Matou o preconceito e comeu pão com mortadela

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Quem acompanha esse banheiro sabe. Já comentei algumas vezes que passei parte da minha adolescência no Garage. Lá vivi históricas únicas. Quer dizer, sempre achei isso, mas hoje sei de muita gente, que também viveu situações extremamente bizarras lá tanto quanto eu. Por isso, pegando o embalo da reportagem que fiz para um site (http://riounderground.com.br/materia_principal.asp?id=32) sobre o retorno do Garage (que foi uma faça e nunca voltou de fato, estilo mega brochante), resolvi conta aqui o que faltou espaço para escrever lá.

Tinha 14 anos e já frequentava o reduto mais quente da cidade. Não pelos seus espaços de luzes de boate piscando em movimento frenético ou música de batidas rebolativas, que dirá pro causa da bebida servida (após uma eternidade de quando se pedia e ainda quente), muito menos pelos petiscos caríssimos e pequenos ou as cantadas nonsense de três palavras ou sílabas e muita pegação sem qualidade, características típicas dos enferninhos e point cultuados.

Ao contrário disso, o quente da cidade para mim era um espaço mais alternativo. Um lugar sujo, escuro e sem muito glamour: a Rua Ceará. Local frequentado pela turma do Clube de Motoqueiros Balaios que gostavam de luzes fracas, conversas olho no olho, papo cabeça com devaneios sobre música, bebida gelada, um podrão decente daqueles  que caiem como uma luva no estomago seco e vazio e na proporção suficiente para mata a fome notívaga. Meu lance era o lugar de porção generosa de batata-frita, servida bem ao estilo do Heavy Duty. Ou seja, no grito: a batata-frita ta pronta porraaaa!!! Sim, no meu inferninho do sonho era assim.

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Sem falar que, para um cara para chegar numa guria, havia um esforço mental. Inclusive, na maioria das vezes, um beijo só vinha depois de um tesão verborrágico entre ambas as partes, se tornando mais ardente do que às vezes uma boa trepada – isso constatei depois de deixar de ser virgem. Ah, e claro, essa turma respirava mais do que tudo graxa, motor, couro e rock, (e dos bons) com o som no talo.

Fui apresentada ao local por um cliente do meu pai que à época era dono de um bar na praça da bandeira. O tal cliente tinha uma picape preta com uma pantera negra pintada na lateral que simplesmente me fascinava. Vestido de couro, o coroa chamava minha atenção muito mais que os moleques da rua ou da escola. Mas ao contrario do que pode parecer meu interesse por ele nunca foi sexual e vice-versa.

Essa narrativa não é sobre a menininha que é comida pelo coroa descolado de plantão. Com 14 anos nem pensava em sexo. De verdade meus hormônios ainda estavam bem controlados. Contudo, ele foi o responsável por trazer o que meus hormônios, mente e coração procuravam há muito tempo sob outra perspectiva. Ele me deu aventura de sobra na adolescência e me salvou.

Tinha uma sede louca de aventura por lugares, gente, conversas, conteúdos, música e, principalmente, por rock. Por isso, um dia, aproveitando minha amizade com o filho desse cara, meu Salvador convidou minha mãe para uma festa à tarde. Um churrasco na Rua Ceará, no número 104, hospedaria do Clube De Moto do Balaios, um bar ao lado do Heavy Duty e do Garage.

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Bom, ele não pegou minha mãe. Uma pena! Aliás, as mães nunca namoram os caras que realmente a gente adoraria que elas ficassem, que dirá trepar com eles. Mas e daí? Estava salva enfim, e, passados alguns dias, ganhei um violão preto do meu Salvador com uma pantera negra pintada – que nunca aprendi tocar.

Dois anos se passaram. Estava com 16 anos. E na bagagem, muitos churrascos dos Balaios e uma intimidade pervertida com o local. Mas ainda me faltava à experiência que mais queria: ser frequentadora daquele lugar à noite, numa sexta-feira, com rock e som no talo, embebido pela escuridão e sem aquele clima de reunião de família. Na real, o que queria era entrar nas festas de rock do Garage, que tanto me contavam e falavam como algo de aventuras e desventuras.

Até que, do nada, esse (meu) dia chegou. Ganhei passe livre para viver a aventura desejada como cabaço de virgem para os homens namoros famílias de dois anos e muitos “pegas” no sofá da sala. Era noite de Ratos de Porão no Garage e mais um monte de bandas. No final, a coca-cola e a batata-frita do Heavy Duty era um alento. Sim, coca-cola, porque só bebia vinho à época, e uma caneca. Meia lata de cerveja me deixava tontinha.

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No outro fim-de-semana sufoquei com fumaça, mas foda-se! Era o Planet Hemp no palco do Garage. Canabis nunca foi minha praia. Só o cheiro arde meu nariz e me faz enjoar. Mas quem é que estava ali só para isso? Acreditem ou não, ninguém. O Garage sempre representou mais do que um fumódromo livre de canabis. Quem queria só se embebedar e chapar se dirigia à escadaria da Lapa, num tempo em que a Lapa era a “Lapa alternativa” e um verdadeiro deserto aos sábados. Mas um grande paraíso às sextas-feiras, com palco e banda de rock em frente à escadaria. Era do Caralho ou DUCA se você preferir assim.

Quem frequentava o Garage, o fazia em bandos. Gente jovem e adolescente que trocava LPs e CDs de bandas como Sex Pistols, Rolling Stones, Black Sabat, Metelica, Tape on Negative, Pink Floyd (mentira ninguém abria mão do seu LP ou cd do Pink), AC DC etc.  Enfim, muito Punk, Hard e Metal não necessariamente nesse ordem.

ImagemDepois, se descansava na calçada com uma garrafa de vinho barato, Martini (pior, ou Contini) e Gim, e se alimentava com a batata-frita “com porra do Heavy Duty” e ainda, se fosse sexta-feira, tudo isso vinha embevecido ao som de rock e blues tocado ao vivo no meio da rua. Puta que pariu! Eu amava a Ceará!

E foi num dia desses, descansando depois de um noitada no Garage (que  eu sequer entrei, já que o papo com turma estava tão inebriante, interrompê-lo seria um crime) é que uma patrulha da Polícia Militar passou por mim e meus amigos. Depois de cinco minutos, o carro da PM fez um novo passeio em direção à saída da rua. Mais uns dois minutos e lá estava de novo o carro fazendo uma manobra. Já quase na Avenida Radial Oeste e a tal da patrulha voltou de novo.

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A esta altura da noite todos os grupos sentados no Heavy Duty estavam de pulga atrás da orelha. Mas agiam naturalmente já que a PM sempre fazia algumas rodas por ali. Acontece que, de repente, o carro parou do lado esquerdo da rua e ficou olhando na nossa direção, isso aí, em minha direção e a dos meus amigos.

Eu conversava displicente e não dei muita importância, mas a galera que estava portando cigarros de capazes de fazer a turminha se tornar a melhor amiga de qualquer comediante, logo se ligou na situação exclamando um “Fudeu” tenso. Foi a deixa para eu pensar “Ué, fudeu o quê?

Daí fiquei branca! Meio mole e paralisada. Porque do lá de dentro da patrulhinha tinha uma mão que me apontava e fazia sinal para que eu chegasse perto do carro. Numa hora dessas, você olha para todas as direções rezando para que esteja errada. Afinal, se pensa “não isso não está acontecendo comigo”.

Mas a parada era comigo mesmo. Uma voz veio de dentro da patrulha e logo depois um homem soltou a sentença: – Cachinho vem aqui, anda.

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Enquanto meus amigos me olhavam com uma cara de desespero, eu olhava catatônica para o policial que se recostava no carro e ficava a me observar com uma expressão de desaprovação. Um segundo pedido da “autoridade” me fez acordar e descer da montanha russa que tinha pegado dentro da minha cabeça: “Cachinho, não vou chamar a segunda vez. Vem cá”.

Putz, era verdade. Eu não estava sonhando. Existia mesmo um policial fardado e uma patrulha parada me chamando e, pior, me esperando.

Completamente sem graça, com um sorriso amarelo, acenei de leve para o sargento da PM. Engoli a saliva, levantei sem graça, olhei de forma panorâmica para os meus amigos querendo dizer: “calma”. Ajeitei a blusa e, devagar, fui ao encontro do sargento Pereira, outro cliente e amigo do meu pai. Ele cumpria o plantão na 18º delegacia de Polícia, que fica justamente na Praça da Bandeira. Sua missão?  Para minha “sorte” era fazer rondas no inferninho da cidade a procura de menores para serem recolhidos bêbados e coibir o uso de drogas.

O PM almoçava quase todos os dias no bar do meu pai ou tomava uma gelada lá no final do expediente. Para minha sorte e azar tinha acompanhado meu crescimento, tendo inclusive, o número de telefone do meu pai. E agora, estava ali questionando o que euzinha fazia “no maior antro de perdição da cidade”. Sim, era assim que o Garage e a Rua Ceará eram conhecidos. Detalhe: muito antes da Vila Mimosa ser transferida para lá.

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Com o dedo em riste ele perguntou: – Eu posso saber o que a senhorita esta fazendo aqui? Seu pai sabe que você esta aqui? Aliás, Cachinho, sua mãe sabe? Melhor, não responde nada. Entra na patrulha que eu vou te levar pra casa A-G-O-R-A!

As perguntas vinham em cascata e ele sequer me dava à chance de dizer um “mas”. Enquanto isso, todos no Garage, Heavy Dutty, Bar do Zeca, enfim, toda a nação “garageana” olhava sem saber o que fazer: se corria ou ficava para ver no que daria aquela “dura”. Diversas meninas, também menores, invadiram o banheiro com medo de serem levadas. Os garotos tentavam disfarçar o óbvio, acompanhavam o desenrolar da situação jogando cigarros ilegais ao chão ou despachando nas meias.  Oh, sacrifício inútil.

E foi assim que, aos 16 anos, fui recolhida do Garage, o local proibido a menores por ser considerado local de vadios, bêbados e drogados, impróprio a adolescentes de “bem”, pois era “o antro de maus elementos mais mal visto da cidade”.

O pior de tudo é que era pensar: logo eu? Nunca tinha consumido qualquer tipo de droga ilegal. Até bebia álcool esporadicamente (na verdade as 2h15 estava ainda na segunda caneca de vinho), mas porra era a pessoa mais limpa se bobeasse naquela lugar, pior, nem nicotina fumava para desespero dos guris que tentavam em conquistar com baforadas artísticas (fumante tem cada uma). Enfim, em ter qualquer “flagra”, lá estava eu agora sendo recolhida pela polícia. Um King Kong histórico daqueles de fazer você nunca mais pisar no local.

Acontece que, já quase dentro do carro, criei coragem. Lembrei que tinha boca: – Perai,sargento, você não deixou eu responder nada e já está assim me tocando pra patrulha. Por acaso eu to matando ou roubando? Qual foi o meu crime, posso saber? Senta num bar e conversar? A propósito, para o seu governo, minha mãe sabe que estou aqui sim! Meu pai? Bom, meu pai não tem nada a ver com isso porque eu não moro com ele. Quer ligar lá pra casa e confirmar? Pode ligar. Desafiei o sargento.

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Pois bem, e não é que ele ligou! Mas da delegacia sentadinho na mesinha dele.

Mas levou um puta esporro da minha mãe que não admitiu a filha dela ser levada por uma patrulha no meio da noite como uma criminosa. Ela MANDOU ele me levar de volta exatamente para onde tinha me “retirado”’ porque segundo as ordens dela (hehehe!) eu tinha livre conduto para chegar em casa somente a partir das S-E-I-S da manhã (Eu sei eu sei…minha mãe era foda!). Ainda perguntou se ele não tinha mais o que fazer do que acordar ela as 3h da matina.

Bem, e foi assim que fui recolhida e devolvida ao Garage por vadiagem com apenas 16 anos, em menos de vinte minutos!

O sargento Pereira ficou puto. Mas como disse, atendeu as ordens de Madrecita! Aprendeu que, às vezes, as aparências enganam. E eu, meus caros amigos de banheiro, matei o preconceito e “voltei a vadiar”!

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Terminei minha caneca de vinho que ainda esta disposta na mesa do bar (com meus amigos, em choque, óbvio). Cheguei às 6h18 (como mamãe pediu) em casa com jornal, pão e mortadela, como mandava a rotina familiar de pernoite de rock. Afinal, não se esqueçam, a regra básica de alguém que chega em casa no horário de café da manhã, é levar o pão quente e a mortadela para felicidade geral da nação.

P.S: Quanto ao fato, da filhinha da mamãe está num antro de perdição, o mais quente da cidade, descobri os truques de Madrecita. Em certo momento, ao telefone com o sargento, mamãe disse assim: – Sargento, o senhor acha mesmo que eu sendo proprietária de bar na Praça da Bandeira (minha mãe era sócio de papi) não conheço o Zeca (outro proprietário de bar)? Sargentooooo, ela está no antro de perdição mais seguro da cidade. Bem vista, lhe asseguro!

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Ah…a arte das mães de vigiarem a gente sem nós sabermos de nada…É um talento, não? Minha mãe era uma mãe normalzinha, afinal, como todas as do mundo inteiro. Bem que dizem que elas só mudam de endereço.

 

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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