cabecinhas?

A verdade é que experimentei o apocalipse ali. Todos fomos parar na “secretaria”, onde eu cansava de responder que ao contrário do que imaginavam a idéia tinha sido minha e que “não fui obrigada aceitar a situação pelos meninos”.

Para completar, a professora quase me deu com o apagador na cabeça quando argumentei com ela sobre o fato, pois ela não cansava de repetir que e disse que tínhamos entendido tudo errado, e que ser prostitua não era ter uma profissão liberal e sim praticar um crime.

-Ué, mas a Capitu não é presa em Dom Casmurro? Como pode o maior escritor do Brasil não ter posto uma criminosa na cadeia no livro dele? Aliás ela teve até redenç..

-Tatiana, cala boca!

Bom, daí o diretor que esbugalhou os olhos em minha direção, já tinha passado a mão no telefone e ligado para minha mãe, que ficou meio pasma como todo mundo com a história da filhinha dela ter recebido uma prostituta em casa. Ruborizada, ela me olhou feio, mas mesmo assim, não aceitou que fosse suspensa pela escola.

Levei o meu primeiro zero na vida, mas depois a professora deixou a gente fazer um outro trabalho desde que aquele fato nãos e repetisse mais “Entendeu Tatiana Lima”, repetia repetia e repetia. Pra ser sincera, não tinah muito mistério e compreendi tudo “direitinho” ou entrevistando um contador ou outro profissional com atividade “aceitável e tolerável” ou continuavamos com nota ZERO.

Para não deixar dúvidas o que era socialmente correto, ela deu uma aula explicando tim por timtim o que era de “verdade” um profissional liberal citando como contra-ponto o por que de prostituição não ser admissivel e, o por que não se chamava prostitutas para tomar chá em casa – pensei em interromper para dizer que na verdade tomamos coca-cola, mas deixei para lá, já estava encrencada demais.

Em casa, mamãe pediu explicações e que fossem boas. Disse tudo. Como? Onde? Por que? Quando? Durante a narrativa, fazia ela se lembrar do que havia me ensinado, que as pessoas são exatamente isso, “pessoas” e por isso, independente de qualquer coisa devemos respeitá-las. Inclusive recordei que uma vez ela disse que não era perigoso andar onde prostitutas trabalhavam porque ali não tinh assalto!

Com um riso meio de lado e me olhando de cima em baixo, ela repetiu o que já tinah ouvido da Dona Maria Aparecida que “eu era muito esperta e nada fácil”. Comentei a coincidência com ela e que a “Dona Maria aparecida”, tinha deixado uma beijo e um bilhete para ela – até hoje não sei qual era o recado. Só sei que o olho dela ficou molhado.

Depois ela me abraçou e me fez prometer que nunca mais iria fazer aquele tipo de cosisa sem consentimento dela. Ah, e me pediu o livro Dom Casmurro para ler.

Na escola, também teve uma reunião de pais que pediram a expulsão da gente, pois “tinhamos violado todos os padrões de comportamento aceitáveis para permanecer no mesmo ambiente que seus filhos”. Outros ligavam para minha mãe perguntando se eu estava bem e se ela precisava de algo, mas a verdade mesmo é que queriam apenas sondar. O diretor acalmou a massa patriacal da escola e pediu a orientadora educacional para acompanhar a minha vida escolar e família de ‘bem pertinho’…

Mas depois de tanto alvoroço, a parte mais chata mesmo, foi ficar respondendo e repetindo absolutamente seguidas vezes a mesma pergunta e história

-E aí vocês afinal de contas, comeram?

E para esta pergunta, tanto eu como os garotos respondíamos sempre a mesma coisa:

Comemos. Quatro Bic Mac’s!

Ninguém acreditou.


P.S de final de canto da página:

A Dona Maria Aparecida era muito “boa” e fez um acordo. Só falava depois que soubesse como conseguimos tanto dinheiro.

Contamos que guardamos o dinheiro do lanche e calculamos o serviço pelo preço de big macs, pois nossos pais sempre davam dinheiro para irmos ao Mc Donald´s depois do cinema. E por isso, tinha um mês que não iamos lá. Uma tragédia.

Ela se solidarizou com a gente e resolveu não só falar como cobrar o preço de apenas 3 big macs para cada um. Assim, depois da entrevista fomos com ela no Mc Donalds mais próximo da minha casa e comemos enfim, exatos 4 Mc ofertas de Big Mac’s porque ela preferi Mc fish.

Teve até sobremesa…Mas o sundae foi por conta dela lá no Bob’s, porque o de lá é mais gostoso, ou não é?

Fonte: anotações da agenda pessoal 1992
Imagens: Google

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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12 respostas para 4 big macs e uma sobremesa

  1. filipe disse:

    Adorei a recomendação. rs é… e eu que não acreditava quando me diziam que em sindicato só dá maluco. rs

  2. Anonymous disse:

    Conhecer a vida e saber dizer a vida é uma habilidade de poucos! Você é demais garota! Incrível como entendemos direitinho o que vc está querendo dizer, parece uma conversa frente a frente, eu estava na verdade conversando com seu texto! Parabéns!!!Aley macedo

  3. Anonymous disse:

    Conhecer a vida e saber dizer a vida é uma habilidade de poucos! Você é demais garota! Incrível como entendemos direitinho o que vc está querendo dizer, parece uma conversa frente a frente, eu estava na verdade conversando com seu texto! Parabéns!!!Aley macedo

  4. Olá , Estou de volta… Tive um problema no meu PC.Aguardo uam visita sua no meu blog.Abraço!!!

  5. Rodrigo Seco disse:

    Sensacional….Infelizmente nosso “projeto” educacional está equivocado, preso a “padrões” ultrapassados e que não consegue valorizar a ousadia, o talento das pessoas quando jovens…No Japão, já teriam te colocado em uma escola especial para reporter.. ahahahaah Tudo bem… é só para engenharia, medicina e computação… mas de qq forma, esse dom deveria ser trabalhado, lapdado e nunca inibido.Mas enfim… bom texto…

  6. E aí tatianaLembra de mim?? Fiz um video seu na festa Tropicália no cine lapa com o link do site, quando souber como se passa video do cel pro pc, eu te envio.Muito bom o relatobeijos

  7. Rafael José disse:

    Te achei na lista pro Enecom e vim ver seu blog, simplesmente ótimo!Se puder me add no msn, adoraria poder conversar contigo!rjsdesouza@hotmail.com

  8. Rafael José disse:

    Te achei na lista pro Enecom e vim ver seu blog, simplesmente ótimo!Se puder me add no msn, adoraria poder conversar contigo!rjsdesouza@hotmail.com

  9. Anonymous disse:

    Oi TatiMuito bom. Silvia

  10. Silvia disse:

    Cara, muito bom!!! minha vó era prostituta e também tenho essa curiosidade, mas, mesmo quase terminando a facul de jornalismo não tive a mesma coragem q vc!!!mas, quem sabe um dia!!!PARABÉNS!!!

  11. Anonymous disse:

    Você era uma menina a frente do seu tempo … infelizmente imncompreendida pelo sistema … pq a gente não estudava na mesma escola !!!rsrsrsrsrsUm beijo !!!

  12. Andrééé disse:

    Sensacional!Nem preciso dizer mais nada.Isso é uma história.. hehe.Parabéns pela iniciativa.Beijoo!

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