O lixo nosso de cada dia…

"Pago 15 reais por semana e fico aqui para trabalhar no lixão. Vou ver meus filhos só no final de semana"

Estou em estado de reflexão como há muito tempo não tinha. Uma estado reflexivo bom – o que no atualmente na minha vida tem sido raro. Contudo, acabei de ler um livro, na verdade, assistir ao filme Lixo Extraordinário (Waste Land), e daí, de repente,  a vida pulou da tela da minha TV, de 21 polegadas, até mim.

Fui criada por uma mulher sabia e igual a todos as outras. Cometia erros e acertos sempre. Era minha mãe. Mas não a considero sábia necessariamente por essa ação. Sempre a vejo como uma mulher de sabedoria elevada em virtude de certas frases que me disse. São frases que expressam um ensinamento importante passado em menos de vinte palavras. Um deles foi enxergar qualquer ser humano como um livro a ser lido.

Ela sempre me dizia: Tati olha ali, você vê? E eu respondia: o quê? E aí, no meio da Praça Tiradentes, lá no Centro do Rio, ela dizia. “Os livros, tati. Olha quantos livros estão andando por aqui”.

E eu só enxergava pessoas diferentes e iguais a qualquer um. Daí ela olhava no meu olho e concluia: “Existem dois tipos de livros aquele que se lê com o conhecimento que temos de saber ler, de sermos alfabetizados e há outro tipo de livro, aqueles que tem pés. Suas páginas são feitas de carne, sangue e ar, de vida Tatiana. Falo das pessoas filha”.

Acho que foi por causa dessa informação que comecei a sair do contexto da sociedade de consumo em que vivemos hoje. Um sistema social no qual as pessoas valorizam 90% das vezes o TER em deferência do SER. E digo que isso tem enlouquecido as pessoas, contaminado o sistema  e piorado muito o mundo e nós como pessoas.

Cada um ao ler um livro ou assisti um filme tem um tipo de catarse. A minha foi essa sobre o filme Lixo Extraordinário.  Senti que a vida pulava da tela e veio direto na minha direção como um soco no olho daqueles tão fortes que você se sente humano de novo e capaz de qualquer coisa. Inclusive, voltar a escrever neste humilde carderninho online após cinco meses de luto absoluto. Outra catarse que tive foi sobre essa coisa do SER E TER. Associei na hora porque venho falando disso com amigos há algum tempo e sou fã de Zygmunt Bauman, quem analisa como ninguém isso no livro Modernidade Líquida.

As pessoas estão a cada dia mais deprimidas, enlouquecidas, correndo, sem tempo. Nada e ninguém é suficiente. Um suposto “fracasso” subiu a cabeça de todos e uma suposta ideia de “sucesso” as domina como um câncer. E para piorar nossos corações, o ingrediente da competição já em voga há tempos ganhou potencial e virou  a lenda do Leviatã, lenda biblíca e usada para explicar o sistema social e de poder por Thomas Hobbes.

Sim, usei a palavra ninguém relacionada a consumo no parágrafo acima, porque de certa forma acho que as pessoas não tem apenas consumido coisas, mas também consumido as pessoas. E não falo de sexo não e muito menos de beijar na boca. Falo de escolher a SI mesmo como prioridade sempre para TER qualquer tipo de coisa, inclusive, TER pessoas.

Resumindo o contexto: se você não mora sozinho, não fez um curso universitário,  não tem um celular da moda, carro, roupas sempre novas, sapato de marca, bolsa da loja y ou X, tem marido ou namorado, tem filhos ( lendariamente sempre foram objeto de status social e de sucesso),  etc. Então, você é um perdedor (looser)!

Pelo menos essa é cartilha vendida e amplamente consumida pelos 90% da sociedade. E assim, homens e mulheres estão enlouquecendo, se depreciando dia a dia, e por fim, acreditando tanto nesta ilusão, nesta imagem que construíram de si mesmo, a ponto de paralisarem e não conseguirem fazer nada de verdade da vida, por suas vidas e com suas vidas. E aí, sim, fracassam. Ou alguém avança paralisado?

Você pode achar que estou um tanto exagerada. Mas já vi isso acontecer já, vejo acontecer exatamente agora com pessoas próximas e porque não dizer que, em alguns momentos, também percebo acontecer até comigo?

Pessoas com saúde, com comida quente no prato feita pela mãe, com teto acima da cabeça, com emprego (que pode ser ruim, mas que garante atingir sonhos e se sustentar) com cobertor quente, companheira do lado, mãe e pai vivos, porém nada disso é suficiente. O que é priorizado no EU é uma exigência sobrehumana para TER e assim, por não TER, começam a depreciação de si mesmos, que não deixam essas pessoas enxergarem tudo de bom que elas SÃO e TEM.

Porque compraram algo, mas o do outro se torna melhor ou ainda, existe um outro produto na loja com a mesma função que é melhor do que aquele que ele acabou de adquirir. Depois essa oscilação do TER pervete o SEr e começam a pensar que já foram melhores do que consideram que SÃO para os pais, esposas, filhos, etc. Enfim, a meta do TER corroi o SER e nunca é atingida. Nunca.

Pintura Sebastião

Pessoas presas e limitadas pelo que a sociedade vendeu como o necessário TER para só então atingir um status de  pessoa bem “sucedida”…blá, blá blá. Tudo bobagem!

Acabei de ver em Lixo Extraordinário homens e mulheres batalharem pelas vidas no maior aterro sanitário do mundo localizado em Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. Acabei de ver mulheres que perderam tudo. Acabei de ver homens que perderam tudo. Acabei de ver um homem analfabeto dizer “As pessoas pensam que é só uma latinha, mas 99 não é 100”. E acabei de saber que esse homem morreu. E acabei também de ouvir o artista plástico Vik Muniz dizer no filme:

“Quando se é pobre você quer ter tudo porque você não pode ter nada. Depois de um tempo você começa a ter tudo, mas não tem vontade de ter nada porque enfim, você pode comprar tudo. (…) Eu comprei muito tranqueira até conseguir entender isso”.

Pois é, não fiquem com raiva de mim. O impacto de assistir ao filme anula qualquer comentário ou revelação que eu possa fazer sobre o filme. Vá amanhã na locadora (sou velha) ou baixe no seu computador ou TV de LCD se quiser ou ainda, veja em algum portal de filmes conectado a internet seja como for ou de que forma for a ordem é veja o filme.

Isis...

Porque quando você assistir vai entender algumas coisas e outras não, mas em todo caso a semente será plantada em seu coração com um lixo exorbitantemente extraordinário.

P.S1: Somente para acúmulo de informação. A minha tv ainda é de tubo, porque  não consigo entender o suposto “dever” ou necessidade de comprar outra de LCD já que a minha funciona bem.  Portanto, enquanto ela respirar, ela estará aqui.

P.S2: Não faço reciclagem com a desculpa de que a prefeitura não recolhe o material como deve ser feito. Mas a partir de hoje vou separar porque sei que de certa forma estarei facilitando a vida dos catadores de materiais recicláveis.

P.S3: Fiquei na dúvida. Não sei se jogo livros no lixo ou se repasso. Afinal, foi o livro Príncipe de Maquiavel tirado do lixo que ajudou organizar um pouco de tudo assistido no filme.  Lembrei que há uma mês meu pai jogou duas bolsas de livros – que separei para repassar – no lixo e eu dei um ataque. Lembrei do comentário do meu amigo Gustavo Barreto: “Pensa assim, quem achar vai estar no lucro. O cara vai ler Focualt, Peter Burke (sic)”.
É, ele tinha razão.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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