Uma sociedade sem classes: o sonho de Repper Fiell

Sabe aquele trabalho musical que cola na cabeça e faz você pensar?

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Essa seria uma boa definição e elogio ao novo cd Pedagogia da Dominação do também escrito e cineasta Repper Fiell. Escrito assim mesmo com “e” no lugar do “a” de rap e com “per” no final.  Uma escolha política do cidadão Emerson Cláudio Nascimento dos Santos, de 32 anos, cria do Morro Santa Marta. Uma forma de de valorizar a cultura popular do repente nordestino e se afastar se afastar das heranças americanas do estilo musical que escolheu para si como artista: o rap. 

Nas 20 faixas do seu novo trabalho musical, Repper Fiell manda um recado. Ele sonha com a construção de uma sociedade sem classes e acredita na utopia de Eduardo Galeano (escritor uruguaio). Sonha tanto com isso que declama em forma de desabafo musicado esse sonho logo na primeira faixa do cd, para sua ambição é para ser coletiva.

A faixa Uma sociedade sem classes também é uma forma de lamento, de denúncia (porque não dizer), um conselho reflexivo. O papo reto a todos os moradores de favelas do Brasil é audacioso. Reivindica novas formas de pensar até sobre o filho de Deus: Jesus Cristo.

Narrado na música como primeiro socialista da humanidade que quis para o seu povo uma vida feliz com comida e terra, mas que foi “pela burguesia da época brutalmente assassinado e pregado na cruz “, opina Repper Fiell que se define como anticapitalista e marxista e também um admirador do pensador Paulo Freire. Um grande educador que já dizia, lembra Fiell na música: “tudo que aprendemos nas escolas em termos de educação temos que abortá-la, porque é uma pedagogia dos dominantes”.

Repper Fiell realmente acredita na mensagem e ensinamentos que bebeu de seus ídolos: Carlos Prestes, Marighella, Vito Giannotti, Florestan Fernandes, Che Guevara, Rosa Luxemburgo, entre outros. Não há como negar isso quando se ouve as 20 faixas de “Pedagogia da Dominação”.  A forte formação política, social e literária do artista é exposta nas letras das composições.

Fiell intima todos a lerem o que define como “livros libertadores” em cada uma das faixas. Diz, que o rap só tem valor se for feito como uma música de instrumento de luta, informação e reflexão, tanto social quanto política para os Trabalhadores do Brasil (título de da nona faixa do cd).

Por dentro do Papo 

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Uma das pérolas deste terceiro trabalho, o Pedagogia da Dominação, é a música Onde estão nossos direitos, composta por Repper Fiell em parceira com o Bonde da Cultura, coletivo do Morro Jorge Turco.

A faixa é uma preciosidade de letra e sonoridade. A batida forte do rap mixada com o violão e voz (no refrão) de Marcelo Jerry,  é tocante. Faz a cabeça (sem precisar de aditivos extras), corta a alma e te desperta de “um sono profundo” como proposto pelos artistas. Que música! (Confesso que a ouvi por repetidas vezes).

Mas não é a única. Repper Fiell acerta também em outras faixas. Em Abomine o Crime, ele situa a gente no banco de uma universidade para ouvir a palestra de um ex-traficante de drogas chamado José. Mais uma vez a sonoridade é rica. Tem um fundo sambeada que faz esse rap não ser arrastado e tem uma clara defesa a leitura dos livros.

Outro acerto do artista são as parcerias. Michel, ProraRua, Bianca Felix, Mc Kapella, Marcelo Yuka, Dudu Nascimento, Dj, Jaci e Marcelo Jerry, O Levante, Dj Metal da CDD,  Bonde da Cultura e Vinimax (que manda bem em todos os vocais e chama particularmente atenção em diversas faixas).

As Minas do Santa Marta eu adorei. É uma grande saudação as mulheres do Morro, ao jeito dessas delas. Não se prende a tipos e sim as escolhas e as formas de viver das mulheres, sejam as que moram em favelas ou no asfalto. E mais: faz crítica erotização midiática da mulher sem aquele discurso (chatinho) do politicamente correto tão em voga.

Outros destaques são É tudo contra mim (com batida forte como manda um bom rap; Nossa Luta é intensa); Pra Vencer (um dos recados mais autênticos de Repper Fiell); Trabalhadores do Brasil; O Povo Unido; Um mundo Melhor (outra parceria com o Bonde 576396_434405636609334_962696675_nda Cultura deliciosa. É bom ficar de olhos nesse povo!); e Me Traiu (um puta recado para aqueles que lutam e defendem certas linhas de ideias e depois as abandonam).

A faixa 788, que dá nome também a um dos curtas de cinema do Repper Fiell, é um papo reto sobre as dificuldades de morar no Santa Marta, um morro com 788 degraus até o pico. A produção e mixagem da música (Dj Tony) está excelente. Tem uma batida meio nordestina com levada de samba e um vocal que parece um lamento do povo pobre preto, branco e favelado hoje do Morro Santa Marta, um dos tantos quilombos do Rio de Janeiro no passado.

Agora, a faixa polêmica sem dúvida é a Vai Babar.  Dedicada ao tema das “leis” normativas a “boa convivência” na favela, a música conta a história de uma ladrão que rouba seus vizinhos no morro. E paga com a vida pelo ato. Uma parte da letra diz: “O crime não é creme. A lei na favela é implacável. A mãe dele vai chorar  porque a gente vai se divertir”.

Na prática, a composição apenas narra a verdade triste da lei da favela, mas para um rap de postura socialmente política que abraça os direitos humanos, a composição causa um certo espanto. Contudo, rap é jornalismo musicado. Usa a força da linguagem para paralisar mentes e fazer pensar.  Repper Fiell esclarece qual é a sua sentença: “Qualquer objeto pode ser reposto, agora a tortura é irreversível. Valoriza a vida, mano”.

Costura vermelha

É extremamente necessário destacar a boa produção deste CD gravado e mixado de forma  independente pelo artista com o bloco dos amigos. Mixado no estúdio do músico Marcelo Yuka, a qualidade é um alento aos ouvidos, principalmente por não ser uma mesmice em termos de sonoridade. É justamente o oposto. Traz surpresas, levadas de diferentes ritmos musicais, enfim, é um trabalho consistente.

Outro detalhe que não me passou despercebido foi a organização do trabalho. A disposição das 20 faixas margeiam uma mensagem: a socialista. Expõem a necessidade do povo das favelas se apropriarem do conhecimento, da política e da cultura para que os “direitos” no Brasil deixem de ser “seletivos”.

Se Repper Fiel escolheu o papo reto de Uma sociedade sem classes para abrir esse cd, não dispensou o discurso de outros artistas de expressão (formadores de opinião) e políticos  para costurar a mensagem que quer provocar  neste seu terceiro trabalho, o Pedagogia da Dominação

A faixa 8, por exemplo, traz um trecho do discurso do comício feito para 150 mil pessoas pelo ex-presidente João Goulart na Central do Brasil no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964. Na ocasião, ele anunciou reformas, como a nacionalização de refinarias de petróleo e a desapropriação de terras para a implementação da reforma agrária. As reformas foram um dos motivos desencadeadores do golpe militar que impôs uma ditadura de 20 anos no país.

No meio de um CD de rap, um trabalho musical, você ouvir um discurso em defesa da reforma agrária, não é um espanto como é uma atitude de coragem, que mostra uma preocupação latente em levar informação e formação política a seu público. 

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E a costura não para por aí. A faixa 13, Paz Armada,  traz um trecho de uma opinião dada pelo músico Marcelo Yuka sobre a política de segurança de “pacificação” das favelas cariocas. Foi uma forma inteligente do rap de expor sua opinião também sobre o assunto e “agendar” o tema, como se diz em jornalismo, no jornal feito por ele em forma de CD.

É essencial ressaltar que Repper Fiell é um “cria” da Morro Santa Marta, a primeira favela do Rio de Janeiro a receber uma UPP.  Ele foi um dos organizadores da cartilha Abordagem Policial que informa aos moradores do Morro como deve ser a abordagem de policias junto a qualquer cidadão. Foi uma forma de instruir a população para lutar contra os abusos de policiais.

 

Para fechar, esse trabalho “vermelho”, Repper Fiell, escolheu o poema “Utopia” declamado pelo próprio escritor uruguaio Eduardo Galeano (em espanhol). É um alento a alma esse desfecho que te levar a um outro lugar: a sociedade sem classes sonhada por Fiell. Porque nesse poema, Galeano discorre como seria essa “sociedade sem classes” na prática. Um fechamento bem perspicaz para um CD intitulado Pedagogia da Dominação.

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É uma trabalho musical com começo, meio e fim, como se narrasse a história de um livro, bem condizente com um artista que colocar os livros como a bebida e a comida do corpo e e da alma.

A crítica que faço ao trabalho é o “volume” da obra. Com 20 faixas. Por mais que você goste de rap e se encante com a sonoridade surpreendente, tantas faixas podem acabar cansando o ouvinte do meio para o final. Fica a dica!

Além disso, certas explicações no meio da música (com exceção da faixa “Vai Babar”) se tornam desnecessária, pois as composições de Repper Fiell já mandam muito bem seu recado. Mas, eu não teria dúvidas em apostar no trabalho do rap. Tanto que comprei três (um para mim e dois para dar de presente).

O saldo é bem positivo e admirável. Um trabalho maduro, acalentado por seis anos, segundo, Repper Fiell. Que outros venham com intervalo menor de tempo.

Onde comprar

O CD “Pedagoria da Dominação” pode ser adquirido na livraria Antonio Gramsci, localizada na Rua Alcindo Guanabara, 17, térreo, Cinelândia – Rio de Janeiro. Em frente ao portão lateral da Câmara dos Vereadores. Telefone (21) 2220-56-18 e e-mail  livraria@piratininga.org.br. Preço: R$ 10 reais.

Também é possível comprar entrando em contato direto com o artista pelo e-mail: fiellateamorte@gmail.com e por telefone (21) 86700327 (oi) 69114021 (Tim), que se compromete a envia para todo o Brasil. É só pedir.

* Texto: Tatiana Lima
Fotos de divulgação: Maria Buzanovsky

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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