#Pratododia: mãe trabalhadora

Na falta de ter com quem deixar a filha, mães trabalhadoras levam seus filhos e filhas para o trabalho. É sacrificante? Sim é. Mas é uma opção em casos de emergência, quando a mulher que é mãe, trabalha. A dureza não é somente para a mãe, mas também para os filhos. Em alguns casos, a situação é muito ruim para ambos, afinal, qual mãe quer ver seu filho precisar come uma quentinha no meio de ônibus?

Foi à cena do cotidiano que vi hoje ao embarcar na linha 484 (Penha-Copacabana) para ir ao trabalho. Como a função de trocador e motorista de ônibus não tem hora de almoço, muitos conseguem no máximo 15 de minutos de lanche, a opção de Taiane, de 7 anos, foi almoçar ali mesmo, no local de trabalho da mãe.

Sentada no banco atrás do motorista (para ficar perto dos olhos da mamãe, a trocadora), a menina comia o prato do dia (frango com quiabo, arroz e feijão) com a quentinha na mão e um garfo de plástico na outra.

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Ninguém morre porque passa por esse tipo de situação. Isso é fato. Mas sejamos sinceros: é uma situação um pouco indigna, não? Mexe com a autoestima. Basta ter um pouco de consciência, seja qual for: humana, religiosa, ou ideológica política.

A situação de Taiane hoje é só um instante do cotidiano que massacra a vida dos trabalhadores no Brasil. Eu já vi diversos motoristas e cobradores comendo em pleno exercício da função. A pior cena foi quando no ponto final da linha 350 (Passeio-Irajá), vi um motorista tirar a marmita do motor do ônibus. Uma tática para a comida ficar quente e não estragar. Comeu em 10 minutos. O fiscal apareceu e deu a guia a ele e o ônibus partiu.

Aquela cena ficou na minha mente por semanas. Principalmente, porque dois dias depois, eu assisti um entregador de comida almoçar (muito constrangido) em pleno METRÔ. Ele estava com duas bolsas: uma disposta ao lado dele (era a entrega), na outra no colo. Dentro da bolsa uma quentinha. Ele enfiava o garfo na dentro da bolsa, pegava comida e levava a boca.

Ao lado, passageiros reclamavam do cheiro de frango e maionese em um local fechado. Eu só me sensibilizei. A lágrima desceu junto com meu passo para levar meu corpo para fora do trem do metrô. Passei o dia com aquela imagem, somando a do motorista de ônibus que, agora, juntou-e com a de Taiane hoje almoçando no ônibus.
Também não tem como não conectar esse cotidiano há tudo que tenho lido nos últimos tempos em decorrência do mestrado. Poderia aqui citar a questão da consciência de classe necessária e consciência de classe contingente dos estudos do filósofo húngaro István Mészáros, perspectivas marxistas, citar a questão de hegemonia discutida em Gramsci, as considerações de Agnes Heller sobre o Cotidiano, etc. Mas sigo só com a vontade de contar sem firulas para vocês a dor que senti hoje ao ver Taiane tendo que comer no ônibus.

Por outro lado, também senti um puto orgulho daquela mãe ali, a trocadora. Trabalhadora, provavelmente mãe e chefe da família, ali exercendo seu papel de mãe, cuidando (ainda que não como ela gostaria) da cria. Lá estava ela, uma mãe trabalhadora como tantas outras mulheres dessa cidade, país e mundo, com sua função dupla mais que misturada.

Sim, isso é precarização da vida de ambas. Mas, independente das adversidades, essas duas mulheres, mãe e filha, estavam juntas. Batalham juntas e vivem a vida. É provável que quando Taiane crescer torne-se muito amiga da mãe, se já não é a sua principal companheira.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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