Diferentes olhares: “Como assim minha filha? Você quer ser gorda quando crescer?

Ontem (16/6) estava toda prosa andando pelo Norteshopping (subúrbio do Rio) curtindo um dia eu comigo mesmo, de vestido todo soltinho (comprado em uma loja de departamentos), sapatilhas azul com joaninhas (adquirida na Feira da Rua do Lavradio), minha bolsa de couro da Mafalda (lembrança do artesão da Feira de São Telmo)  e meu chapéu de palha (estilo sambista com fivela de couro comprado na banca da peruana na Rua Miguel Couto, Centro do Rio), quando passou perto de mim uma menina de uns 11 anos ao lado da mãe na livraria Saraiva.

Do outro lado da prateleira, enquanto folheava revista Fórum, ouvi a menina dizer: “Caraca mãe, você viu aquela menina? Aquela ali. Aquela moça mãe, a do chapéu!”. E a mãe: “Não aponta menina!”. E a garota: “Tá mãe. Desculpa. Mas olha lá! Nossa quando eu crescer quero ser igual a ela.”

A mãe indignada respondeu: “Como assim minha filha? Você quer ser gorda? Você quer ser obesa quando crescer menina! Tá maluca?”. E aí, no meio do filha da puta mental que eu automaticamente falava, mas minha boca não expressava (não por ela me chamar de gorda, porque sou gorda, mas pelo tom pejorativa e preconceituoso que usou a mãe da menina), ouvi a garota responder a mãe: “Não mãe. Eu quero ser igual a ela no estilo! Caraca olha o jeito dela! É todo lindinho cult, independente, livre, muito maneiro. Tem maior estilo mãe!”.

E aí, a mãe retrucou: “Ah tá filha… É até que ela tem estilo apesar de ser gorda, né? Mas você não prefere ser igual a mamãe, não?”

E a menina respondeu: “Não mãe. Eu quero ser igual ela mãe, porque nada aqui no shopping tem a cara dela. Ela anda no corredor e parece única. Você não mãe. Tem um monte de manequins na vitrine que estão vestidas iguais a você…”.

Enquanto a mãe saía puxando a criança pelo braço meio com raiva e eu engolia minha vontade de rir por motivos óbvios, olhei para trás meio de rabo de olho, foi quando meus olhos se encontram com os da garota e não resisti, lhe dei um leve sorriso de lado. Mas enquanto a mãe pagava a compra no caixa, a menina virou súbito para trás para simplesmente me dá tchau: “Tchau linda”, disse e perguntar:”‘Quem é a boneca da bolsa?

Eu meio sem graça só respondi: “É a Mafalda”. Enquanto isso, a mãe me dei um sorriso puto, daqueles bem atravessado, e voltou a arrastar a filha para fora da loja.

Bom, depois disso, me fiz de arbusto de novo na fila da livraria. Paguei minha revista e decidi que ganhei um presentão e a mãe da menina uma dor de cabeça.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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11 respostas para Diferentes olhares: “Como assim minha filha? Você quer ser gorda quando crescer?

  1. Na minha vida, tenho algumas histórias que vão nesse sentido, mas bem menos dóceis, infelizmente. Fico feliz pela garota que mesmo sendo ainda uma criança, está construindo um passo largo para o pensamento crítico e menos formatado que existe em grande escala na nossa sociedade contraditória, posto que individualista nos valores, mas cada vez mais em busca de um padrão, de uma repetição de corpos, ideias, roupas, cabelos, costumes.
    Uma vez na secretaria da faculdade, ouvi um: “Filha, olha para essa menina do seu lado.” A mãe era uma dessas quarentona esticadas de colágeno e bem firmadas por 400 ou 500ml de silicone espalhados pelo corpo. A filha olhou. Tudo isso num espaço em torno de 15m². A mãe soltou a segunda frase: “se vc continuar engordando, ficará assim. Igual a um monstro. Igual a essa garota”. Bem, naquela época eu era muito, mas muito retraída. Saí da Universidade e fiquei andando pelas ruas do cento do RJ, sem saber o que fazer direito, perambulei durante o dia todo engasgada com aquela história. Entrei na Igreja de Nossa senhora do Carmo e chorei, chorei muito. Chorei pelas palavras, por ter sido invisibilizada (pq as duas sabiam q eu estava ouvindo tudo) e chorei por ser eu. Na época, pesava uns 110kg.
    Acho que a minha história é mais ou menos assim:
    Eu nasci, linda de bonita, comece a gostar de mim; da minha cor, cabelo, corpo. Então, fui ouvindo coisas muito feias sobre minha cor, meu cabelo, minha bunda, meu corpo; Logo, ia olhando no espelho e não acreditava que aquelas palavras tão feias podiam ser para mim. só que elas se repetiam tanto, que comecei a acreditar. Então passei a me detestar e a querer ser diferente. Mas, não parou por aí… depois de muitas histórias, recuperei a auto-estima e hoje voltei a ser LINDA, NEGRA, GORDA e TODA GOSTOSA. 😀

  2. Janaina Rochido disse:

    Hahahahahahaha, muito bom! Menininha de personalidade, hein? Bem-feito para essa mãe… durma com um barulho desses, tia: nem todas as meninas querem ser como a Barbie.

  3. Caio Borba disse:

    Adorei seu blog e o jeito como você escreve ! Já curti pelo Facebook e vou passar a acompanhar! Muito bom !

  4. Amanda Assis disse:

    Só li esse post, mas o blog já está nos meus favoritos. Se nada mais prestar (e aposto que outros vão ser tão bons ou melhores que este), este valeu a pena. Bjs.

  5. Mari Lee disse:

    Adorei!
    E tomara que a menina tenha se tornado (no mínimo) leitora de Mafalda!

  6. irma de assis disse:

    Ser fiel a nós mesmos incomoda a muitos, mas vale a pena! Beijos a quem se ouve e se faz confortável dentro do seu ser. E para quem passa a vida tentando seguir a “moda”, quem sabe, podemos rezar e confiar que um dia ou uma encarnação ele cairá em si. Não precisamos gastar nosso conforto em ter raiva.

  7. Mariana Martins disse:

    Que belezinha de menina e que belo chute na bunda dessa mãe! Torço que lá pelos 15, 16 ela mantenha o pensamento.

  8. Maria Luiza disse:

    ameeeei. onde ja se viu essa boçal ensinando a filha a discriminar pessoas gordas?

  9. Cindy Cristine disse:

    Muito bom, é ótimo ver isso acontecer, ver que os valores fúteis da sociedade, estão se re-invertendo.

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