As muitas vidas diárias do 350 – Irajá X Passeio.

Voltando para casa, na minha rotina atual de sábado, pós curso, vi carros da CORE e BOPE em Benfica.

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Pensei que a vida estaria diferente na Leopoldo Bulhões, mas seguia igual. Na linha do trem, vários

usuários de crack estavam deitados ou sentados fumando a droga entre papelões, roupas rasgadas e chapas. Crianças, famílias e motos iam e vinham. A vida era estranhamente normal.

Mas enquanto olhava a paisagem urbana misturada e conflitante de todos os dias, eu só me perguntava como aquela cena ficaria após a invasão da polícia em mais uma ação pacificadora. Será que os usuários de drogas não saíram de lá porque não sabiam do que vai acontecer ou por que não tem opção? Como será que serão tratados: como dependentes químicos ou criminosos? Não sei dizer. Mas uma vez serei expectadora de uma remodelação que ninguém sabe onde vai dar.

Como passageira da linha de ônibus 350 sou testemunhos dos conflitos entre moradores da favela, usuários de crack, passageiros locais, funcionários da empresa (trocador e motoristas) e a classe média que ainda anda na linha. Às vezes, os conflitos são na ida, outras é na volta. A “pobreza” bate na porta do ônibus pede:
– Na moral piloto dá uma carona até o Mandela.

Os “pobres” que pagam passagem reclamam: de terem pagado, de ter que conviver com gente suja dentro do ônibus, do fedo deles, do suposto “perigo” que passam etc. Reclamam em voz baixa com outros passageiros e algumas com o motorista. Em outras vezes, começam a gritar: – o motorista vai parar aqui não né! Eu hein!

Quantos conflitos já não assisti entre o

motorista com os usuários de crack também:

– desce mano não tem essa de carona. To falando na moral com você. Esse carro tem câmera. Vai ao outro.

Já houve vezes, mais de uma, que pessoas trajando roupas simples ou trabalhadores com roupas simples foram confundidos (moradores da área) e também começaram a brigar com o motorista:
– Eu vou pagar passagem seu muquirana. Sou trabalhador. Não to de caô não seu FDP. Vai humilhar a mãe

Já houve vezes de eu pagar a passagem de estudante porque motorista não queria deixar o menino entrar sem pagar. Quase uma revolta se iniciou:
– Cracudo você deixa né. Tem filho não?

Outras vezes o silêncio tomou conta de todos e ninguém defendeu o estudante ou se ofereceu para pagar passagem.

Por último, já teve vezes em que o pedinte da carona entrava no ônibus e o barulho de metal invadia o ambiente. Eram as latinhas que ele catava no centro. Em geral, esses o motorista sempre dava um apoio e deixava entrar. Quando desciam do ônibus em Manguinhos, sempre havia um que gritava:

– são os cornos mesmos. Esse caro tem a cara de pau de cata lata, vim e ir de carona e tudo para quê? comprar pedra.

Nesta hora, alguns chegam a gritar na janela (sim já aconteceu isso).
– Vai Zé ruela, vai cracudo. Se mata mesmo. Pede com veneno de rato pra também para matar logo e você deixar trabalhador voltar em paz para casa.

Andar no 350, garanto, não é para os nervos fracos. Você é exposto todo dia a essa mistura social dentro do meio da desigualdade. É estranho.

Mas o que posso dizer uma coisa certa: absolutamente nunca fui perturbada por um usuário de crack. Nunca. Nunca nenhum me desrespeitou ou me fez mal. Sim, tenho nariz e algumas vezes o cheiro realmente é forte, mas como não seria se aquele ser humano estava no meio do lixo consumindo droga?

Não tenho varinha de condão e não estou aqui para apontar o dedo ou relativizar sobre posturas certas ou Imagemerradas. Só sei que eles são dependentes químicos, por mais, que o vício os leve ao crime e vice-versa. Tomara que junto com o BOPE, a CORE etc. Haja uma política pública e social efetiva, não mais uma expusadela para longe dos olhos ou de internação compulsória como foi feita na invasão do Alemão em 2010.

Porque todos que abrem os olhos e não negam ver a verdade sabem que o número de usuários de crack aumentou em Manguinhos e Jacarezinho a partir da pacificação do Alemão.

Mas um fato chamou minha atenção como jornalista: sexta-feira (11/10) o RJTV (disponível na íntegra apenas para assinantes) chamava uma matéria sobre o consumo de drogas em Manguinhos, especificamente crack. No dia seguinte, o governo Cabral, a Seseg, anunciou a pacificação de Manguinhos. Hoje, foi anunciada a invasão a partir das 4h da manhã de domingo.

Agora, como comunicadora eu me pergunto: quem está agendando quem? A mídia agendou o governo ou o governo agendou a mídia?

O 350 é um ônibus marcado. Desde que no ano de 2006 um grupo incendiou um ônibus. Pessoas se queimaram e morreram. Desde então, virou sinônimo de “perigo” na Zona Leopoldina. O mais estranho é que a ação criminosa aconteceu na Penha, na esquina da Rua Guaporé. Mas hoje na representação imagética suburbana, os usuários de crack são ligados a possibilidade de um ato semelhante. Coisa que nunca aconteceu. Existe apenas na lenda urbana do medo suburbano leopoldinense. Também chama atenção que o crack não fazia parte do cenário do RJ até três anos atrás.

Imagens Internet.
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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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