Para tudo não acabar em cinzas

*Lidiane Mague

O céu carioca da primeira segunda-feira de fevereiro amanheceu ensolarado, pintado de azul, mas com uma imensa mancha cinza que se espalhava rapidamente no ar. Não tinha quem não amargasse ao ver a Cidade do Samba, no bairro da Gamboa, em chamas e junto três barracões de escolas do Grupo Especial. Todo o trabalho e dedicação viravam pó.

A causa do acidente e o por que do sistema de combate a incêndio não ter funcionado ainda é investigada. Não tardará e o incêndio terá um desfecho, mas não o fim sonhado. Porque a única certeza de todos é que três escolas perderam toda uma história no carnaval. Mais do que fantasias e alegorias, o carnaval carioca perde o brilho.

A União da Ilha, que voltou à elite das agremiações em 2009, perdeu 2.300 fantasias e teve parte de um carro danificado, prejuízo que gira em torno de 2,8 a 3 milhões de reais, conforme cálculos de seu presidente Ney Filardi. A Portela, que há 26 anos não ganha um campeonato, perdeu 2.800 fantasias. Entre as favoritas para a conquista do título 2011, a escola de Duque de Caxias foi quem mais sofreu. A agremiação perdeu seus oito carros alegóricos e 3.200 fantasias. Nos últimos cinco anos a Grande Rio se manteve entre as cinco primeiras colocadas e obteve três vice-campeonatos. No último carnaval, a agremiação fez um total de 299,4 pontos contra 299,9 da campeã Unidos da Tijuca.

Tristeza não tem fim

A cena ilustrada naquela manhã não era de se acreditar. Para quem presenciou toda aquela chama, tudo não passava de um pesadelo. A aderecista da Portela Elisângela Oliveira, de 29 anos, estava em casa quando soube do incêndio. “Era algo em torno de 7h30 da manhã quando vi pela televisão o fogo queimando tudo. Saí correndo para o barracão. Foi horrível! Chorei muito vendo um ano de trabalho indo por água abaixo”.

Paula Salgado, de 22 anos, entrou para a equipe de aderecistas da União da Ilha, quinze dias antes do incêndio. A jovem lembra que foi avisada por uma amiga e quando chegou ao local. A emoção corroeu corações. “Não tinha como alguém ver o fogo e não chorar. Doeu muito”, confessou ela.

Para Diego Ricardino, de 25 anos, decorador da Portela, o carnaval deste ano não terá o mesmo brilho. “Acabou o carnaval. Para nós que vivemos de título, de disputa, não tem mais graça. O negócio agora é batalhar para colocar a escola na rua, mas não é a mesma coisa. É como um futebol sem troféu”, comparou. O assistente do carnavalesco Alex de Souza, Renato Silva, de 23 anos, passou mal ao ver o fogo e teve de ser hospitalizado. Ao ser entrevistado, o rapaz não escondeu a dor. “Preciso mesmo falar sobre isso?”, perguntou com olhos marejados.

Batalha sem brilho

Devido ao acidente, não haverá rebaixamento das escolas do Grupo Especial em 2011 e as agremiações prejudicadas não serão avaliadas. Elisângela lamenta estar fora da disputa do carnaval 2011, quando a Portela levaria para a Sapucaí o enredo Azul da Cor do Mar. “É justo não ter rebaixamento porque não temos mais condições de competir de igual para igual, mas a gente vinha para brigar pelo título. Batalhamos muito por isso e o sonho acabou, mas no ano que vem entraremos com tudo. Eu sei que quando a comunidade entrar na Avenida muitas lágrimas vão rolar. Esse carnaval será emocionante e triste”, preve a aderecista da escola de Madureira.

O carnaval 2011 promete ser marcado, porém, com muita garra. Funcionários e comunidades se organizaram em mutirões para refazer os trabalhos. Muitos deles ficam quinze dias sem voltar para casa, passam noites em claro, trabalhando em espaços improvisados, suportando até mesmo a falta d’água. Ainda que a luta contra o tempo seja um grande problema para refazer as fantasias e alegorias, a paixão pela escola fortalece e encoraja quem está na batalha.

Para o diretor de barracão da União da Ilha, Luiz Carlos Reis, a escola da Ilha do Governador com enredo O Mistério da Vida tinha chances de ficar entre as seis melhores do grupo de elite do carnaval. No entanto, esta é uma realidade distante agora. “Estamos retomando nossos trabalhos. Claro que não será a mesma coisa. O trabalho final não será como o carnavalesco pensou, pois não temos como fazer o mesmo acabamento. Mas tenho certeza de que o resultado será marcante. Será um carnaval de guerreiros”, define o diretor.

Rodrigo Gimenes, assistente do carnavalesco Caê Rodrigues, que assina o enredo da Grande Rio, Y-Jurerê Mirim, A encantadora Ilha das Bruxas, considera que a consequência do acidente vai muito além dos danos físicos. “Tivemos perda de cem por cento, inclusive dos 23 anos de história da Grande Rio. Nossa memória também virou cinzas”, lamentou o assistente. “

Companherismo e solidariedade

Mangueirense de coração, a supervisora de supermercado Ana Lúcia da Silva, de 34 anos, ficou sensibilizada com a tragédia das escolas. Sem experiência em trabalhos artesanais, ela decidiu ajudar. “A comunidade trabalha incansavelmente durante um ano inteiro e de repente tudo ficou perdido. Eu não sei como, mas posso ajudar e estou aqui para isso. Até se for para varrer o barracão, eu estou junto”, diz Ana Lúcia, moradora da Pavuna, subúrbio do Rio.

Ana não foi a única a oferecer ajuda. Outras escolas de samba fizeram o mesmo. A Beija-Flor de Nilópolis, por exemplo, disponibilizou parte de sua mão-de-obra. A Vila Isabel, dentre várias ações de apoio, permitiu que funcionários das escolas atingidas usem seus banheiros. E assim, cada agremiação se solidariza com as co-irmãs.

Diante das perdas das escolas a apenas um mês do carnaval, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, assegurou que a prefeitura disponibilizará verba para permitir que possam participar normalmente dos desfiles. “Minha Portela, União da Ilha e Grande Rio terão todo respaldo da prefeitura para reconstruir o carnaval e irão para a Avenida”, postou Paes no twitter.

Fogo também no Grupo de Acesso
Outra escola também teve o barracão incendiado. No início da tarde do dia 05 de fevereiro, um curto circuito incendiou parte das alegorias do GRES Alegria da Zona Sul, no bairro do Santo Cristo. Algumas escolas do Grupo Especial, como a Grande Rio, estiveram no barracão da agremiação logo após o incêndio. Todas prometeram ajudar disponibilizando material, o que se tornou impossível diante do que aconteceu dois dias depois na Cidade do Samba.

Em reunião com o secretário Municipal de Turismo, Antônio Pedro Figueira de Mello, o presidente da escola Marcus Vinícius de Almeida, recebeu uma promessa de apoio, inclusive financeiro, para que a escola se recuperar do incêndio. Entretanto, não se sabe quando os recursos pserão disponibilizados. “Ficamos animados, mas ainda estamos um pouco preocupados, pois só com os recursos garantidos é que podemos reerguer nosso carnaval”, afirmou o presidente.

A Alegria da Zona Sul vai apresentar no próximo desfile o enredo Os Doze Obás de Xangô, de autoria do carnavalesco Lane Santana.

*Texto Lidiane Mangue
Fotos: Tatiana Lima e Lidiane Mangue
Edição: Tatiana Lima

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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