Saúde no Rio: 33 dias sem atedimento adequado a idosa

Secretaria promete cirurgia para até “o fim desta semana”

Após 33 dias de internação de Neuza Jesus da Silva, de 75 anos, no Hospital Salgado Filho, a família da aposentada ganhou a promessa, segundo o médico cirurgião do setor de ortopedia que, possivelmente, a idosa será operada na quinta-feira. Mas não desta semana (7/6), pois é feriado. A cirurgia deve acontecer na outra quinta-feira (14/6). Segundo relato da nora da aposentada, Vera Lúcia Sanches, o médico falou que “não adianta a família ficar nervosa”.

Segundo ele, o procedimento cirúrgico da aposentada ainda não foi realizado porque o hospital não dispunha da prótese necessária para realizar o procedimento. Foi preciso que a prótese “muito cara” fosse solicitada a administração, o que gerou a abertura de uma licitação para o posterior pedido de compra. Há a previsão de que a execução da cirurgia no fêmur quebrado da aposenta possa acontecer em 14/6.

De acordo com o artigo 15° do Estatuto do idoso, lei nº 3.561 aprovada em 1997, “é assegurada a atenção integral à saúde do idoso, por intermédio do Sistema Único de Saúde – SUS, garantindo-lhe o acesso universal e igualitário, em conjunto articulado e contínuo das ações e serviços, para a prevenção, promoção, proteção e recuperação da saúde, incluindo a atenção especial às doenças que afetam preferencialmente os idosos”.  O Estatuto ainda adverte especificamente que em relação ao SUS “a distribuição de remédios aos idosos, principalmente os de uso continuado (hipertensão, diabetes etc.), deve ser gratuita, assim como a de próteses e órteses”.

O artigo 2º também decreta a importância da preservação “inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral ” do idoso e no artigo n °20, que é obrigação do Estado assegurar “proteção integral por lei ou por outros meios” dando todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde, em condições de liberdade e dignidade.

Por meio da assessoria de imprensa, em nota enviada por e-mail, ontem (5/6), a Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil que administra o Hospital Salgado Filho, garantiu que “o setor de Ortopedia do Hospital Municipal Salgado Filho (HMSF) presta atendimento ambulatorial emergencial e conta com serviço de classificação de risco, que realiza avaliação prévia dos pacientes e os encaminha para atendimento em unidade referenciada. Como os casos de emergência apresentam maior urgência e gravidade, essas ocorrências são priorizadas”.

A direção da unidade ainda esclarece que já dispõe da prótese ortopédica necessária para a execução do procedimento cirúrgico da paciente e informa que “a cirurgia deve ser realizada até o fim desta semana”.  A nota também diz que a direção do HMSF está à disposição dos familiares para prestar qualquer esclarecimento sobre os procedimentos adotados.  Porém, a nora da aposentada Vera Lúcia Sanches que esteve nesta no hospital durante a manhã e tarde (até 15h30) de segunda-feira (4/6),  não conseguiu encontrou o setor de ouvidoria do Hospital aberto.

Entenda o caso:
A odisseia da família teve inicio na noite de 5 de maio. A aposentada que já se recuperava de outra cirurgia no fêmur – que havia deslocado há dois meses – após uma nova queda, desta vez, quebrou o osso (fêmur) da perna direita. Os ortopedistas já haviam informado da saúde frágil da aposentada diante de uma acelerada osteoporose.

Segundo relatos da família, a internação da aposentada desde o início foi complicada. O neto da aposentada Malcon Sanches levou a idosa para o Hospital Salgado Filho, porém o hospital não teria aceitado prestar socorro. A recepção informou que não havia ortopedistas disponíveis de plantão no dia (5/5), pois todos estavam ocupados em uma cirurgia. A família solicitou então o atendimento da aposentada mediante a avaliação de um clínico geral até a chegada da equipe ortopédica. Porém, teve o pedido negado e a recepção do Salgado Filho se recusou a abrir o boletim de atendimento e fazer a internação na emergência do hospital.

Mediante a recusa de prestação de atendimento pela alegação de impossibilidade, a família pediu a ambulância para locomoção da aposentada Neuza da Silva, pois a locomoção de forma inadequada poderia agravar ainda mais o caso, mas recebeu outra negativa. Segundo a recepção, o hospital não tinha serviço de ambulâncias disponíveis para transferência de paciente a outras unidades de Saúde. O conselho dado pela recepção do Salgado Filho foi de levar a idosa para casa e de lá abrir um chamado para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). “Somente eles possuem ambulância disponível no Estado e só vão conseguir atendimento ligando lá da casa de vocês”, disse a recepcionista.

No total, foram necessários sete telefonemas, sendo três ligações com atendimento do 192 e geração de número de protocolo (nº21, nº33 e nº40). Nas outras ligações, as atendentes não abriam o boletim de ocorrência.  Com o passar das horas, as dores da idosa aumentavam muito, além do inchaço da perna. O acidente da aposentada Neuza da Silva aconteceu às 20h13min. A ambulância do Samu foi deslocada para atendimento somente no chamado nº40 com saída para o local às 0h33min. Chegando às 0h58.

Segundo a neta da aposentada, o problema para o envio da ambulância não era causada pelos atendentes do 192, e sim, pela médica que faz a triagem  dos chamados, e é quem tem a responsabilidade de avaliar o caso e dar aval para se o pedido de socorro deve ser atendido ou não. “Precisei discutir com a médica e dizer exatamente qual era o trabalho do SAMU e o estado da minha avó. Dizer que a responsabilidade por uma piora do caso seria dela (médica) que estava negando socorro a uma senhora de 75 anos, e ressaltar que aquilo caracteriza omissão de socorro”, disse Lara da Silva.

A resposta da médica veio rápida “Ok. vou designar uma ambulância, mas não há previsão de hora para a chegada de uma unidade”. Assim terminou a ligação, pois a médica desligou o telefone na cara da neta da idosa. Posteriormente, uma nova ligação foi feita ao 192 (número do Samu) e foi confirmado o envio da ambulância às 0h33min.

Calvário
Quando a equipe do Samu chegou ao local, o médico foi informado pela família de que o Hospital Salgado Filho há três horas tinha informado que não havia ortopedistas de plantão disponível naquela madrugada. Porém, médico explicou que o procedimento do Samu o obrigado a encaminhá-la ao Salgado Filho, pois o hospital era de referência e o mais próximo da residência (minha avó mora em Quintino). “A senhora deve já saber como é. Para família, eles sempre dizem que não há médicos. Mas não se preocupe. Nós vamos para lá e se de fato não houver como realizar atendimento, vamos procurar outro hospital”, disse o médico da equipe do Samu.

Com o boletim de ocorrência do SAMU, a aposentada foi aceita no Hospital Salgado Filho. Um clínico geral fez os procedimentos rotineiros como solicitar raios-X, entre outros, até a chegada de um ortopedista para avaliação do caso. Havia ortopedistas de plantão (5/5) no Salgado Filho, mas todos estavam ocupados em cirurgia segundo a informação obtida pela família e confirmada pelos maqueiros e enfermeiros do hospital.

Após exames, a aposentada Neusa da Silva foi encaminhada para o corredor em frente à emergência do setor ortopédico e ficou aguardando a chegada do ortopedista, que ocorreu na manhã já no dia 6/5. O médico constatou a ruptura do fêmur e já no dia 6/5 informou que o hospital não dispunha da prótese necessária para realização da cirurgia.  Foi proposto a família que levasse a aposentada para casa e tentasse a internação em outro hospital.

Porém, a família se recusou com medo de agravamento do quadro clínico da aposentada. A procura de leitos em hospitais do SUS para atendimento deve ser feito pelo próprio Hospital. A aposentada foi transferida, mas para um leito na emergência do setor de ortopedia do Salgado Filho. Após 8 dias, fez nova transferência. Desta vez, para um leito na enfermaria localizada no quinto andar do prédio do Hospital Salgado Filho. Somavam-se já 14 dias de internação.

Erros administrativos
Em 19 de maio, o alívio da família parecia que teria fim. A aposentada foi colocada em jejum e fez exames para realização do procedimento cirúrgico. No entanto, quando Neuza Jesus da Silva chegou ao setor de cirurgia, o médico disse que aquilo se tratava de um erro, pois já era de conhecimento da equipe que o Hospital  não tinha o “material (prótese) necessário para realização do procedimento”, relatou a nora da aposentada Vera Lúcia Sanches.

Uma semana depois, os mesmos procedimentos médicos (exames etc.) foram feitos pelo médico responsável por preparar os pacientes que irão para cirurgia. Contudo, foi outro erro. A prótese necessária não havia chegado ainda para realização da cirurgia.

De acordo com a família, em nenhum momento, a assistência social ou administração do hospital fez qualquer procedimento para encontrar leito em outro hospital para execução do atendimento médico adequado a aposentada Neuza da Silva.

Por meio da assessoria de imprensa, em nota enviada por e-mail, ontem (5/6), a Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil que administra o Hospital Salgado Filho, garantiu que “o setor de Ortopedia do Hospital Municipal Salgado Filho (HMSF) presta atendimento ambulatorial emergencial”.

Segundo a nota, o hospital “conta com serviço de classificação de risco, que realiza avaliação prévia dos pacientes e os encaminha para atendimento em unidade referenciada. Como os casos de emergência apresentam maior urgência e gravidade, essas ocorrências são priorizadas”.

A direção da unidade ainda esclarece que já dispõe da prótese ortopédica necessária para a execução do procedimento cirúrgico da paciente e informa que “a cirurgia deve ser realizada até o fim desta semana”.

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Sobre Conversa no Banheiro

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