Quatro Big Mac’s e um sundae

captura-de-tela-inteira-782010-001316A vida inteira ouvi amigos fazendo comentários sobre prostitutas. Passei a adolescência
escutando histórias sobre elas, principalmente quando o mais famoso prostíbulo da cidade mudou de endereço, indo parar na rua mais frequentada pela minha turma de escola. A famosa Rua Ceará, palco do extinto Garage. Lugar onde assisti bandas como Ratos de Porão, Planet Hemp, O Rappa, Los Hermanos etc. Todas as bandas  em começo de carreira. Por tudo isso, esse era o nosso paraíso rebelde infelizmente fechado hoje. Mas o assunto aqui é outro. O personagem dessa história não é bandas de rock e tampouco o Garage. São as prostitutas. Figuras que sempre pertenceram ao meu (in)consciente. Claro, que essa história era guardava como um segredo absoluto, mas resolvi contar a vocês agora e vou explicar por quê.

Quando criança minha mãe frequentava um salão no Flamengo e, posteriormente, na rua Lavradio, ponto de prostituição no Rio de Janeiro por décadas. No retorno para casa observava as “mulheres de trabalho fácil” nas ruas “produzindo”. Depois de um tempo, a cabeleireira oficial de mainha se mudou… E lá fomos nós para o Centro da cidade do Rio de Janeiro, na altura, da Praça Tiradentes. Ali também havia as “rameiras” em ação (como dizia meu pai, um nordestino).  Absolutamente sempre me perguntava no íntimo como era a vida delas. Assim foi por toda minha infância. Seja na orla de Copacabana ou nas telas – sim, porque os autores de tevê e cinema gostam “muito” dessas profissionais -, fui crescendo olhando de longe essas personagens da vida urbana e, obviamente, o meu maior desejo era conversar com elas.

Afinal, a figura de uma prostituta é uma imagem curiosa para uma criança – seja para os meninos ou meninas – de diferentes formas. São botas, saltos, lingeries, transparências, peças curtas, vestidos colados e meias 7/8, tudo a mostra. Um conjunto convidativo ao corpo da mulher adulta que não condiz com a figura da mãe e tão pouco das outras mulheres. Uma voracidade de ser, mostrar, fazer-se presente inquietante. As prostitutas têm tudo o que representa o estereótipo da mulher adulta para uma menina que deseja ardentemente crescer logo.

Para ser mais clara (se é que já não fui) as prostitutas exercem  um certo fascínio para mim por serem figuras noturnas da cidade. Ao cruzar com elas sempre me perguntava como essas pessoas podem se sentir tão seguras nos mesmos lugares que nos sentimos tão expostos. Essa relação de suposta liberdade ou segurança dominava minha mente.  Nunca consegui parar de pensar nisso – e sigo até hoje assim – quando vejo durante a madrugada  pela vidraça do ônibus homens, mulheres e crianças no meio da rua, quando volto da Lapa ou de qualquer outro lugar para casa. Tantas perguntas tão precocemente levaram-me  ainda pirralha a tentar achar respostas.

Aos 12 anos, minha professora de Literatura, uma senhora de cabelos curtos cor de mel e de óculos, depois da turma ler o livro Dom Casmurro de Machado de Assis – obra onde alguns personagens são descritos tendo como ofícios as chamadas profissões liberais – passou um trabalho para classe. A turminha  entre 12 a 14 anos deveria se dividir em grupos para entrevistar um profissional liberal e saber como era exercer esse tipo de atividade. Podia ser qualquer profissão: médico, dentista, advogado etc. A única regra era ser um profissional com atividade liberal. Na explicação, a professora também relembrou também a leitura de um livro do mês passado: “A Senhora” de José de Alencar (que narra uma impetuosa relação de amor, sexo, comércio e dinheiro na qual uma mulher “compra” o marido).

Pois bem, como habitualmente, fiz meu trabalho com os meninos porque sempre odiei os faniquitos femininos confesso: lê-se capas cor de rosa e os babados de papel crepom na hora de apresentar trabalho. Tinha horror daquilo. Cresci tendo na escola meu grupo de meninos de salvamento para estas horas. O universo masculino sempre pareceu-me mais seguro e interessante, porque os meninos “podiam”: falar de sexo, não se arrumar feito boneca de porcelana, sentar de perna aberta. Acho que eu já nasci meio que questionando a forma de uma menina ser educada e de alguma maneira negar certas lugares de menina era uma forma de fugir disso. Peguem leve. Eu era só uma guria metida de 12 anos. Lê-se metida no sentido de ser abusada e querer me meter em lugares que diziam que não era de menina. Também era uma forma de conhecer o universo masculino. Afinal de contas, mulher era coisa que não faltava lá em casa. Venho de uma família matriarcal, porque os pais morreram, abandonaram a mulher ou simplesmente não tão nem aí pros filhos. E no fim para ser bem sincera, procurei os meninos para fazer o trabalho pedido pela professora, porque eu já sabia que as meninas não iriam topar conversar com o profissional liberal que eu queria: uma prostituta. Essa seria uma entrevista interessante. O grande problema era “como”?

Comecei pelo telefone, mas depois de muita indagação e algumas tentativas fracassadas por telefone, eis que surgiu uma luz no fim do túnel na minha cabeça: – Que tal chamar uma em casa?

Pareceu uma ideia estapafúrdia e todo mundo riu da sugestão, mas depois de algum tempo…de refletir por uns minutos…no silêncio após as risadas…até que a ideia não pareceu tão ruim assim. Na verdade, era perfeita! Óbvia, objetiva e de simples execução. Ah, os meninos ficaram meio bolados de topar aquela minha ideia, mas claro que está com uma puta aos 12 anos parecia uma aventura. Toparam.

Corremos para os classificados do jornal e começamos a escolher pelo nome que parecesse menos sombrio. Sim, desculpa o preconceito. Eramos crianças, brincado de adultice. Pseudônimos como Tyfani, Natasha, entre outros, pareciam nomes próprios um tanto bizarros para uma turminha de menos de 12 anos.  A pronúncia chegava a ser obscena.

Mas ao lermos a seção de classificados do jornal, os problemas começaram a surgir para executar a tal da ideia de chamar uma puta em casa. Logo percebemos que esta “entrega em casa” ia custar caro. Nossas mesadas eram curtas. Alguns de nós nem recebiam. Foi aí, que tive outra brilhante ideia: “E se nós calculássemos em Big Mac’s?”. A chave era essa. O gasto do trabalho de escola seria o valor de quatro Big Mac’s (para cada um) o que naquela  época dava cerca de vinte pratas. Para arranjar o dinheiro, tivemos que esperar até completar quatro idas ao cinema, porque eram quando a maioria recebia um trocado dos pais pra ir até Madureira pra ver um filme.

Outro problema, também resolvido por mim, era arranjar um lugar para que a “entrega dos Big Mac’s” pudesse ser realizada. Ou vocês acham que alguém ia ter cara de pedir isso aos pais? Nem eu que tinha uma mãe para lá de liberal. Então, aguardamos uma saída estratégica de madrecita hehehe (já que fui eu quem inventou a aventura, nada mais justo do que ser na minha casa a tal aventura. Afinal, em caso de treta, quem cumpriria detenção em casa seria eu, a articuladora da treta).

O terceiro e último problema – pelo menos achávamos isso – era convencer uma prostituta a dar a tal da entrevista. Fazer ela querer entregar os “big macs” lá em casa e para nós. Ligamos para várias que bateram o telefone na nossa cara, mas especificamente, na cara dos meninos. Continuamos tentando até que uma aceitou: a Sra. Márcia. Achei ótimo o nome. Parecia de professora e de uma profissional experiente, pois não era um nome de modinha das novela das oito. Estávamos radiante e de verdade achávamos que seria tudo fácil.

O raciocínio, era bem eficiente (assim pensávamos). A profissional trabalhava por uma hora pelo valor de R$20. Logo, ela chegaria e faríamos as perguntas, e pronto: estava feito nossa atividade escolar. Uma hora era mais que suficiente para sanar todas as nossas curiosidades. Porém, quando a Sra. Marcia chegou às coisas não aconteceram nesta ordem. Quando ela se deparou com a situação de 3 moleques e uma menina dentro de uma casa para conversar, quis ir embora na hora. Foi um caos total.

Depois de tanta economia, a nossa “oportunidade” estava prestes a sair pela porta. Acho que para desarticular a gente e nos pôr em nosso lugar, ela explicou que para um grupo o serviço era mais caro. Sem falar, que com a presença de uma ninfeta (eu) ela não topava. Para piorar a situação – acredite se quiser – eu resolvi abri a maldita boca e contar a verdade para nossa profissional liberal: “Mas a gente só quer conversar com a senhora…”. O.o Ela ficou histérica. Até hoje, não sei se o susto foi maior por causa da palavra “senhora” ou  “conversa”.

Nossa “Senhora”parou com a mão na porta, esbugalhou o olho, e fez um som. Sabe aquele barulhinho quando alguém engole algo a seco? Largou a porta, andou em minha direção e me encarou por alguns segundos que pareceram horas. Riu incrédula: “Minha filha vai sacanear outra. Vocês estão me fazendo perder tempo e tempo na minha carreira é dinheiro”.

– Mas a gente quer pagar pelo seu tempo. Nos filmes, não tem cliente que só quer conversar…Então…a gente quer conversar com a Senhora. Não é golpe. O dinheiro está ali na mesa de centro, pode olhar Senhora! (nunca senti tanto medo de levar uma bofetada na cara de uma desconhecida). 

Nessa hora todos os meninos ficaram estáticos. Eles somente acompanhavam toda a minha performance tão incrédulos quanto a Sr. Márcia, que estalando os dedos da mão (achei que fosse me bater, juro!) começou a dizer “Olha aqui…”. Mas, eu interrompi nossa profissional:

– Senhora a porta está aberta e vai continuar yara-kono-autorretrato-2aberta o tempo que a senhora quiser. Seu pagamento esta ali (apontei para a mesa) se quiser pode até pegar já, mesmo sem falar uma palavra com a gente. Afinal, como disse, tempo é dinheiro e não quero prejudicá-la. Eu só não entendo de verdade qual é o problema. Se você vai ser paga pelo tempo do seu trabalho do mesmo jeito que seria caso os meninos fossem transar com a senhora, qual é o problema de nós pagarmos para você conversar com a gente?

– Como é que é coisinha? (é ela me chamou de coisinha e eu era mesmo uma coisinha abusada e metida)
– Não sou coisinha, olha o respeito! (viu, não disse que era abusada) Minha mãe me ensinou que respeito é bom e todos gostamos. Estou respeitando a senhora, não tô? A senhora não é uma profissional? Minha mãe sempre me ensinou que vocês são uma profissional que a gente deve respeito.
– Quê!
– Isso mesmo que a senhora ouviu. A Senhora não exerce atividades liberais sem vínculo empregatício fixo? Sua profissão não é autônoma, assim como a do meu pai que é comerciante, diferente da minha mãe que é auxiliar administrativa hoje e antes era faxineira e tem que bater ponto todo dia? Não é? Muito bem, é disso que precisamos. De uma profissional liberal para entrevistar e fazer um trabalho da escola.

Foi aí que a Sra. Márcia esbugalhou o olho de novo, mas agora de um jeito diferente. Andou… se sentou no sofá… e virou a Sra. Maria Aparecida (mas não sem antes pegar o dinheiro e olhar atrás de alguns móveis e paredes). Acho que estava com medo de tocaia. Afinal, eu tinha 12, mas os guris 13 e 14. Sabe-se lá o que ela já passou de percalço na vida porque a atividade de prostituição não é regularizada.

Enfim, começamos a entrevista, interrompida para repetir de hora em hora a frase: “Você é uma menina muito danada. Vai dar um trabalhão para sua mãe. Não queria está na pele dela não. Você não vai ser fácil!”.  Hoje entendo o tom do adjetivo “danada”, mas no dia não entendi e fiquei puta! Mas, preferir manter o bico fechado. Queria ouvir e não falar.

Para deixa-lá à vontade ofereci biscoito e coca-cola e expliquei que não deu para comprar salgadinhos, porque não sobrou nada do dinheiro da mesada. Ela riu. Aliás, ria muito, custava acreditar naquela cena e acho que só levou fé mesmo quando mostrei o
meu caderno com a descrição do “peculiar” trabalho de escolar aos meus olhos.

Foi assim que eu entrevistei aos 12 anos uma mulher desenho contorno azulputa.

 O fim da história vocês podem imaginar, não é?

Na escola, apresentado o trabalho, minha professora gritava o tempo todo: “Profissional liberal não é isso. Não era desse tipo de liberalismo que eu estava falando Tatiana Lima” (o tom dela pronunciando meu nome todo era de dar calafrios). Ela também balançava a cabeça e urrava para todos os lados: “Como vocês puderam? COMO????? O que vocês têm nessas cabeças? Vai todo mundo para a diretoria, AGORA!!!!!!!!”. Mano, fiquei puta. Era a primeira vez que ia pra secretária na vida. Achei injusto. Eu só tinha feito o meu trabalho de escola. Ela me pediu para entrevistar um profissional liberal, autônomo. Entrevistei uma puta. Qual é o problema nisso? Por que prostituição é crime até hoje? Isso é hipocrisia. É além de criminalizar um tipo de sobrevivência, manter profissionais a mercê de tudo, estigmatizar.

601351_361721437237244_1491601243_nA verdade é que experimentei o apocalipse ali. FOMOS para r mesmo na diretoria. Eu cansava de responder que ao contrário do que se imaginava a culpa era toda minha. Eu era a autora da ideia. Eu tinha arranjado uma forma para pagarmos o serviço. Foi na minha casa e categoricamente “NÃO, EU NÃO fui obrigada aceitar a situação pelos meninos”. Na realidade, foram eles que concordaram em embarcar na minha “absurda ideia”.

Para completar, a professora quase jogou o apagador na minha cabeça, quando argumentei com ela sobre o sentido de profissional liberal.  Ela cansada , seguia repetindo que nós tínhamos entendido tudo errado, que ser prostitua não era ter uma profissão liberal e sim praticar o crime de prostituição. Foi quando abri de novo minha maldita boca e quase provoquei um AVC na minha primeira professora de literatura: a Neide.

–  Ué, mas a Capitu não é presa na novela das oito. No livro Dom Casmurro ninguém condena a Capitu por ser meio “dada” como vocês dizem, o que inspirou o auto da novela dá o nome da personagem. Machado de Assim escreveu Capitu bem saidinha, porque prostituta é saidinha e isso é crime? (gente revela as confusões de história tá. Eu era apenas uma piveta). A  Capitu da novela também não para na cadeia. Ainda tem o caso do livro “Senhora”, de José de Alencar, onde se compra um casamento. Isso pode? Casar com dote e por interesse pode, isso não é fazer da mulher mercadoria, fazer da mulher um objeto de troca, prostituir a filha para um casamento com interesse, mas…
– TATIANA CALA A BOCA! Gritou a professora Neide.

Bom, daí o diretor que estava calado até então, passou a mão no telefone e ligou para minha mãe, que chocou-se como todo mundo com a minha estratégia e visão de tema do trabalho escolar. Afinal, não pega bem se avisada que sua filha de 12 anos recebeu em casa uma puta, digamos. Já na escola, com um olhar feio e decepcionada (que me cortou por dentro), minha mãe pediu desculpas pela confusão ao diretor e a professora. Disse que entendia a situação constrangedora que eu havia provocado. Mas, mesmo desaprovando o meu comportamento, surpreendentemente, minha mãe me defendeu! Juro! Ela não aceitou que fosse eu ser suspensa pela escola.

Disse que a confusão era fruto de um mundo (nunca esqueci essa frase) que escondia a verdade das crianças, enquanto a tevê brincava com literatura, ficção e arte com a tema da prostituição. Se a confusão aconteceu é porque ninguém tinha explicitado o significado ambíguo da palavra liberal, das metáforas dos livros e da vida. Que os adultos tinham mania de achar que estava tudo subentendido, quando na verdade, o papel dos pais e da escola era responder os silêncios da dúvida (minha mãe arrasou nessa, vai?). Que o papel dela como mãe era responder e acolher as dúvidas não só de biologia, mas da vida. Assim como o da escola de ensinar as crianças a não terem um olhar preconceituoso e dar conta da quantidade de frentes abertas pela portas da literatura e das novelas. Enfim, ensinar. Debater também o que a vida é e o que é cada coisa. E no caso, que por mais que prostituição fosse uma trabalho visto como indigno, contextos sociais levavam mulheres a serem prostitutas há séculos. Visto, Maria Madalena na bíblia a quem Deus não julgou…

Mesmo com a brilhante defesa da minha mãe, eu levei o meu primeiro zero na vida. Fiquei arrasada! Meu boletim era só 9 e 10. Mas, depois a professora deixou a gente fazer um outro trabalho. “Desde que aquele fato não se repetisse mais”.  Para ser sincera, não tinha muito mistério. Compreendi tudo “direitinho”. Ou entrevistávamos um contador ou outro profissional com atividade “aceitável e tolerável” ou continuávamos com ZERO. A única parte difícil de entender era o por que de conversar com um ser humano e conhecer um pouco da vida de uma pessoa podia ser algo tão pecaminoso, tão nefasto, tão inapropriado. Eu nunca entendia isso. Até hoje não compreendo.

Para não deixar dúvidas do que era socialmente correto (lê-se aceito), a professora Neide deu uma aula explicando tim por tim tim o que era de “verdade” na visão escolar um profissional liberal, citando como contraponto o por que de prostituição não ser uma atividade aceitável e sim crime. O porque não ser “razoável” se chamava uma prostitua para tomar um chá em casa – pensei em interromper ela para dizer que na verdade tomamos coca-cola e comemos biscoitos, mas deixei para lá, já estava encrencada demais. Também pensei em tudo que ela falava e aquilo tudo me parecia besteira e não educação. Na verdade,a  escola foi bem deseducada com a profissão da Sra. Maria Aparecida. Ouvi tudo olhando para a janela e pensando onde ela estaria e pensando que deveria está protegida na rua de tanta tolice. Por um segundo, compreendi o poder da rua, talvez.

Em casa, minha mamãe pediu explicações e que fossem “das boas”. Disse tudo. Como? Onde? Por que? Quando? Para quê? Durante minha narrativa, ela fazia um misto de caras e olhares que expressavam tolerância, mas também impaciência, raiva, desgosto e por fim compreensão. No fundo, o que mai a preocupava era eu ter levado uma estranha para dentro de casa.

Lembrei a minha mãe de que, justamente, ela havia me ensinado que as pessoas são “pessoas” singulares. Por isso, independente de qualquer coisa devemos respeitá-las. Inclusive, recordei que mais de uma vez ela disse não ter perigo andar perto ou estar num local no qual tivessem prostitutas, pois elas estavam ali “só trabalhando” e não iam me fazer mal.

Com um riso meio de lado e me olhando de cima em baixo, a minha mãe, repetiu o que eu já havia ouvido da Sra. Maria Aparecida (a prostituta): “que eu era muito esperta, mas dava um trabalhão”. Comentei a coincidência com ela rindo – o que gerou outro olhar cortante para mim. Calei-me. Mas antes, informei a minha mãe que a prostituta, a Sra. Maria Aparecida, havia deixado um beijo e um bilhete para ela. Com um cara de espanto e olho esbugalhado mainha olhou pra mim. Pensei que ela ia dá um sacode. Mas ela respirou. Pegou um café acendeu um cigarro e me perguntou: “cadê?”

Até hoje, não sei o que a Sra. Maria Aparecida escreveu naquele bilhete para minha mãe, mas fez a raiva dela passar, a voz ficou comedida, e definitivamente, me livrou das chineladas, não tenho dúvidas. De repente, os olhos da minha mãe ficaram marejados e ela saiu da sala até que retornou da cozinha e me abraçou forte. Frisou que aquele assunto era tema do passado, mas me fez prometer que nunca mais faria esse tipo de coisa, ao menos sem antes conversar com ela.

Ah, ela também pediu emprestado os livros “Dom Casmurro” e o “Senhora” para ler. Adorou Senhora e detestou Casmurro. Não a culpo. Também prefiro Senhora.

Na escola, a aventura da turma dos cinco indiscretos e sem noção motivou uma reunião de pais que pediram a expulsão do grupinho do “mal”.  Eramos “péssima influência” para seus filhos e, portanto, “não deveríamos permanecer no mesmo ambiente que seus eles”, crianças de boa família.

Outros pais ligaram para minha mãe perguntando se eu estava bem e se ela precisava de algo. Mas, a verdade mesmo era que só queriam sondar. Saber “se eu tinha apanhado, se estava de castigo, se minha mãe sofria com uma filha que “tocava o terror”. Depois por cima dos ombros, ouvi a maioria  deles dizendo que isso era coisa de “filho de pais separados” em plenos anos 90. Alguns chegaram a questionar sobre o porque de eu achar normal a profissão de prostituta, fazendo insinuações sobre o “possível passado” da minha mãe. Sobre isso, me senti muito culpada e chorei sozinha no banheiro algumas vezes ou debaixo da mesa da professora enquanto todos saiam. Não queria passar pelo corredor das olhadas por cima dos pais dos meus amigos. Mas, não deu em nada esse rebuliço de pais não. O diretor acalmou a massa patriarcal da escola, mas  pediu a orientadora educacional para acompanhar a minha vida escolar e familiar de “bem pertinho”. Queriam vigiar o comportamento e culpavam a minha mãe por eu ser assim. Chorava muito. De molhar o diário e manchar a caneta. Pensava que nunca tinham se preocupado se eu tinha comida em casa, se minha mãe precisou ser salva por mim de uma surra do meu pai que quase a matou, mas agora, questionavam a mãe que minha mãe era, sua moral. Essa experiência sempre me fez ver a escola como algo bom, mas também ruim. Um lugar de julgamentos e ausências.

Mas depois de tanto alvoroço, a parte mais chata mesmo foi responder e responder, repetir e repetir, explicar e explicar, seguidas vezes a mesma história, dar respostas a mesma pergunta referente aos meninos:

– E aí, eles afinal de contas comeram?
Para esta pergunta, tanto eu como os garotos combinamos responder sempre a mesma coisa: “Comemos sim. Quatro Big Mac’s”. Ninguém acreditou.

E na verdade nós não mentimos. Comemos mesmo quatro big mac´s. A Sra. Maria Aparecida era muito “boa”. Ela fez um acordo conosco. Só falava a sua gente boa, depois que soube como tínhamos conseguido tanto dinheiro, porque contamos que calculamos o serviço pelo preço de Big Mac’s, que a gente tinha deixado de ir a cinema e fazer o lanche mágico para guardar o dinheiro, ela se solidarizou. Resolveu não só falar e contar um pouco da sua vida como cobrar o preço de apenas 1 Big Mac’s para cada um. Aí, depois da entrevista, fomos com ela no Mc Donald’s mais próximo da minha casa e comemos, enfim, quatro Big Mac’s, mas a Maria Aparecida preferiu Mc Fish. Rolou até sobremesa. Mas, o sundae foi por conta dela, lá no Bob’s.

Fonte: anotações da agenda pessoal de 1992.
Texto Tatiana Lima, originalmente postado em 2/5/2008.
Imagens: Extraídas da internet
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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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