Vida de barbárie e o cotidiano

O cotidiano me cerca, me suga e fala comigo. Não estou com esquizofrenia. Isso acontece a cada ônibus, van, metro ou trem que eu entre. Eu circulo pela cidade. Talvez ainda com o vício de repórter foca que ouvia: “jornalismo se faz nas ruas”. Tenho ouvidos atentos. Se eu não estiver estudando inglês ou num dia de estresse, você não via me ver de fones de ouvido. Não uso. Não gosto. Prefiro ouvir música sem. Então acabo ouvindo em casa. Exceto, quando preciso relaxar. O que tem acontecido muito, rs. Mas sempre temto equilibrar. Preocupação tola, você diria. Mania esquisita, afirmaria outros. Mas, é só esse vício de foca. Essa mania de ouvir o cotidiano. Não é à toa que o cotidiano faz parte até do nome do programa de Mestrado do qual faço parte, motivo que me afastou da escrita livre, do respirar da alma. Mas, que hoje retorno. Porque facebook é cercado e quero minha discurso ilimitado.

E nesse entreouvir o cotidiano, sexta-feira de sol no Rio, eu caminhava apressada para a aula. Peguei uma kombi 284 em Benfica. Meu destino era o Museu Nacional de São Cristovão para ter a aula ‘Pensando as favelas nas Ciências Sociais’. Minha companheira de viagem falava alto. contava “causos”. Dialogava com a passageira da frente que não era eu.  Coisa de carioca que parece íntimo de tudo e de todos em 5 segundos. Eu permanecia de costas. Ouvindo. Anotando com a minha caneta lá no cérebro. Riscava e escrevia por cima em letra prendada para entender depois a confusão no bloco de nota da mente. A história era boa, cheia de nuances, ida e vindas que dão muita análise ou apenas abrigo as ideias ou o espanto do coração.

A moça de voz forte, alta e firme, contava que um assaltante apontou uma arma pra cabeça de um bebê no colo da mãe na favela pacificada. Ela era a mãe. Sua filha, o bebê. A vítima dessa violência, revoltadíssima, contava que disse para o rapaz que a assaltava para levar tudo, mas tirar a arma da cabeça da filha dela. O pedido foi acatado. Mas, ela não deixou de dar lição de moral no cara. Disse ela que, se ele tivesse um filho, jamais faria aquilo, apontar uma arma para um bebê.  Estava indignada a moça. Mas ainda, porque não podia fazer nada. Isso tinha ocorrido em favela pacificada. Roubo, agora, é normal em favela, contava ela. Mas, nem sempre foi, ressaltou.

Ela contava que em favela assalto não existia. Lembrava de que, certa vez, fora roubada na pista perto da favela. Fico puta! Como pode alguém roubar favelado na cara do gol da favela. Resolveu ir nos homens, falar com o ‘movimento’.  A mãe dela pedira para não fazer queixa, mas ela disse que faria. E fez. Menina de palavra era ela.  Foi falar com os “home” que ficaram revoltados. Caçaram o ‘muleke’ e charam fácil. Era cria, mas estava perdido . Tão na merda que fez essa merda de rouba na beirada da favela.  Os ‘home’ ameaçaram de morte o guri. Mulher gritou: não para, pera! Não mata não que não quero ter esse peso da morte de alguém na mente. Só dá uma surra, uma bem dada.

Os ‘home’ então surraram o menino. Exigiram que ele devolvesse o roubado da moça: um celular. Não dava, peça já tinha sido passada. Perguntaram de quanto era o desfalque. R$550 disse a mulher. Então, tu te vira pra arrumar o din din pra mulher, caso contrário é ferro na cabeça e a gente te caça até em casa e vai atrás da família. Mulher tremeu nas bases. Tinha palavra, mas culhão de levar tanta morte nas costas. Era moça de família. Implorou pros “home” que só não queria ficar no ‘preju’.

Desfecho?

Bom, outros “alguéns” foram roubados. Porque os R$550 reais surgiram em 24h na mão da vitimada do assalto na boca da favela. E, o achismo desse desfeito não é meu. É a moça, a mulher, a mãe, a filha, a pessoa roubada que acredita na afirmativa acima.

“Não sei se ele roubou ou não. deve ter roubado, mas sei que com a carne doída, ele arrumou rapidinho o meu din din do celular e que aprendeu que em favela não se rouba, Pobre não rouba de pobre. Apesar da modinha em favela pacificada”.

A minha companheira de viagem não parecia ter nenhum remorso sobre sua atitude. Para ela, não importava muito que sua queixa resultou em outros assaltos. O essencial era que seu algoz teve o que merecia. Afinal, ele apontara uma arma para ela e tinha roubado na boca da favela porra, então, era isso que estava em jogo. Tem uma música que diz que o Rio é a ‘cidade maravilha da beleza e do caos’. Essa narrativa de um cotidiano pode parecer a prova cabal do versado na música. Mas, será que para essa cidade só restou a barbárie humana?

Sei não….

Para mim, esse cotidiano parece mais uma ‘causo’ a la Nelson Rodreigues, sem moral, sem discórdia, sem final feliz,s sem humanidade, sem muitas palavras, só um SEM.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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