Manguinhos RJ: local refratário da miséria humana

Hoje (11/10) vim para o Centro da cidade de táxi (lotada). Dentro do carro somente eu e uma outra

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passageira no banco do carona. Uma determinada hora começou uma conversa sobre o trânsito. O que nos levou diretamente a falar da Leopoldo Bulhões (Manguinhos). A passageira do banco da frente (carona) comentou que não pega o trem de jeito nenhum:

– Deus me livre aqueles cracrudos. Eu tenho medo. Fico nervosa.

Respondi que de fato a miséria é agressiva. Dói de ver. Dá uma sensação de medo devido ao estranho (falava da pobreza em si). Que é difícil mesmo. Fui interrompida pelo motorista de táxi:

– Senhora isso não é miséria não. Muito menos pobreza. Isso é sem-vergonhice mesmo. Não sabe que essa porra vicia. tinha é que colocar chumbinho para eles fumarem juntos e morrer logo de uma vez.

Daí, começou um dialogo entre o motorista de táxi e a passageira no carona pra lá de “interessante”. A conversa toda girava em torno do direito de matar mesmo bandido, traficante, viciado em crack e todo e qualquer pessoa que comete algum crime.

– Eu não tenho pena. As pessoas ficam com peninha. Sinceramente tenho um filho. Antes eles do que eu ou meu filhos. Entre a vida de uma pessoa que trabalha honestamente e ganha sua vida a de uma que só sabe roubar e matar gente que morra eles.

– Eu sou policial senhora. Nunca levei ninguém preso. Para mim é tudo cadáver andando. Eu mato e ponto. (o motorista de táxi)

– Mas tem que matar mesmo só sabem roubar e matar. E não adianta pedir pelo amor de deus não. Eles matam e não querem nem saber.

Imagem– Quando eu era do Bope adorava quando eles tentavam pedir arrego. Falava já que tem dinheiro para perder pode chamar o cara. Quando chegava eu só fazia PA PA PA. Caiu os dois no chão. Não levo ninguém preso. Antes o choro da mamãezinha deles do que o choro das nossas e de nós que trabalhamos.

(o motorista do táxi ainda narrou uma possível morte de uma ladrão há duas semanas atrás na rodoviária do Rio. Um cara supostamente teria tentava roubar um taxista. O rapaz teria levado uma surra e sido jogado no rio (esgoto) na Francisco Xavier. E também narrou como com um taco de beisebol deu uma surra e quebrou o braço de um usuário de crack na Leopoldo bulhões há um mês quando o mesmo jogou um cabo de aço em direção do carro dele).

Foi quando interrompi a “suntuosa” conversa (a qual só ouvia a partir de tais relatos de violência) e perguntei se mesmo sendo policial ele precisava dirigir táxi. O motorista respondeu que, na verdade, era policial APOSENTADO e hoje tinha como ofício o táxi. Também contou que se aposentou após receber um tiro de fuzil na Rocinha, que entrou pela perna e “rasgou bacia etc”. Ficou dois anos de cama.

Ainda sendo novamente instigado pela passageira no banco do carona ele ainda contou o que fez semana: dois jovens picharam o muro da casa dele pouco tempo depois que tinha acabado de pintá-lo. Ele sai de casa com arma em punho. Fez ameaças ao jovens e obrigou cada um pintar todo o rosto inclusive dentro da boca com colorjet.

Também revelou que hoje só dirige com o taco de beisebol porque assim se tiver problemas só prejudica o físico da pessoa não mais a integridade (coisa que julgava que fazia quando andava armado).

Eu só fiquei no banco de trás ouvindo tudo aquilo e me assustando com a lei da vida, carne e morte descrita por ele e reverenciada por uma moradora de Olaria. Chocada como uma corrida de táxi pode ser tão perigosa para minha integridade mental. Também fiquei pensativa sobre o estrago que uma bala de fuzil provoca duplamente: no corpo de um homem e na alma de uma cidade seja em um policial ou em um “bandido” e até mesmo uma contadora moradora do subúrbio carioca.

Equação triste essa nossa. Pensar que todo essa narrativa começou porque eu sugeri a ela voltasse de trem devido ao trânsito mais tarde, trem que vou usar para voltar para casa.

A verdade é que Manguinhos hoje representa um contexto social urbano ao qual ninguém quer ser lembrado: miséria seja social ou humana.

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Imagens: Internet.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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