Uma maneira particular de ser ABUSADA

Como dizia…Em uma manha de quarta-feira, de um mês qualquer de um ano qualquer lia o livro Abusado. No texto escrevi:

“Leio o livro há seis dias e não consigo parar! Foram necessárias 562 páginas para contar a historia do tal “dono” do Morro Santa Marta, das quais já li 202.  E, por isso, já me sinto confortável de dizer que o livro é fabuloso”.

Bom, já emprestei esse livro há umas cinco pessoas. Inclusive, meus amados primos não tiveram cuidado com o dito cujo. As páginas estão bem sujinhas. Mas livro tem que ter vida útil. Então, ok. Sublimei.

Não há dúvidas que Caco Barcelos é ótimo repórter. E se assim ele é, também é ótimo ouvinte. Já dizia uma professora de comunicação:

“Bom repórter tem que falar menos e ouvir mais”. Bato o martelo! Uma mulher que acompanhou os meus passos até os 21 anos, também me ensinou ainda pequena: “Tatiana fique atenta as pessoas. Existem dois tipos de livros. Os de papel e os andantes. Os de papel são carregados. Os andantes vivem por aí. É preciso parar e ter o cuidado de ouví-los. Fique atenta a eles”.

E Caco Barcellos como ex-taxista que foi sabe muito bem ouvir. Contou uma história muito bem contada no livro reportagem ABUSADO. Estilo romance é verdade. Jornalisticamente, o trabalho dele em Rota 66, é mais interessante e traz uma verdade de um Brasil que está vivo todo dia nos jornais, nas ruas e nas vidas de cada cidadão brasileiro. Principalmente agora retorno a dizer, pensando na situação político social dessa cidade, o Rio de Janeiro (mesmo sendo escrito sobre a polícia de São Paulo).  Mas ainda sim, o livro Abusado jornalisticamente, também tem seu valor (prova é que usei os dois livros: tanto Abusado quanto Rota 66, em minha monografia cujo tema é uma análise da cultura do medo na mídia).

Enfim, “não pretendo contar o livro até porque como disse a leitura é ótima. Mas quero contar sensações. É a minha maneira de ser abusada”.

De lá para cá: Abusado 1

Já nas primeiras linhas, o vento sopra e as ondas batem com força na areia. O cheiro gostoso do mar fica no ar por mais tempo. Mas eu estou longe. Para ser mais exata estou no meio de um tiroteio no morro Santa Marta. Pessoas são feridas e um bandido agoniza, mas a bala continua a comer a todo vapor. O jargão diz que “a chapa tá quente”, mas aposto que o corpo do homem caído no beco está frio. Viro a página. É, o cara morreu.

Já assisti isso de perto. Tiro de 38. Depois de pistola. Até chegar o tiro de fuzil na parede do quarto, pertinho do teto, para ficar ali confortavelmente alojada, enquanto minha prima dormia na cama de cima e eu na outra ao lado. Nada novo. Mas os livros nos surpreendem. Até na cena urbana considerada rotineira.

Após intenso tiroteio surge um novo personagem. Um fato. Um homem vestido de branco carregando uma mala aparece na história desse capítulo. Essa é novidade para mim. Sempre ouvir falar de médicos que sobem os morros para prestar socorro a traficantes baleados, mas não sabia se era ou não verdade. Bom, agora sei que “é”. Mas carregando uma mala com … é uma baita novidade.

P.S: O Morro Santa Marta foi a primeira experiência da política de segurança pública no Rio de janeiro, chamava Unidade de Polícia Pacificadora (UPPs). Fazem já dois anos desde a implantação (2008-2010). Tem uma galera que acredita que a paz chegou ao Rio e que nunca mais o tiro vai comer no Santa Marta. Tem gente que está mais cética. Para o bem dos moradores, a ideia de um morro sem algozes e sem reféns da lógica do tráfico, no Rio, seria ótimo. Mas policiamento comunitário em morro não é novidade. Um antigo posto chegou a ser construído em uma determinada casa no Santa Marta, descreve o livro. Mas não deu certo!

Além disso, é fundamental descartar o que acontece no Rio de Janeiro. Afinal, existe uma recuperação de territórios conforme os discursos políticos afirmam ou uma troca de poder nesses territórios? que pacificação é essa na cidade que tem a polícia que mais mata e morre no mundo? Que tem uma classificação para assassinato chamada de “auto de resistência” (na prática uma permissão par aos policiais matarem sem dar explicações ou o crime ser investigado)? aliás, que pacificação é essa onde o governador precisa estipular gratificação para os batalhões que registrarem menos ocorrência de mortes, como noticiado hoje?

Existem muitos casos de problemas entre moradores e policiais das UPPs. Em especial, posições diferentes sobre comportamento.

Moradores que não podem mais ficar nas calçadas porque a polícia considera isso “desordem”, entre outras fatos. Bailes funks, também são os primeiros a serem proibidos nessas comunidades. O do Dona Marta só voltou após uma votação em que a maioria dos moradores dizeram SIM ao FUNK.

Se tirar o samba do morro a cultura carioca seria a cultura carioca?Perguntavam muitos nos anos 40 a 60.

E agora, se tirar o funk do morro e da favela a cultura carioca será a cultura carioca de verdade?

Há o coro que diz que funk é pornográfico. A quem faz parte do coro peço gentilmente que visitem o site da Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK)

E há quem de verdade quiser debater e saber mais do que informa a 15ª linha de qualquer texto ( ou seja, somente o básico), indico a tese de mestrado do antropólogo Hermano Vianna disponível no link (http://www.overmundo.com.br/banco/o-baile-funk-carioca-hermano-vianna) e um artigo publicado no portal Overmundo, também de Hermano no link http://www.overmundo.com.br/overblog/o-funk-proibidao, especificamente sobre a questão do Funk Proibidão

E se ainda você não tiver saco de ler nada, quem sabe assistir o documentário “To Feia, mas to na moda” (Baixar clique aqui). Aí a gente conversa!

 

Imagens: Reprodução internet

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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