Quais coisas estúpidas você faz no final de ano?

Tem gente que bebe demais. Tem tia que descobre a máxima de Cazuza “o banheiro é a igreja de todos os bêbados” e abraça o vaso sanitário como se ele fosse o seu melhor amigo. Tem gente que compra desvairadamente e fica devendo durante todo o ano. Esquece inclusive, que vai querer comprar e gastar a “rodo” no carnaval.

Tem gente ainda que se tranca. São os que “não gostam de nada e  acham tudo uma palhaçada”. E têm gente como eu, que adere as superstições de final de ano. Essa é a minha estupidez! Será que também é a sua?

Bom,tudo começou com meus pais. Não conheço ninguém mais supersticioso do que eles. Não mesmo. Para você ter uma ideia: meu pai vai do centro de macumba a igreja evangélica. Acende vela para São Jorge, dá guaraná para São Come e Damião, faz promessa para Nossa Senhora da Penha, coloca moeda no prato embaixo de uma imagem de Buda, joga cerveja no chão para o santo e depois ora na igreja evangélica (Universal do Reino de Deus).

E, no final de ano, essas atitudes espirituais são multiplicadas por três. Ontem (27/8) meu pai foi a igreja evangélica e chegou com uma saquinho de sacolé. Dentro uma aguá rosada para eu banhar meu joelho machucado. Mas, no dia 23/12, ele recebeu um amigo para jogar os búzios para verificar como estava a vida dele no campo espiritual e, no mesmo dia, adivinha? Também deu uma passadinha no culto da igreja. Enfim, deu para entender, né?

Quanto a mim sempre levo um “pito” porque não me cuido no campo espiritual. Não acendo vela, não me benzo, não tomo passe, enfim, não faço nada. De acordo com o meu pai, na parte espiritual “sou um zero a esquerda” e ele é o “cara”. Ah, esqueci. Meu pai também andar com alho no bolso. É para “quebrar inveja”, diz ele. E só para garantir, nãos e assunte ao vir aqui em casa e se deparar com um copo de água e um olho de boi atrás da porta. São as “coisas de papai”.

Já minha mãe nunca fez nada dessas coisas. Mas, em compensação tinha superstição com tudo. Tudo mesmo!

Bolsa no chão não podia. Entrar e sair pela mesma porta sempre foi obrigatório. Inclusive, em shopping center (um dilúvio). Passar debaixo de escada nem pensar! Falar certas palavras como azar, diabo, inferno etc; dentro de casa sempre foi infração gravíssima.

Se sal caísse no chão da cozinha rapidamente era necessário jogar açúcar por cima; e se alguma coisa quebrasse nada de usar colar. O destino do objeto quebrado era o lixo. Podia ser uma lasca ou um pedaço. Nada partido deveria ficar em casa impedindo a energia de transitar pelo ambiente.

Na carteira, uma nota de dólar para trazer dinheiro e por dentro da roupa sempre carregava um alfinete com uma figa (pequeníssima) de madeira. Só o gato preto escapava das superstições de minha mãe. Mas, tenho certeza que o gato só se salvou porque ela amava bichos, em especial gatos. Além disso, a nossa gata siamesa teve uma ninhada engraçadíssima: dois gatos siameses nasceram e três gatos pretos de olhos azuis também.

Casal que é casal tem que compartilhar uma superstição. Pelo menos umazinha. Por isso, unindo “conhecimentos” tanto papai quanto mamãe me ensinaram que, para proteger a casa de inveja alheia é preciso colocar um “olho de boi” dentro de um copo com água atrás da porta de casa. Segundo a lenda, se alguém visitar a sua casa e o tal olho estourar é ótimo. Sinal que a inveja não pegou em você. Foi filtrada pelo “olho de boi” (Múuuuu pra você hehehe)

Segundo a lenda familiar, só comecei a falar depois de beber água de chuva da primeira chuva do ano. Isso mesmo. Em um 1º de janeiro de 1980 lá estava mainha – mãe preocupada – aparando água da chuva para a filha beber e assim, quem sabe falar sua primeira palavrinha. O que me fez sempre me sentir uma ingrata a minha postura cética. Afinal, se não fosse a tal chuvinha de 1º de janeiro e a fé dela, talvez fosse muda ainda hoje. Vai se saber?!

Com a graça dos anos, consegui me livrar do tal alfinete com a figa – que minha mãe me obrigou a usar por dentro da blusa de escola até os 11.

Portanto, o que tento dizer é que quando se cresce num ambinete como esse, onde a suspertição embala as regras de convívio da casa, só existem duas opções: ou você ficar igual ou é uma estranha no ninho. E durante muitos e longos anos eu fui.

Juro que tentei resistir a premissa de ser o “espelho e semelhança dos meus pais” nesse quesito, porque apesar de não discutir ou criticar nenhum dos dois, sempre fui cética. Nunca acreditei nesses métodos de trazer ou impedir azar, sorte, amor ou proteção. Porém, acabei sucumbindo aos poucos. Essa  é a verdade!

Porém, no final de ano, alguma coisa acontece. A sanidade mental se esvai e cedo as superstições. No plural, o que é muito pior! São as e não a.

Tudo começa com um frenesi das pessoas perguntando repetidas vezes o que faço para ter sorte durante ano. Depois, começam as matérias e programas na mídia sobre o poder das cores, dos rituais e das comidas. Sim, porque as comidas também têm suas artimanhas para atrair prosperidade, dinheiro, positividade, alegria, saúde, proteção e até dão uma forcinha no balcão de atendimento de pedidos lá no céu. Haja fé!!!!

E quando percebo, lá estou eu na porra de uma fila enorme para uma mísera calcinha.

Já fiz namorado – coitado! – procurar uma calcinha amarela em pleno shopping lotado no dia 31 de dezembro. Foi um santo esse homem! Na verdade era é ateu, mas enfim…Isso só mostra como o amor deixa o povo cego e até crente, se isto for acalmar a irritação da nomorada!

Porém, a culpada dessa minha insanidade mental (datada) não é dos meus pobres pais e sim, de uma amiga chamada Milene Vieira. Foi ela, uma das minhas melhores amigas, que me fez aderir num fatídico 31 de dezembro, a todas essas superstições.

Também é culpa dela eu agora, precisar pular sete ondas (já imaginou meu desepero quando não estou perto da praia?) e usar roupa nova (coisa para qual nunca liguei) na virada do ano. Resisti aos meus pais, mas não resisti a minha MILENE. Mas, por quê?

Eu sei lá. Acho que deve ser porque ela é psicóloga. Fazer essas coisas atendendo a um conselho de uma amiga terapeuta, me autorizou a crer em coisas que não tem explicação lógica. E a guria ainda, só para completar essa salada, também é ateia. Vê se eu mereço isso! Ou então, e o que é mais provável, pode ser só uma desculpa que dou para mim mesma!

Seja por qual motivo for (isso só se resolve, acho, que na sala do terapeuta) agora todo santo dia 31 de dezembro, a cor que guardo debaixo da minha saia é sempre amarela. Uso pelo menos uma peça de roupa nova. Faço e como arroz com lentinha – que por sua vez não sei exatamente a origem ou o por quê da crença – dizem que traz riqueza, abundância e fertilidade. Que santo alimento, não? Com pro uva verde e como, apesar de nunca saber se são 3, 7 ou 12 uvas a serem comidas.

Tenho cisma e não como de jeito nenhum o pobre coitado do peru abatido, que cisca para trás!!!! O que pode não ser uma boa metáfora para o ano que está por vir (essa aí até que em lógica, vai?).

Enfim, não tenho o sincretismo religioso de meu pai. E tão pouco as superstições de minha mãe – que me deixavam maluca, principalmente com a de entrar e sair pela mesma porta. Mas, não importa, porque quando chega o raio do final de ano tenho todas as manias possiveis. E quando não uma das supertições, tenho a sensação de que as coisas não serão boas. É ridículo. Mas, fazer o quê?

A gente tem essa fé teimosa de acreditar que são as coisas e não a gente, que pode melhorar nossas vidas.

A verdade é que a nós precisamos de uma desculpa para dizer para nós mesmos, que teremos uma vida renovada a partir de 1º de janeiro de cada ano.

É uma  forma, uma jeito de acreditar que teremos outra chance de acertar e errar. Enfim, de viver e sonhar.

E essa é a nossa deliciosa estupidez!

Pelo menos a minha. Assumo!

P.S: É por isso que mesmo com o joelho com estiramento e mancando, papai já prometeu, vai me levar no dia 31 de manhã à praia para eu pular as minhas sete ondinhas. Afinal, a porra da perna já não tá muito boa, estou presa em casa há um mês pulando feito saci, vai que deixo de pular minhas ondas e “zica” piora? Vai que…Melhor não arriscar!

Imagens: reprodução internet. Já a da perna imobilizada: Euzinha!

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
Esse post foi publicado em comportamento, Cotidiano, filosofia de botequim, Literatura, Rio de Janeiro e marcado . Guardar link permanente.

2 respostas para Quais coisas estúpidas você faz no final de ano?

  1. Sandro Henrique Meireles Almeida disse:

    É interessante estes fatos sociais, e como as nossas consciências individuais e coletivas se comportam. Se torna engraçado nós que cremos tanto na ciência nos comportarmos dessa maneira sendo que nunca foi feita nem uma experiência pra saber como uma peça intima ( e também outras atitudes que são tomadas) pode mudar sua vida financeira. Mas não estou aqui pra dizer que algo esta certo ou errado mas somente para fazer minhas observações, achei muito inteligente a descrição. Excelente 2011 pra você sucesso, prosperidade, riqueza, paz tudo de bom.

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