A banalidade do mal de um domingo de sol

O Rio de Janeiro é um mapa de desigualdade também nas suas dores e no direito à vida e ao luto. Parece uma obviedade falar disso, mas aprendi com um texto de Darcy Ribeiro que as obviedades precisam ser descritas ainda que seja para falar sobre o óbvio. O dia hoje foi lindo, de céu azul, brisa fresca, tipo perfeito para boa parte dos cariocas e fluminenses. Enquanto que para outros foi quente, imperfeito, cinza e dilacerante, de medo sentido na carne, pele e alma. E isso, informo, é ter a experiência de viver na cidade do Rio de Janeiro.

Até o momento, primeiramente por furo jornalístico da mídia local (é bom pontuar e dar o devido protagonismo da cobertura desse conflito armado), sabemos que além de um helicóptero caído (acidente que vitimou 4 policiais) temos também 7 corpos caídos no brejo em posição de execução. “O saldo das últimas 24h na Cidade de Deus SÃO MAIS DE DEZ MORTOS, entre PM’s e traficantes. Há corpos ainda no brejo que precisam ser retirados. Inocentes foram baleados em casa, inclusive uma criança” (Vivi Salles), segundo denúncia dos familiares divulgada na mídia local (http://bit.ly/2gbZIDK) e também publicada nas mídias comerciais como o jornal O Globo (http://glo.bo/2fhPXVU). inclusive, também sabemos que como direito à vida, o direito ao luto estava sendo cerceado.

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Fotos de Fabiano Rocha/ Jornal Extra

Ainda, sabemos que: o novo secretário de Segurança Pública Roberto Sá, afirmou que, até agora, os laudos preliminares feitos pelo IML indicam…tcham tcham tcham: “que nem os corpos dos quatro policiais mortos nem o helicóptero da Polícia Militar que caiu na Cidade de Deus foram atingidos por disparos de arma de fogo” (trecho retirado do portal UOL http://bit.ly/2fekFfa). Mas também na manchete do Globo: “RIO – Perícia inicial não viu perfurações em helicóptero, diz secretário” e). A queda desse helicóptero intensificou ainda mais a operação que já ocorria dentro das favelas da Cidade de Deus. E não é eu quem estou afirmando isso. São as manchetes dos principais portais (“Após queda de helicóptero, polícia faz operação na Cidade de Deus” – UOL; e “Perícia preliminar não encontrou perfuração no helicóptero, diz secretário de Segurança” O GLOBO – http://glo.bo/2gbfrDE).

Ainda, em rápida análise (tipo de bate o olho a partir de olhos treinados e estudos na área, mas também para os atentos), sabemos olhando as principais notícias do portal O Globo que, todas as formas de lidar com o acontecimento da violência no Rio de Janeiro, seja pela mídia, Estado e população, foram desencadeados: 1)um acontecimento (a queda do helicóptero) amplamente divulgada pela mídia com dizeres que deixam todos em estado de suspeição e medo, 2) propaga-se uma reação de vingança (ao que parece) do governo impulsionada pela cobertura jornalística (a imagem da queda repetida vezes divulgada em todos os telejornais e portais) e demais notícias “Os policiais ocupam a comunidade à procura de bandidos que entraram em confronto com agentes no sábado” (trecho de O Globo http://glo.bo/2fSiq32), 3) notícias adjetivadas com foco na emoção, 4) evoca-se o luto público pelos policiais mortos na arena pública e institucionalmente (“Governador decreta luto oficial pela morte de policiais na Cidade de Deus”, o Globo, http://glo.bo/2fhRDyG), 5) gerando outras operações policiais na cidade e na localidade do acontecimento “por tempo indeterminado” (O GLOBO), legitimando uma ação violenta do Estado, 6) legitima-se prisões de “suspeitos” (“PM detém pelo menos três pessoas em operação na Cidade de Deus” O Globo), 7) surge rapidamente a oferta de reforço da Força Nacional – e Exército – em manchetes de jornais (“Governo oferece Força Nacional para ajudar na Cidade de Deus” http://glo.bo/2gbXGne), 8) veicula-se notícias de depredação a patrimônios públicos (Estações de BRT sofrem vandalismo após confrontos na Cidade de Deus. Consórcio estima prejuízo material em mais de R$ 37 mil. O GLOBO).

Por fim, 9) chega a denúncia de ações violentas arbitrárias pelo Estado com a informação primeiro do desaparecimento, seguida da morte, fechando o quadro da desigualdade da vida e do luto: “moradores da Cidade de Deus retiraram da mata sete corpos de jovens da comunidade, na manhã deste domingo (…) Familiares começaram a denunciar o sumiço das pessoas no sábado após ação da policia militar no local. Na ocasião, um helicóptero caiu, resultando na morte de quatro PMs: o major Rogério Melo Costa, o terceiro-sargento Rogério Félix Rainha; o capitão William de Freitas Schorcht e o subtenente Camilo Barbosa de Carvalho. Após o acidente, o Bope iniciou uma operação na comunidade” (O Globo).

 

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E o ciclo se fecha com a notícia que registra outro obviedade: a catarse coletiva que eventos de violência geram no Rio, ocasionado “boatos”: “A queda de um helicóptero da Polícia Militar, durante operação na Cidade de Deus, ontem, matando quatro policiais gerou uma onda de boatos sobre tiroteios e outros confrontos na cidade”. Como hoje há mídias locais em diferentes favelas e periferias do Rio, alguns dos eventos de violência tipificados pelo jornal como boatos, foram confirmados por essas mídias. Outros de fato se mostraram sendo boatos. Também por essa mídia local sabemos que “SÃO 14 MORTOS em 24h na Cidade de Deus!”, “O Ministro da Justiça do governo golpista disponibilizou a Força Nacional e o Exército para a Cidade de Deus. Escrevo isso ao som de bombas”, “Policiais militares não identificados tentaram me acuar agora há pouco, pegaram meu celular pra apagar o vídeo durante uma transmissão ao vivo e me xingaram ameaçando! NÃO PASSARÃO!” (Vivi Salles http://bit.ly/2gtgaCL).

Por 4 dias, estive hospedada na Lapa. Vivi um outro mundo de proximidades e rotina. Enquanto a Cidade de Deus estava ardendo e tensa por conta de uma ação policial iniciada desde às 7h da manhã – que eu sequer sabia está acontecendo pelo noticiário. Bom, enquanto isso, eu consegui ir até uma feira literária no Palácio do Catete, comprar livros, espairecer, tirar fotos daquele bonito lugar e voltar viva e feliz, bem e relaxada de volta a Lapa. Até que carreguei meu celular e primeiro pelas mídias locais – é bom dizer -, e posteriormente pelo jornal Extra, soube da queda de um helicóptero do RJ e da ação policial que ocorria. Meu sábado seguiu perfeito – exceto pela dor na garganta. Jantei e até conversei com amigos.

Acordei domingo na Lapa ainda,  em um dia parecendo perfeito, parede de vidro da ilusão quebrada pelas notícias da situação na CDD que chegava pelas mídias locais, e posteriormente, pelo noticiário da mídia comercial. Assim, soube e vivi o óbvio: do lado de cá da Cidade Nova pra Zona Sul, a vida seguiu bem normalzinha nesse domingo. A cidade está nervosa, muitos comentários ao redor, mas a rotina de parte da cidade não foi parada por conta disso. Mas veja: de uma parte do subúrbio (Zona Norte) também não. É bom frisar. Assim como em diversas partes da Zona Oeste.

Por que estou ressaltando isso? Porque há uma experiência de guerra e muitos conflitos no Rio de Janeiro, mas não uma guerra como querem fazer parecer em toda cidade, que o noticiário nos leva a crer. Mas existe um Rio de medos como relata Letícia Matheus em seu livro “Narrativa do medo”. Um medo espraiado que toma e é retomado por um jornalismo feito a partir, com e para provocar sensações.

cddUm discurso que invade o nosso peito e faz a gente primeiro achar que estamos debatendo política de segurança pública quando não estamos. Ao contrário, estamos deslegitimando a falta de segurança e a política calcada na vingança.  Uma vez que a convocação de uma solução é dada através da convocação de uma reação do Estado para se chegar a uma solução. Esse ciclo é repetido, repetido e repetido por tantas vezes na história do Rio de Janeiro que, talvez (precisaria confirmar com pesquisa), a primeira página do portal jornal O Globo de hoje (20/11/2016, 21h51min), pode ser muito parecida com os discursos de outros episódios de violência e outras primeiras páginas.

 Minha intenção não é contradizer o discurso de guerra e tão pouco crítica somente a mídia. Minha intenção é RESSALTAR que nessa guerra espraiado no Rio de Janeiro quem enterra os efeitos colaterais são os pobres. Os efeitos concretos são corpos inertes no chão, se antes armados, agora sem vida, sem existência, seja ela sem farda ou fardada. Não é o Rio como cidade cidadã e anfitriã do mundo que enterra nenhum desses mortos ou lida com seus efeitos. São os corações de perifas e favelas, de gente pobre, de familiares de farda e sem farda que sepulta seus amores antes armados para uma guerra sem nexo. O Rio Maravilha até enterra algo, mas é a sua memória e esse acordo tácito com a banalidade do mal (Hannah Arendt) promovido todos os dias na arena pública e midiática. E com essa prática, nós também sepultamos juntos a nossa banalidade do mal. Fazemos parte disso quando aceitamos a falta de informação, a alusão a uma hipótese como verdade no discurso jornalístico e compartilhamos essa alusão abertamente nas conversas facebookianas ou no sofá de casa. Portanto, falo do Rio de Janeiro quanto Estado, mas também do Rio de Janeiro formado por nós, um Rio de Janeiro de sentidos, esses sim, direcionados”.

 

Segundo Arendt, o mal, quando atinge grupos sociais, é sempre político e ocorre onde encontra espaço institucional. A banalidade do mal se instala no vácuo do pensamento e dos sentidos trivializando a violência. No caso, seríamos Alfred Eichmann tanto quanto alguns enxergam desse jeito os policiais, o Estado e até a galera do “movimento” (o tal tráfico de drogas). Sujeitos não necessariamente antisemita, bom ou mal, só odiosos burocrata cumprindo ordens sem questioná-las (ou aceitando o que tem, as seleções postas no mundo). Pessoas medíocres, que de certa forma renunciam a pensar nas consequências que os seus atos poderiam ter. Até hoje, as conclusões da filosofa causam muita polêmica. Mas, no fim, o que se sabe é o concreto: Eichmann foi enforcado em 1962 em Tel Aviv.

A banalização do mal você concordando ou não existe e está posta na mesa da mídia e da nossa casa. Também é coisa nossa, saca? Comentamos com ar distraído sobre a “anestesia” da violência e de como perdemos a capacidade de nos chocar e nos surpreender por ela. Da mesma forma que contamos (ou selecionamos os mortos que vamos contar) quando compartilhamos notícias, boatos e até usamos a linguagem da violência de repertório para expressar e justificar a banalidade do mal nossa de cada dia.

Mobiliza nosso arcabouço de argumentos para as atrocidades cometidas por grupos de repressão seja na durante a ditadura militar até as crueldades praticadas atualmente por bandidos, policiais  e milícias no Rio de Janeiro. Mas, o Rio da Lapa, do Catete, da Zona Sul e das áreas de classe média baixa, media e alta do subúrbio e Zona Oeste não experimentam o resultado dessa banalidade do mal uma vez que não vivem a guerra real dos moradores das perifas e favelas. Ainda que experimente o medo dessa guerra virtualmente pelo noticiário de crime. Porque nesses Rios de medo, o luto é seletivo como direito pleno assim como a vida. E o domingo de sol e brisa fresca é garantido, independente do dia da consciência que marca o calendário no espaço da cidade. O domingo é dia sagrado e não pode ser a data de luto visível que dirá reclamado. Ou de qualquer um.

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Volto a dizer, não tenho intenção de negar a experiência de guerra no Rio de Janeiro. Ela é real para moradores de perifas e favelas e na rotina diária, inclusive, de policias em decorrência da política de segurança pública de enfrentamento ao comércio de drogas. Na real, por conta da ilegalidade da droga propagada por um Estado retrógrado que segue os ritos efetivos da política de guerra as drogas. Apenas, acho hipocrisia midiática e de muitos moradores do Rio de Janeiro repetirem o discurso da guerra e concordarem os efeitos dela, legitimar essa guerra, saindo de muitos chopps do Belmonte com amigos ou estado na frente de seus computadores proliferando comentários em redes sociais. A experiência da guerra não é sentida por vocês (e muitos de nós).

 

No máximo, ela projeta uma sensação de insegurança pública (que pode ser real ou falsa), alimentando a cultura do medo (Glassner, 2003) acionada por nossa mídia (e quando falo nossa, refiro-me a mídia comercial sim, mas também a cada posto nosso. Somos mídia hoje. Ou não). Inclusive, é essa sensação que faz a gente invisibilizar a militarização da rotina e da cidade, bem como da política. Porque se quer segurança e, por isso, não se liga para os custo dessa segurança: nossa banalidade do mal, porque seus efeitos colaterais garantem a ordem da vida.

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Alguém ou muitos ao ler esse texto podem discordar de mim (e devem, se assim sentir que devem). Afinal, a denúncia da morte  de pessoas na operação policial da Cidade de Deus está tendo repercussão na mídia. É fato. Bom,  eu vou concordar com essa ressalva ao texto quando souber o nome de cada um dos caídos no chão e jogado no brejo na Cidade de Deus, quando eles não forem só corpos no noticiário. Quando eu souber da história de suas mortes, mas essencialmente também de suas vidas. Enquanto isso não ocorre (vamos ver o noticiário amanhã, quem sabe?), o que me ajuda a compreender essa diária banalidade do mal nossa é o texto que li recentemente no livro “Quadros de Guerra” de Judith Butler.

 E por conta dele no o fim, percebo que esse meu devaneio (ou tentativa de análise aqui) nunca quer na realidade falar sobre o óbvio da hierarquização e desigualdade da dor. O que quero mesmo nesse desabafo  de blá blá blá é CHAMAR A SUA ATENÇÃO sobre A REPRESENTATIVIDADE DA VIDA COMO TAL: O que é vida, afinal?

“O que permite que uma vida se torne visível em sua precariedade e em sua necessidade de amparo e o que nos impede de ver ou compreender certas vidas dessa maneira?”, Butler (2015, p.82-83). Sobre a vida diante da guerra a filosofá nos dá certas pistas:

Butler não salva a mídia, mas também não salva a nós: “em nível mais geral, se “o problema diz respeito à mídia, na medida em que só é possível atribuir valor a uma vida com a condição de que esta seja perceptível como vida” (idem), essa legitimação só pode ser acionada “de acordo com certas estruturas avaliadoras [nós] incorporadas que torna uma vida perceptível como vida.

Mas já que o assunto é vida e guerra, pensando em nossa banalidade do mal diária, é outro trecho do texto que ajuda a olhar para esses “Quadros Guerra” desses “Rios de medo”.

“A guerra sustenta suas práticas atuando sobre os sentidos, fazendo-os apreender o mundo de modo seletivo, atenuando a comoção diante de determinadas imagens e determinados sons, e intensificando as reações afetivas aos outros. É por isso que a guerra atua minando as bases de uma democracia sensata, restringindo o que podemos sentir, fazendo-nos sentir repulsa ou indignação diante de uma expressão de violência e a reagir com justificada indiferença diante de outras. Para reconhecer a precariedade uma outra vida, os sentidos precisam estar operantes, o que significa que deve ser travada uma luta contra as forças que procuram regular a comoção de formas diferenciadas. A questão não é celebrar a desregulamentação completa da comoção, mas investigar as condições da capacidade de resposta oferecendo matrizes interpretativas para o entendimento da guerra que questionem e confrontem as interpretações dominantes, interpretações que não somente atuam sobre a comoção, como também ganham a forma da própria comoção e assim se tornam efetivas ” (idem, p.83-84).

Sabe… As pessoas na Cidade de Deus podem ter morrido no último sábado porque em parte muitos de nós acreditamos que elas eram responsáveis por todas as mazelas, por todo esse medo e insegurança e que, portanto, elas mereciam morrer diferentemente daqueles quatro policiais caídos no chão. A real é que nós hierarquizamos dores. A letalidade policial em uma ação pode ocorrer, mas quando ocorre demasiadamente deveria alçar nossos questionamentos, mas há tempos isso não acontece. Talvez, o último grande caso de comoção e reflexão pública seja Amarildo na Rocinha. Ele foi morto porque policiais cismaram que ele era traficante. Nós aceitamos que pessoas que praticaram crimes no passado sejam tratados como destituídos de vida, são corpos que não são passíveis do nosso luto. Nós não ligamos para o preço da morte quando é cobrada para nossa proteção. Damos as mãos aos senhores da guerra em acordos tácitos invisíveis tanto quanto aquelas vidas para garantir nosso domingo de sol. São “corpos com passagem policial” como disse a repórter ao vivo no RJTV em 21/11/2016.

Também não ligamos para as mais de 7 mil crianças sem aula lá ou no Conjunto da Maré, porque não ligamos também para a rotina de violência que o trabalhador, aquele cara que dirige o ônibus, serve seu café ou até de dá aulas (pois é, há favelado dando aula, construindo prédios etc.). Nós não ligamos que o despertador deles tenha sido voos rasantes de helicópteros, tiros ou bombas. Que dirá se vamos ligar para aqueles que aparecem mortos.

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A nossa falta de memória e reflexão não faz apenas a gente sepultar a morte em dezenas no noticiário, mas a nossa própria condição de questionar a banalidade, o mal, as consequências, perceber o preço dos efeitos que para os pobres é mais caro que o preço de uma bala, mas pra o Estado barato quanto qualquer munição: não há como calcular preço quando se trata de deixar o perigo longe de nós, não é?

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
Esse post foi publicado em comunicação, Cotidiano, Favela, Rio de Janeiro. Bookmark o link permanente.

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