Dois cafés, um cigarro e a conta: medo, revolta e criminalização no Rio de Janeiro pacificado

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Ontem conversei com duas moradores de favelas com UPP. Uma amiga, outra que conheci sábado, uma do Alemão, outra da CCDD. Engraçado que ambas me deram respostas as minhas perguntas, ao papo se a UPP é positiva ou negativa de forma igual. Uma das unanimidades seriam os filhos, as crianças não terem mais aquela visualização do crime e de drogas de fora tão rascante, ali a olho nu: pessoas vendendo drogas gritando, gente cheirando, e em diferentes esquinas traficantes armados.

Então, PERGUNTEI SE SE SENTIAM SEGURAS. Para essa indagação a resposta veio com reticências na expressão que inundou o pequeno espaço da sala: “seguras não. falar em segurança é complicado. Ninguém se sente segura. Até porque você passa e o fuzil está lá”. Imagem

Na CCDD, foi comentado que o bom é que agora tem mais transporte. No Alemão, que tem o cinema lá. Mas comentou-se sobre crianças que estavam brincando de fogos e que isso chamou atenção dos moradores que ficaram receosos de “dar merda”. Mas no fim, não aconteceu nada. Ficou “tudo tranquilo”.

Sobre os problemas da convivência, as duas falaram que quem sente mais são os jovens, porque há abusos, violência física do policial nos “garotos”, porque o jovem sempre está nas ruas e tem dificuldade a essa lei e ordem que se torna a tônica da realidade das favelas com UPP.

Comentei com a moradora do Alemão que a minha impressão é de medo quando se fala em UPP, em pacificação, com os moradores. Um medo passado em respostas vazias (e compreensíveis) do morador que não quer se posicionar porque tem medo da outra situação (da qual o tráfico estava lá de forma exposta) e dessa (com a polícia nas esquinas). Ela confirmou que sim. Minha impressão estaca correta. Me disse: “todo mundo viu tudo que aconteceu, todo mundo sabe que no final é o morador que fica prejudicado”.

A moradora da CCDD confirmou: “a verdade e que seja na política de tiro e porrada ou agora, o morador é que fica no meio de tudo. Sempre sobra para ele. Esse é o medo”. 1070040_789212474441861_402494127_n

E hoje, em dia que acordei mega tarde, EU ABRO O JORNAL E VEJO QUE A POLÍCIA VAI INVESTIGAR SE MORADORES RECEBEM DINHEIRO PARA PARTICIPAR DE PROTESTOS CONTRA AS UPPS.

A frase e a mensagem subjetivas de que “o moradora sempre paga o pato no final”, nunca fez tanto sentido. E o MEDO DEVE IMPERAR NO ALEMÃO AGORA COMO NUNCA. OPS, nunca é tempo demais. É infinito. Pelo visto, é esse o X do problema. É muito tempo para se sentir medo na vida.

Muitos livros e associações a pensamentos, teorias e conceitos me veem a cabeça. Mas nenhuma letra fria de livro, me diz mais que essa conversa com duas cidadãs cariocas que vivem nessas duas favelas.

Ao abrir hoje o Facebook, recebi um desabafo do coletivo “#Ocupa Alemão”. Lá também havia um relato da continuidade de um estado permanente de violações. A diferença é que o X da questão nesse pequeno, mas significativo relato era a REVOLTA:

“Ninguém se lembra quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha. Mas em algum momento…

…tapas na cara de moradores geraram revolta. Que geraram a morte de um PM gerou revolta.
Que gerou a prisão da vários suspeitos dentre eles dois inocentes, que gerou revolta…
Que gerou manifestação com tiro no pé de manifestante que gerou mais revolta…
Que gerou maior efetivo militar que gerou tapas na cara quem não tinha nada a ver…que gerou revolta…
Que gerou tiros na direção da polícia..que adivinha???? Revolta!!!
Que gerou mais tiro no pé de um menino de 11 anos que gerou revolta…
Que gerou a morte de um subcomandante que gera revolta…

Que gerou o dia de amanhã que ninguém sabe de nada…

A única certeza é a revolta”.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
Esse post foi publicado em comportamento, comunicação, Cotidiano, Favela, Rio de Janeiro, suburbio carioca e marcado . Guardar link permanente.

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