Nem vilão, nem herói: um homem midiático com práticas criminosas

Trovão, estrela da polícia civil carioca é preso pela própria polícia acusado de tráfico

Considerado exemplo de eficiência na polícia, o principal ator midiático da Chacina do Alemão foi preso durante a operação Guilhotina da Polícia Federal a partir da acusação de negociar armas e informações, além de receber propina no valor de R$ 100 mil reais do tráfico de drogas. Com o lema “Tenho vocação para ser homem tático, guerreiro”, Leonardo da Silva Torres ganhou fama e o codinome “Trovão” após ser capa de jornais e revistas e personagem do documentário Dançando com o Diabo.

Trovão chamou a atenção de jornalistas a partir da inigualável personalidade transmitida por meio do comportamento “singular” nas operações policiais, ocorridas no Conjunto de Favelas do Alemão em 2007. Usando farda camuflada, coturno, capacete e viseira idênticos a de soldados estadunidenses enviados ao Iraque, o inspetor ganhou perfil no jornal O Globo, admiradores na sociedade civil e comunidade em rede social na internet.

Na reportagem publicada em O Globo, Trovão que à época tinha 43 anos, aparece fumando charuto enquanto dava entrevista, na capa. Sim, o suposto herói foi capa.

Para o repórter,  Trovão contou: passou a fumar charutos nas ações policias após uma ocasião em que mulheres de uma comunidade saíram correndo com medo dele ao se depararam com o inspetor fumando um charuto, em direção delas. “Daí em diante resolvi que, a fumaça do charuto, depois de uma incursão, servia para espantar os males”, disse.

Apesar de tantos detalhes sobre o comportamento do inspetor Leonardo Torres neste artigo, exceto o adjetivo de “herói” – publicado nas reportagens tanto de revistas quanto de jornais – este texto traz dados apenas de um policial civil que, independente da postura como servidor público, serve apenas de pano de fundo para descortinarmos a linha editorial da imprensa brasileira e o padrão de comportamento preocupante dos agentes de segurança pública do Estado. E até porque não dizer da mídia carioca? Torres é o protagonista e antagonista desta comédia de mau gosto. Tudo mais, todo o mise en scène, todo o show, desde o roteiro a cena principal do ato, foram os jornalistas que resolveram fazer dele o personagem perfeito para a política de segurança pública que defendem em linhas noticiosas, Torres é peça de marketing midiáticos, foram os flashes que o criaram.

O inspetor Torres nunca foi um herói e tampouco – até as provas reveladas na operação Guilhotina e seu julgamento e sentença – bandido. É preciso ser justo. Ele nunca escondeu quem era. Em entrevistas deu declarações perturbadoras como as transcritas neste artigo e retirada de jornais e revistas. Além de outras ditas em alto e bom som no documentário Dançando com o Diabo: “Eu sou o inspetor Torres, filho da tempestade, oriundo do mau tempo, nasci para o combate e para as horas ruins, quero que o mau se foda. Eu sempre vou foder o mal e quem tiver ‘do’ lado dele”.

A um dos principais jornais carioca, Torres admitiu: “Meu sonho é servir no Iraque. Sei que me sairia muito bem na Faixa de Gaza”. Enquanto não realiza tal sonho, ele se exercita no que um colega definiu como “tiro ao pato” nos becos da favela.

Em outros jornais do mundo essa declaração ou melhor, a publicação de uma declaração como essa seria amplamente debatida na redação. No mínimo, seria publicada com destaque amplo para levantar reflexão e discussão sobre qual polícia temos nas ruas responsável por nossa segurança.

Mais ainda, acredito. A publicação na mesma edição da foto de Torres vestido de soldado em cores, quase como um cartaz, acompanhada de recursos gráficos com detalhes do preço de cada equipamento e item do uniforme, seria questionado. Principalmente, se essa foto tivesse como pano de fundo e moldura, a imagem do inspetor Torres fumando um charuto – símbolo de celebração em muitas culturas – entre corpos ensanguentados, dilacerados e já mortos em um beco da favela do Complexo do Alemão. Mesmo com todo sensacionalismo existente também na imprensa estrangeira não consigo imaginar tal reprodução em um jornal internacional. Soa impensável! Por quê? Bom, porque parece propaganda de guerra.

Todo trabalho gráfico enaltece as vestimentas do soldado de guerra: farda, coturno e outros aparatos trajados. Não há duvidas. É propaganda! O fato de Torres está fumando charutos entre pessoas mortas não é destacado como algo espantoso ou inapropriado. A partir destes fragmentos é fácil entender como houve uma mitificação do policial que foi apelidado de “Comando em Ação”, nome de um série de desenho animado que já foi até marca e tema de brinquedo no Brasil.

E o que dizer da reportagem de uma revista que no ano de 2007 chamada Época que descreve Torres como “a força policial inovadora” e, conclui a reportagem afirmando que: “Trovão é alguém com quem a população pode se identificar. Agora, há a sensação de que a ação da polícia é para valer”.

É evidente que os jornais e revistas cariocas não podem ser culpabilizados pelos supostos crimes de Torres. No entanto, diferente do delegado de polícia Carlos Antônio Luiz Oliveira, ex-subchefe operacional de Polícia – também preso na operação Guilhotina – o inspetor Leonardo Torres não exercia cargo político como servidor e sim público. Não era o homem da polícia no comando das operações numa hierarquia de poder político junto ao poder executivo. Portanto, a abertura de espaço para as declarações dele em jornais foi uma escolha editorial e não uma consequência da função política atribuída a ele. Ouví-lo como figura pública era dispensável.

Após a revelação de corrupção e crimes supostamente cometidos pelo inspetor, integrantes da comunidade “Trovão – O Rambo Brasileiro”, no Orkut, postaram mensagens de desapontamento sobre quem definiam como herói. “Você era meu ídolo cara! Seu corrupto de merda!”.  Em outra rede social (Facebook), usuários postaram a capa de um dos jornais em que Torres aparece fumando charuto acompanhada de comentários indignados direcionados tanto ao policial quanto ao jornal carioca. Cobrança de postura tardia ao jornal que consome, a conta já foi esquecida.

A facilidade da sociedade em adotar Torres como herói evidencia que, a boa parte da sociedade fluminense prefere achar que: possuir “rambos” nas ruas para garantir o ato de se sentar tranquilamente na poltrona de suas casas para assistir TV é melhor do que discutir política de segurança pública. Afinal, este segmento da sociedade julga que os “rambos” estão cumprindo o papel pago por seus impostos.  Mas a linha é tênue e rompe fácil, resulta em uma mistura de elementos perigosas que sustentam cadeias e sistemas de vida e sobrevida tanto de violência policial quanto de corrupção. Um dia a rede pode chegar perto, pular da tevê e sentar-se ao lado da classe média. De certa forma, isso já acontece, não?

Torres não é personagem de história em quadrinhos, de filme ou seriado. Não foi invetado. Foi descoberto. Foi em 2007 um homem midiatizado por exercer atividade pública na qual cometeu crimes junto com outros policias camuflados em uniformes de soldados de guerra, e com o aval estatal da prerrogativa existente somente no Brasil – resquício da ditadura – chamado de autos de resistência. Somente em 27 de junho de 2007, no Complexo do Alemão, a luz do dia, próximos a câmeras de tv, foram 19 pessoas mortas oficialmente. Não oficialmente, estima-se que foram 40 (asseguram ONG que acompanharam o caso: Justiça Global e Rede Contra a Violência).

Em 2011, Leonardo Torres também foi um homem midiatizado por exercer uma atividade pública. Mas agora ganhou tinta e papel diferente devido a revelação de supostos crimes de corrupção, tráfico de armas, tráfico de informações, estelionato, sequestro e roubo. Ações criminosas descamufladas e reveladas na operação Guilhotina da Policia Federal, mesma operação cuja investigação parece não ter peso no Judiciário, pois já foi emitido habeas corpus para soltura de todos os 40 policiais suspeitos presos. Eles vão responder em liberadas pelas acusações. Se é o direito constitucional de cada um deles, não há nada de mal. O problema é pensar que os 19 mortos oficiais da Chacina do Alemão não tiveram a mesma prerrogativa. E tantos outros presos esquecidos no sistema penal.

Igualmente ao ano de 2007, os movimentos sociais como a ONG Justiça Global e a Rede de Movimento de Comunicação Contra a Violência, denunciaram os relatos de saques, roubos, torturas e execuções sumárias cometidas por policias durante a ação ocorrida há apenas quatro meses atrás no Alemão, alvo das investigações da operação Guilhotina da Polícia Federal.

Copiosamente como em  2007, a imprensa carioca adotou uma postura de classificar e qualificar pessoas, atos, ações e instituições de forma absolutista. A cobertura foi dividida entre o bem contra o mal, mocinhos contra bandidos, enaltecendo policiais e relativizando todas e quaisquer denúncias sobre desvio de condutas de policiais. Não seria leviano deste artigo atribuir o artigo de jocosa a cobertura das denúncias à época.

Contudo, ao contrário de 2007,  mesmo que ainda com quatro meses de atraso, a verdadeira face das ações da polícia no Complexo do Alemão, ganhou manchetes de jornais através de investigações da PF, e deflagram uma suposta crise nas instituições de segurança. Ambos os salários dos servidores (PF e PMERJ) são pagos com impostos da população, incluindo os de moradores de favelas – que a cada produto comprado pagam ICMS, pagam impostos sim ao contrário do que é dito pelo discurso de senso-comum.

Se está “crise” ou investigação será mais uma de tantas outras a não resultar em nada, a se esquecida nas pastas de processos judiciários, de documentos na ouvidoria da polícia ou ainda não suitada, relembrada pela mídia, só o tempo vai dizer.  Ainda que a investigação tenha suscitado uma vítima no Poder Judiciário com o assassinato da Juíza Patricia, morta por policiais por nada mais nada menos investigar ações policiais que culminaram em autos de resistência: grupos de extermínios.

Quanto ao inspetor Torres, conto uma passagem: certa vez, em uma conversa informal com um jornalista de um um grande jornal brasileiro, que também reproduziu fotos e publicou reportagem com o inspetor Leonardo Torres, o Trovão, perguntei ao jornalista qual era a opinião dele sobre o policial civil. A resposta fala por si: “Nossa, o cara é um psicopata. A declaração dele dizendo que queria servir na guerra do Iraque (sic). O cara é louco”, disse ele.

Mediante a resposta, argumentei: “Mas vocês publicaram entrevista e com ele também (sic), não foi?”

Recebi a seguinte resposta definidora: “Nossa, mas ele é um personagem fantástico, né?”.

Em Dançando com o Diabo, o diretor John Blair também captou o jeito “singular” de Torres. Registrou declarações tão perturbadoras quanto as da imprensa carioca. Declarações em que Torres confessa que “a morte de dez traficantes não vale a vida de um só policial”  ou que na linha de tiro de uma ação policial ele se esquece da profissão que exerce: “quando a gente dá o primeiro tiro quer que aquilo nunca acabe, aí está a vocação para o guerreiro. Você esquece que é um policial, você está numa guerra”.

No entanto, diferentemente da imprensa carioca, no documentário, o diretor Blair deixa para o público a função de tecer qualquer opinião sobre o comportamento e ações do inspetor Torres e dos demais outros policiais e até traficantes que são entrevistados. Sobretudo, em relação da problemática deste tecido social brasileiro em que são inseridos os conflitos urbanos no Rio de Janeiro relacionados ao tráfico de drogas e armas.

Texto: Tatiana Lima
Imagens: Extraídas da Internet
Texto publicado em versão editada na Revista Vírus Planetário
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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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2 respostas para Nem vilão, nem herói: um homem midiático com práticas criminosas

  1. Jhon Taylor disse:

    Concordo com quase tudo que foi dito neste texto, o culto à pessoa, a elevação a qualidade de herói, enfim essas baboseiras que a imprensa produziu. Entretanto, temos que separar a água do óleo, realmente a morte de dez traficante não vale a vida de um policial nem de um cidadão que ele deve proteger, realmente os traficantes são do mal, e é a luta do bem (policia) contra o mal (bandidos). Dizer que auto de resistência só existe no Brasil, é demais. na Inglaterra os policiais mataram o brasileiro e foram inocentados, e olha que nem houve resistência, isso há em todo lugar, apenas muda-se o nome, ou vocês acham que os policiais vão tomar tiros e não vão revidar? legítima defesa tem no mundo todo. Agora, aqueles que estão do lado do bem e se desviam devem de ser punidos rigorosamente e exemplarmente.

  2. Obrigado pela divulgação da notícia.
    Suspeito que a transformação de sujeitos deste tipo em “heróis” não se fundamente – apenas – no fascismo de “parte da sociedade carioca [que] prefere achar que possui “rambos” nas ruas”, mas também na idealização do macho alfa, que não se restringe a círculos restritos, mas talvez a toda a sociedade (independentemente de classe e gênero): há muitos outros Trovões por aí, com os mais variados tipos de vestes, e nos mais diversos ambientes (independentemente de classe e gênero), sempre ilustrando a demanda por uma certa virilidade tão cara à auto-imagem nacional.

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