Música politicamente correta ::

Misturar música e política é sempre assim, complicado. Pior que votar num candidato desonesto, é descobrir que a banda com quem você se identificava não dava a mínima para o que estava falando. Existem poucos artistas que fazem isso. Menos ainda que façam bem.

Sempre usada como uma arma política na busca desesperada por votos, seja em forma de showmícios ou jingles, a música nem sempre teve esse papel. Seja no Brasil ou fora, música era sinônimo de liberdade de expressão. De revolta com o sistema vigente. De luta desarmada em prol de um mundo melhor.
Desde Beethoven até chegar a Elvis, Beatles e Stones, passando por Stooges, Ramones, Sex Pistols e Clash até chegar em U2, Public Enemy e Rage Against The Machine, só para citar os conhecidos, a música sempre teve um papel importante na história política do planeta. Isso sem falar no Brasil que teve em Chico Buarque, Geraldo Vandré, Legião Urbana e Cazuza, alguns de seus maiores símbolos musicais e políticos.

Mas, será que ainda é assim? Onde estarão as músicas de protesto? Dizer que não temos nada mais porque lutar, não é desculpa. Há ainda muito pelo que lutar. É possível que haja mais inspiração hoje do que há 20 anos, pelo menos.

Porém, voltando no tempo; mais precisamente ao turbulento ano de 1968, a música teve um de seus momentos de ouro:
Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos e ascensão dos tropicalistas marcaram período.
O Brasil tinha canções de protesto e discussões sobre política e estética. Nessa época, tudo era política e estética. E a música era forte presença nessas áreas.

1968 pode não ter representado um divisor de águas na música internacional como 1967, ano da inovação trazida pelos Beatles em “Sgt. Pepper’s lonely hearts club band”, ou os dias de 1977 da explosão do punk. Mas trouxe artistas dentro de sua maturidade criativa e obras extraordinárias, caso dos mesmos Beatles com o “Álbum Branco” ou Jimi Hendrix e seu ambicioso “Electric ladyland”. Esses dois álbuns, considerados atualmente peças fundamentais na história do pop, são apenas os primeiros de uma fila de discos que foram lançados em 1968 e permanecem relevantes até hoje.
No cenário brasileiro, a história foi um pouco diferente. 1968 foi quando o tropicalismo tomou forma definitiva e hoje consegue dividir espaço com a bossa nova como símbolo da musicalidade do Brasil para uma geração mais jovem mundo afora.

Stones e Beatles

De uma forma geral, o período trouxe obras que têm repercussões ainda presentes. Os Rolling Stones lançaram “Beggars banquet”, considerado uma volta à forma após a tentativa de embarcar na onda da psicodelia, e também trouxeram como compacto a poderosa “Jumpin’ jack flash”. Os Beatles também fizeram um movimento similar, com “Hey Jude” no lado A e “Revolution” no lado B, faixa em que Lennon declarava que “todos nós queremos mudar o mundo”.

Foi o ano também em que Simon & Garfunkel gravaram a trilha sonora de “A primeira noite de um homem”, alavancada por “Mrs. Robinson”, que Elvis Presley fez em retorno triunfal em um especial de fim de ano, salvando uma carreira em declínio, e quando o Led Zeppelin se formaria para se tornar poucos anos mais tarde “a maior banda do mundo”.

1968 foi o período em que os grandes nomes já haviam experimentado bastante (em vários sentidos) e agora já tinham uma noção mais bem definida de quais caminhos poderiam tomar – mesmo que isso acontecesse de forma mais instintiva ou inconsciente.

Ideologicamente, as duas principais bandas da época se encaminhavam para lados diferentes. Lennon falava em paz, depois de uma temporada na Índia, e Mick Jagger se empolgava com a rebelião nas ruas. A já citada “Revolution”, dos Beatles, dizia que “quando você fala sobre destruição, você já não pode contar comigo”. Jagger escreveu os versos de “Street fighting man” (algo como homem das lutas de rua) inspirado na turbulência política de 1968.

A Guerra do Vietnã também já motivava pessoas, em pleno ápice do movimento hippie e da contracultura, o que estimulou uma série de composições de protestos.

Enquanto isso, no Brasil…Maturidade não era exatamente a palavra que vinha instantaneamente à cabeça quando era necessário descrever o que se passava no Brasil de então. Era época de experimentações e de controvérsia quanto a qualquer tipo de proposta.

A jovem guarda entrava em decadência, mas Roberto Carlos brilhava cada vez mais como estrela – seria o vencedor do festival de San Remo, na Itália -, e logo não se vincularia a qualquer grupo específico. Dentro de pouco seria coroado como o maior cantor do país.

Mas a grande efervescência estava nos festivais e na chegada do movimento tropicalista. Os fãs de música e os militantes políticos se envolviam em embates durante as eliminatórias. A ditadura militar engrossava o chumbo e havia muita agitação, divisão e patrulha ideológica.
Caetano Veloso e os Mutantes conclamavam “É proibido proibir”, e dois nomes hoje institucionalizados da música brasileira, Chico Buarque e Tom Jobim, eram vaiados porque sua “Sabiá” era escolhida pelo júri do Festival de 68 em detrimento da engajada “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré.

Era também a época em que a guitarra elétrica na música brasileira foi considerada uma heresia para muitos, tornando o tropicalismo, com sua união de brasilidade e não-brasilidade, motivo de discórdia. Outros viam neles falta de engajamento político.

Curiosamente, os Mutantes Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Rita Lee estavam em Paris durante as manifestações de Maio de 1968. “Vi a bandeira comunista amarrada na [catedral de] Notre Dame. Nossa droga era cheirar gás lacrimogêneo”, afirma o guitarrista Dias durante uma entrevista ao site G1, em referência à atuação dos policiais franceses.

“Ver um pedaço da ‘revolução francesa’ foi fantástico. As pessoas cantavam a ‘Marselhesa’ [o hino da França] na rua e também a gente acompanhava [o pintor Salvador] Dalí arrasando e tantas outras pessoas criativas”.

Dias, nessa mesma entrevista ao G1, analisou o comportamento dos tropicalistas, do qual fizeram parte também Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, o arranjador Rogério Duprat e o poeta Torquato Neto, entre outros. “Nós éramos completamente irrotuláveis. A gente se considerava indestrutível, a gente detonava”, afirma. “Cada integrante do tropicalismo era uma figura, um símbolo, um significado. Na capa do disco [‘Tropicália ou Panis et circenses’, obra fundadora do movimento] eu apareço empunhando uma guitarra” lembra Dias.

Nelson Motta, produtor musical, escritor e jornalista, tinha 24 anos em 1968 e cobriu os tumultos ocorridos durante os festivais de 1968. Quarenta anos depois ele observa os efeitos permanentes do que propôs o movimento.

“O Tropicalismo representou a liberdade criativa, o experimentalismo, a modernização da linguagem poética e musical, uma nova leitura de uma cultura brasileira marginalizada pela MPB, pela integração com os movimentos internacionais de juventude, a cultura hippie, o rock, a pop art, buscando uma nova visão crítica do Brasil e da arte brasileira.”.

Como forma de expressão, a música sempre esteve aliada à luta por um mundo mais justo para todos. Cada ocasião deve ter a sua música adequada. Cada época, seu hino.

Final dos anos 60

Nessa época, embora se vivesse à ditadura militar, achava-se que os militares voltariam para os quartéis se houvesse pressão social nesse sentido. Era um tempo de sonho, de achar que o mundo poderia ser mudado e que o povo unido venceria. Nenhuma canção marcou tanto essa época de esperança e crítica social quanto “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré.

“Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer…”.

Década de 70

A história mostrou que os soldados não estavam tão perdidos assim, tanto que arranjaram um jeito de continuar no poder. Todos sabem o restante do enredo: o AI5 fechou o Congresso, cassou políticos e eliminou os direitos civis. Uma parte da esquerda que acreditava que caminhando e cantando e seguindo a canção conseguiriam mudar a sociedade chegou à conclusão de que as coisas só mudariam através das armas. Começaram as guerrilhas urbanas e rurais, ambas rapidamente sufocadas pelo regime militar. Sem ter o que fazer, os carrascos voltaram sua atenção para qualquer um que discordasse do regime. A tortura chegou aos intelectuais e artistas. A morte do jornalista Vladimir Herzog é sintomática desse período. Criou-se uma era de terror, em que qualquer um podia ser a próxima vítima dos militares. No final dos anos setenta, embora já houvesse indícios de que a democracia voltaria (inclusive com o governo dos EUA pressionando nesse sentido), ainda havia o medo. A música “Cartomante”, de Ivan Lins e Victor Martins (mas que ficou famosa na voz de Elis Regina) é a melhor representação desse período.

“Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqüilo
Haja o que houver pense nos seus filhos
Não ande nos bares, esqueça os amigos
Não pare nas praças, não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida
Não ponha o dedo na nossa ferida
Nos dias de hoje não lhes dê motivo
Porque na verdade eu te quero vivo
Tenha paciência, Deus está contigo
Deus está conosco até o pescoço
Já está escrito, já está previsto
Por todas as videntes, pelas cartomantes
Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias
Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus…”.

Anos 80

Já estava escrito. O rei ia cair. Não só um, mas todos, o rei de espadas, de ouros e o rei de paus. Era algo inevitável, destino. O início dos anos oitenta trouxe consigo o início da democracia, mas também trouxe uma geração que tinha crescido sob a sombra da ditadura (que na época era chamada de revolução) e que tinha perdido o vínculo com a geração política do passado. As revelações sobre as atrocidades nos países comunistas, aliadas à situação de terror interna, criou uma geração que não sabia o que queria, mas sabia o que não queria. Era a Geração Coca-Cola, eternizada na música da banda Legião Urbana.

“Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês nos empurraram
Com os enlatados dos USA, de 9 as 6.
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola.

Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então, vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis.

Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então, vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis. “

Como diz a música, esses jovens se sentiam derrubando reis, os mesmos reis que, na canção anterior, iriam cair por força do destino e das cartomantes. Era uma geração criada sob influência dos enlatados, mas que queria cuspir de volta esse lixo em cima dos que mandavam. Era também uma geração que pela primeira vez convivia com a liberdade e que queria aproveitá-la dizendo o que desejava sem meias palavras. Embora não fosse uma geração comprometida com uma ideologia específica, era política num sentido de revolta contra as injustiças.

Anos 90

Veio Sarney, angariou o entusiasmo e depois a decepção do povo e, então, o Collor. E, com ele, uma grave crise social. Nessa época, quase todas as pessoas que eu conhecia estavam desempregadas. Muitas empresas fecharam suas portas. Na área de quadrinhos, praticamente todas as editoras encerraram suas atividades e só sobrou o mercado erótico. Até Maurício de Souza teve dificuldades para continuar no mercado (tanto que as tirinhas da Mônica celebraram a queda de Collor). Na época, mesmo pessoas que tinham emprego fixo ficaram subitamente desempregadas, por conta das privatizações. A música “Teatro dos Vampiros”, novamente do grupo Legião Urbana, é o melhor símbolo desse período negro. Como dizia a música, os bandidos estavam soltos, o povo não. E todo mundo sentia como se tivesse voltado aos tempos da ditadura, retrocedendo pelo menos dez anos no tempo.

”E nestes dias tão estranhos
Fica poeira se escondendo pelos cantos
Este é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos
Vamos sair – mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas”

Então fica a pergunta: qual seria a música de nossa época?

Seja ela bélica, anti-bélica, revolucionária e engajada ou não, a música deve sempre cumprir seu papel: ser a voz do excluídos.
A música está em tudo. E do mundo sai um hino.

“Depois do silêncio, aquilo que mais aproximadamente exprime o inexprimível é a música. ” (Aldous Huxley)

“Durante toda a humanidade, o ser humano criou muitas coisas, inclusive a revolução da música com o Punk Rock”…
Ramones

“A minha música não é contra os brancos. Eu nunca poderia cantar isso. A minha música é contra o sistema, que ensina você a viver e a morrer.”
Bob Marley

“Milhares de pessoas cultivam a música; poucas, porém têm a revelação dessa grande arte.”
Ludwig Beethoven

Fonte: site riounderground
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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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