###Relato: Chuvas fortes no Rio de Janeiro###

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Lapa em 5/3/2013 (Foto: Renan Castelo Branco – Facebook)

Sai da Cinelândia às 21h15. Andei até o ponto do ônibus na Rua Santa Luzia. Lá, encontrei mais de 15 pessoas confusas e sem saber muito para onde ir. Elas me informaram que não estava passando qualquer ônibus lá há mais de 40 minutos. Decidi seguir para Lapa para tentar pegar o ônibus de lá. Nem cheguei à Lapa. Outras pessoas avisavam “volta, volta, volta”, está tudo alagado.

Voltei. Segui para a estação do metrô na Cinelândia. Encontrei um trem parado (linha 2) na plataforma de embarque. Pelo alto falante, o metrô informava que mesmo o trem sendo da linha 2, os passageiros teriam que descer na estação Estácio para fazer transferência para outro trem devido as fortes chuvas. Depois, veio outro aviso informava que a linha 1 do metrô só estava indo até a estação do Estácio devido ao alagamento na estações da área da Tijuca.

Liguei para minha amiga Sheila Jacob. A preocupação era tentar avisar aos que ainda estavam na sala de aula do Curso de Comunicação Avançada do NPC (eu havia saído um pouco antes da aula terminar), na Cinelândia sobre a situação nas ruas e no trasporte público. Sheila também estava presa no Centro, em uma rua que dá acesso a Lapa devido ao alagamento da rua. Liguei para Sheila porque estava sem o telefone da galera do curso e ela tinha o de outra amiga que estava lá, desta forma, levando as informações sobre a situação, sendo o elo das informações.

Em torno da Tijuca, Praça da Bandeira (bairro foi interditado), na Rua do Matoso, e Maracanã (5/3/2013). (Foto-montagem: Raphael de Luca - Facebook)

Em torno da Tijuca, Praça da Bandeira (bairro foi interditado), na Rua do Matoso, e Maracanã (5/3/2013). (Foto-montagem: Raphael de Luca – Facebook)

Bom, meu destino no metrô era chegar até a estação da Central do Brasil para tentar de lá pegar o trem até o bairro de Ramos. Pura inocência minha. Na Central, além das linhas de quatro ramais estarem sem serviço, fui testemunha de mais dois absurdos.

Primeiro, a maior parte das catracas estavam interditadas, inclusive com cercas de ferro. Logo, todas as pessoas tinham que passar por apenas três catracas. Na fila (se é que se pode chamar aquilo de fila) uma mulher disse; “depois quando acontece tumulto é o povo que é incivilizado. Mas pedem né?”. Balancei a cabeça que sim em concordância.

O segundo problema era a falta de informação exata nos painéis de informações. A Supervia avisava aos usuários que “as estações São Francisco Xavier, Olaria e Penha, não estavam funcionando devido às chuvas”. Pensei: “ok, mas e Ramos?”. Nenhum agente da Supervia estava na parte da frente da catraca para dar informações aos usuários. Logo, precisei passar a roleta para descobrir que toda a linha da Zona Norte, conhecida por Zona599216_602402036455901_1860893444_n Leopoldina estava parada, o que significava que não poderia chegar de trem até Ramos. E ainda tive que pagar passagem para saber disso.  Mas tudo bem, teve gente que conseguiu entrar no trem para conseguir chegar em casa e ainda assim, utilizou um transporte público com precárias condições, tomando literalmente chuva na cabeça.

Ir de ônibus e enfrentar o congestionamento, pensei. Impossível. Na Avenida Presidente Vargas, a visão era de caos total. As pessoas atônitas para chegar em casa, desciam (não é exagero dizer que em massa) dos ônibus para tentar justamente usar o trem ou metrô. Nessa hora, pensei: “será que Bonsucesso alagou?”.

Decidi voltar para a estação do metrô e tentar enfrentar o tumulto que deveria está a plataforma Estácio (já que todas as transferências estavam sendo feitas por lá) e assim, tentar chegar até Vicente de Carvalho e de lá, talvez, conseguir uma van, kombi ou ônibus para ir para casa (Ramos), fazendo dessa forma o caminho inverso e evitando a possibilidade de ficar presa em Bonsucesso. Mas pensei: “e se mais área da Zona Norte tiver alagado como a Penha? Se o trem foi suspenso…”

No metrô, o alto faltante, informava que o serviço de trens ia funcionar até as 2h da manhã devido as fortes chuvas. Pensei: “fudeu! A situação está realmente complicada”. O alto falante informava que a Praça da Bandeira estava interditada e todas as estações da Tijuca do metrô também. Passei mensagem novamente para amiga avisando a situação preocupada com os amigos tijucanos Claudia Santiago e Vito Giannotti.

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Trilhos do metrô na estação Sans Pena em 5/3/2013. (Foto: Marcela Vasconcelos – Facebook)

No metrô, já começando a fica meio desesperada, consegui falar com a amiga Milene Vieira, que falou para eu ir para a casa dela na Glória, que a situação estava muito complicada até na Zona Sul. Tanto que ela ficou 1h20 presa na estação da Glória.

Fui. Na subida da rua dela, liguei de novo para Sheiloca preocupada com ela. Depois de 30 minutos tive notícias que ela tinha conseguido chegar até sua casa e que os amigos tijucanos estavam presos na Cinelândia.  Um tempo depois recebi mensagem da amiga Sheila também preocupada comigo.  Quando ia responder minha bateria de celular acabou.

Pelo Facebook, usuários postavam fotos dos alagamentos. Cada uma pior que outra. Todos abismados com o alagamento da estação do metrô da Sans Pena (tinha até marolinha) e eu atônita com a foto de passageiros de ônibus saindo pelo teto do veículo em um rua de Bonsucesso,  a três ruas de casa. Só agradeci a lembrança e o abrigo da amiga Milene.

Todo esse relato aqui, ao contrário do que posso parecer, não tem intenção de ser um compartilhamento da vida privada, estilinho diário. Só o faço por um único motivo. Esse relato é de uma cidadã do Rio de Janeiro, cansada, muito cansada, de morar numa cidade rodeada de morros e montanhas que parecem ser somente vistas por nós cidadãos.  Nossos políticos não as enxergam, a não ser claro, se no topo de uma montanha tiver um ponto turístico.

Não dá e é insustentável qualquer desculpa para os cidadãos da cidade do Rio de Janeiro no ano de 2013, terem que conviver com alagamentos iguais aos de quando eu era pequena.  Tenho hoje 33 anos. E refiro-me ao ano de 1988, quando tinha apenas 9.

A questão não é Copa do Mundo em 2014, Olimpíadas em 2016, e qualquer outro evento. O problema é o cotidiano, o dia a dia da população trabalhadora dessa cidade. Não vou tecer críticas no que se refere à preparação da cidade para os supostos megaeventos. A crítica é a uma infraestrutura inexistente de uma cidade que abriga trabalhadores que precisam ter paz e certeza que se o céu não desabar, vão chegar as suas casas.

Não há como ano após anos, mês após mês e dia após dia, a desculpa ser “as fortes chuvas”, ou seja, o sabor da natureza (não adianta vim com o plantão da meterologia no telejornal dando explicações de que numa só hora choveu mais que sei lá quantos meses). Não há mais como isso ser aceito de forma passiva por nós e pela imprensa dos jornais de massa do Rio de Janeiro, que somente tem feito à cobertura dos estranhos, do caos, mas que a reportagem, aquela que vai a fundo e mostra como o problema é cíclico, tem se refutado de fazê-la.

Lixo também não é desculpa. Não deve e não pode ser. Não dá mais para a imprensa cai nesse argumento e jogar somente na população, a responsabilidade dos alagamentos “porque as pessoas jogam lixo na rua”. Sim há esse problema, sim há essa falta de educação e responsabilidade, mas a questão é mais densa. Isso serve apenas de cortina de fumaça para as saídas políticas de nossos governantes.

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Rua Santa Marina, Bonsucesso, às 21h20, em 5/3/2013. (Foto: GuarAntiga – Facebook)

Com absoluta certeza, o alagamento no bairro de Bonsucesso, Zona Norte do Rio, chegou a ponto das pessoas terem que sair pelo teto no ônibus porque ontem (6/3), uma terça-feira, era dia de pôr os sacos de lixo, na rua, para ser recolhido. A Comlurb passa à noite, lá pelas 23h. Logo, o lixo aumentou a proporção do alagamento sim, mas de forma alguma foi o motivo principal ou estava de disposto de forma equivocada e irresponsável pelos moradores e lojas comerciais do bairro.

De boa, estou cansada de ligar para uma amiga toda vez que chove pedindo abrigo em algum bairro no Centro do Rio. E isso é porque, na verdade, ficamos desassistidos em todas as frentes de transportes públicos devido aos alagamentos. Seja de ônibus, seja de trem pela Supervia ou metrô, não se chega.

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Estrada do Itararé (Complexo do Alemão) alagada. Rua Arapá, no Morro do Adeus, alagada e com pessoas ilhadas. (Foto: Vozes das Comunidades)

Enquanto isso, um aluguel no bairro de Bonsucesso, por exemplo, custa em torno de R$ 1.200, se for um apartamento de 2 quartos ou até mais caro que isso. Em Ramos idem e em outros bairros de diversas regiões do Rio também, incluindo ainda (por quê não?) as casas nas favelas e morros dessa cidade, onde moram os principais trabalhadores que movimentam todas as frentes da economia do Rio de Janeiro. Lá também os aluguéis

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Rua das Laranjeiras, em Laranjeira (Zona Sul) em 5/3/2013. (Foto Gabrielle – Facebook)

subiram e cada família sente o custo de vida alto dessa cidade (com o aumento dos impostos que pagam nos produtos que consomem).

E assim caminhamos no custo de vida do Rio de Janeiro, mas não na qualidade de vida dessa porra de cidade maravilhosa sejam para pobres ou para a classe média.

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Uma sociedade sem classes: o sonho de Repper Fiell

Sabe aquele trabalho musical que cola na cabeça e faz você pensar?

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Essa seria uma boa definição e elogio ao novo cd Pedagogia da Dominação do também escrito e cineasta Repper Fiell. Escrito assim mesmo com “e” no lugar do “a” de rap e com “per” no final.  Uma escolha política do cidadão Emerson Cláudio Nascimento dos Santos, de 32 anos, cria do Morro Santa Marta. Uma forma de de valorizar a cultura popular do repente nordestino e se afastar se afastar das heranças americanas do estilo musical que escolheu para si como artista: o rap. 

Nas 20 faixas do seu novo trabalho musical, Repper Fiell manda um recado. Ele sonha com a construção de uma sociedade sem classes e acredita na utopia de Eduardo Galeano (escritor uruguaio). Sonha tanto com isso que declama em forma de desabafo musicado esse sonho logo na primeira faixa do cd, para sua ambição é para ser coletiva.

A faixa Uma sociedade sem classes também é uma forma de lamento, de denúncia (porque não dizer), um conselho reflexivo. O papo reto a todos os moradores de favelas do Brasil é audacioso. Reivindica novas formas de pensar até sobre o filho de Deus: Jesus Cristo.

Narrado na música como primeiro socialista da humanidade que quis para o seu povo uma vida feliz com comida e terra, mas que foi “pela burguesia da época brutalmente assassinado e pregado na cruz “, opina Repper Fiell que se define como anticapitalista e marxista e também um admirador do pensador Paulo Freire. Um grande educador que já dizia, lembra Fiell na música: “tudo que aprendemos nas escolas em termos de educação temos que abortá-la, porque é uma pedagogia dos dominantes”.

Repper Fiell realmente acredita na mensagem e ensinamentos que bebeu de seus ídolos: Carlos Prestes, Marighella, Vito Giannotti, Florestan Fernandes, Che Guevara, Rosa Luxemburgo, entre outros. Não há como negar isso quando se ouve as 20 faixas de “Pedagogia da Dominação”.  A forte formação política, social e literária do artista é exposta nas letras das composições.

Fiell intima todos a lerem o que define como “livros libertadores” em cada uma das faixas. Diz, que o rap só tem valor se for feito como uma música de instrumento de luta, informação e reflexão, tanto social quanto política para os Trabalhadores do Brasil (título de da nona faixa do cd).

Por dentro do Papo 

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Uma das pérolas deste terceiro trabalho, o Pedagogia da Dominação, é a música Onde estão nossos direitos, composta por Repper Fiell em parceira com o Bonde da Cultura, coletivo do Morro Jorge Turco.

A faixa é uma preciosidade de letra e sonoridade. A batida forte do rap mixada com o violão e voz (no refrão) de Marcelo Jerry,  é tocante. Faz a cabeça (sem precisar de aditivos extras), corta a alma e te desperta de “um sono profundo” como proposto pelos artistas. Que música! (Confesso que a ouvi por repetidas vezes).

Mas não é a única. Repper Fiell acerta também em outras faixas. Em Abomine o Crime, ele situa a gente no banco de uma universidade para ouvir a palestra de um ex-traficante de drogas chamado José. Mais uma vez a sonoridade é rica. Tem um fundo sambeada que faz esse rap não ser arrastado e tem uma clara defesa a leitura dos livros.

Outro acerto do artista são as parcerias. Michel, ProraRua, Bianca Felix, Mc Kapella, Marcelo Yuka, Dudu Nascimento, Dj, Jaci e Marcelo Jerry, O Levante, Dj Metal da CDD,  Bonde da Cultura e Vinimax (que manda bem em todos os vocais e chama particularmente atenção em diversas faixas).

As Minas do Santa Marta eu adorei. É uma grande saudação as mulheres do Morro, ao jeito dessas delas. Não se prende a tipos e sim as escolhas e as formas de viver das mulheres, sejam as que moram em favelas ou no asfalto. E mais: faz crítica erotização midiática da mulher sem aquele discurso (chatinho) do politicamente correto tão em voga.

Outros destaques são É tudo contra mim (com batida forte como manda um bom rap; Nossa Luta é intensa); Pra Vencer (um dos recados mais autênticos de Repper Fiell); Trabalhadores do Brasil; O Povo Unido; Um mundo Melhor (outra parceria com o Bonde 576396_434405636609334_962696675_nda Cultura deliciosa. É bom ficar de olhos nesse povo!); e Me Traiu (um puta recado para aqueles que lutam e defendem certas linhas de ideias e depois as abandonam).

A faixa 788, que dá nome também a um dos curtas de cinema do Repper Fiell, é um papo reto sobre as dificuldades de morar no Santa Marta, um morro com 788 degraus até o pico. A produção e mixagem da música (Dj Tony) está excelente. Tem uma batida meio nordestina com levada de samba e um vocal que parece um lamento do povo pobre preto, branco e favelado hoje do Morro Santa Marta, um dos tantos quilombos do Rio de Janeiro no passado.

Agora, a faixa polêmica sem dúvida é a Vai Babar.  Dedicada ao tema das “leis” normativas a “boa convivência” na favela, a música conta a história de uma ladrão que rouba seus vizinhos no morro. E paga com a vida pelo ato. Uma parte da letra diz: “O crime não é creme. A lei na favela é implacável. A mãe dele vai chorar  porque a gente vai se divertir”.

Na prática, a composição apenas narra a verdade triste da lei da favela, mas para um rap de postura socialmente política que abraça os direitos humanos, a composição causa um certo espanto. Contudo, rap é jornalismo musicado. Usa a força da linguagem para paralisar mentes e fazer pensar.  Repper Fiell esclarece qual é a sua sentença: “Qualquer objeto pode ser reposto, agora a tortura é irreversível. Valoriza a vida, mano”.

Costura vermelha

É extremamente necessário destacar a boa produção deste CD gravado e mixado de forma  independente pelo artista com o bloco dos amigos. Mixado no estúdio do músico Marcelo Yuka, a qualidade é um alento aos ouvidos, principalmente por não ser uma mesmice em termos de sonoridade. É justamente o oposto. Traz surpresas, levadas de diferentes ritmos musicais, enfim, é um trabalho consistente.

Outro detalhe que não me passou despercebido foi a organização do trabalho. A disposição das 20 faixas margeiam uma mensagem: a socialista. Expõem a necessidade do povo das favelas se apropriarem do conhecimento, da política e da cultura para que os “direitos” no Brasil deixem de ser “seletivos”.

Se Repper Fiel escolheu o papo reto de Uma sociedade sem classes para abrir esse cd, não dispensou o discurso de outros artistas de expressão (formadores de opinião) e políticos  para costurar a mensagem que quer provocar  neste seu terceiro trabalho, o Pedagogia da Dominação

A faixa 8, por exemplo, traz um trecho do discurso do comício feito para 150 mil pessoas pelo ex-presidente João Goulart na Central do Brasil no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964. Na ocasião, ele anunciou reformas, como a nacionalização de refinarias de petróleo e a desapropriação de terras para a implementação da reforma agrária. As reformas foram um dos motivos desencadeadores do golpe militar que impôs uma ditadura de 20 anos no país.

No meio de um CD de rap, um trabalho musical, você ouvir um discurso em defesa da reforma agrária, não é um espanto como é uma atitude de coragem, que mostra uma preocupação latente em levar informação e formação política a seu público. 

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E a costura não para por aí. A faixa 13, Paz Armada,  traz um trecho de uma opinião dada pelo músico Marcelo Yuka sobre a política de segurança de “pacificação” das favelas cariocas. Foi uma forma inteligente do rap de expor sua opinião também sobre o assunto e “agendar” o tema, como se diz em jornalismo, no jornal feito por ele em forma de CD.

É essencial ressaltar que Repper Fiell é um “cria” da Morro Santa Marta, a primeira favela do Rio de Janeiro a receber uma UPP.  Ele foi um dos organizadores da cartilha Abordagem Policial que informa aos moradores do Morro como deve ser a abordagem de policias junto a qualquer cidadão. Foi uma forma de instruir a população para lutar contra os abusos de policiais.

 

Para fechar, esse trabalho “vermelho”, Repper Fiell, escolheu o poema “Utopia” declamado pelo próprio escritor uruguaio Eduardo Galeano (em espanhol). É um alento a alma esse desfecho que te levar a um outro lugar: a sociedade sem classes sonhada por Fiell. Porque nesse poema, Galeano discorre como seria essa “sociedade sem classes” na prática. Um fechamento bem perspicaz para um CD intitulado Pedagogia da Dominação.

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É uma trabalho musical com começo, meio e fim, como se narrasse a história de um livro, bem condizente com um artista que colocar os livros como a bebida e a comida do corpo e e da alma.

A crítica que faço ao trabalho é o “volume” da obra. Com 20 faixas. Por mais que você goste de rap e se encante com a sonoridade surpreendente, tantas faixas podem acabar cansando o ouvinte do meio para o final. Fica a dica!

Além disso, certas explicações no meio da música (com exceção da faixa “Vai Babar”) se tornam desnecessária, pois as composições de Repper Fiell já mandam muito bem seu recado. Mas, eu não teria dúvidas em apostar no trabalho do rap. Tanto que comprei três (um para mim e dois para dar de presente).

O saldo é bem positivo e admirável. Um trabalho maduro, acalentado por seis anos, segundo, Repper Fiell. Que outros venham com intervalo menor de tempo.

Onde comprar

O CD “Pedagoria da Dominação” pode ser adquirido na livraria Antonio Gramsci, localizada na Rua Alcindo Guanabara, 17, térreo, Cinelândia – Rio de Janeiro. Em frente ao portão lateral da Câmara dos Vereadores. Telefone (21) 2220-56-18 e e-mail  livraria@piratininga.org.br. Preço: R$ 10 reais.

Também é possível comprar entrando em contato direto com o artista pelo e-mail: fiellateamorte@gmail.com e por telefone (21) 86700327 (oi) 69114021 (Tim), que se compromete a envia para todo o Brasil. É só pedir.

* Texto: Tatiana Lima
Fotos de divulgação: Maria Buzanovsky

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Matou o preconceito e comeu pão com mortadela

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Quem acompanha esse banheiro sabe. Já comentei algumas vezes que passei parte da minha adolescência no Garage. Lá vivi históricas únicas. Quer dizer, sempre achei isso, mas hoje sei de muita gente, que também viveu situações extremamente bizarras lá tanto quanto eu. Por isso, pegando o embalo da reportagem que fiz para um site (http://riounderground.com.br/materia_principal.asp?id=32) sobre o retorno do Garage (que foi uma faça e nunca voltou de fato, estilo mega brochante), resolvi conta aqui o que faltou espaço para escrever lá.

Tinha 14 anos e já frequentava o reduto mais quente da cidade. Não pelos seus espaços de luzes de boate piscando em movimento frenético ou música de batidas rebolativas, que dirá pro causa da bebida servida (após uma eternidade de quando se pedia e ainda quente), muito menos pelos petiscos caríssimos e pequenos ou as cantadas nonsense de três palavras ou sílabas e muita pegação sem qualidade, características típicas dos enferninhos e point cultuados.

Ao contrário disso, o quente da cidade para mim era um espaço mais alternativo. Um lugar sujo, escuro e sem muito glamour: a Rua Ceará. Local frequentado pela turma do Clube de Motoqueiros Balaios que gostavam de luzes fracas, conversas olho no olho, papo cabeça com devaneios sobre música, bebida gelada, um podrão decente daqueles  que caiem como uma luva no estomago seco e vazio e na proporção suficiente para mata a fome notívaga. Meu lance era o lugar de porção generosa de batata-frita, servida bem ao estilo do Heavy Duty. Ou seja, no grito: a batata-frita ta pronta porraaaa!!! Sim, no meu inferninho do sonho era assim.

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Sem falar que, para um cara para chegar numa guria, havia um esforço mental. Inclusive, na maioria das vezes, um beijo só vinha depois de um tesão verborrágico entre ambas as partes, se tornando mais ardente do que às vezes uma boa trepada – isso constatei depois de deixar de ser virgem. Ah, e claro, essa turma respirava mais do que tudo graxa, motor, couro e rock, (e dos bons) com o som no talo.

Fui apresentada ao local por um cliente do meu pai que à época era dono de um bar na praça da bandeira. O tal cliente tinha uma picape preta com uma pantera negra pintada na lateral que simplesmente me fascinava. Vestido de couro, o coroa chamava minha atenção muito mais que os moleques da rua ou da escola. Mas ao contrario do que pode parecer meu interesse por ele nunca foi sexual e vice-versa.

Essa narrativa não é sobre a menininha que é comida pelo coroa descolado de plantão. Com 14 anos nem pensava em sexo. De verdade meus hormônios ainda estavam bem controlados. Contudo, ele foi o responsável por trazer o que meus hormônios, mente e coração procuravam há muito tempo sob outra perspectiva. Ele me deu aventura de sobra na adolescência e me salvou.

Tinha uma sede louca de aventura por lugares, gente, conversas, conteúdos, música e, principalmente, por rock. Por isso, um dia, aproveitando minha amizade com o filho desse cara, meu Salvador convidou minha mãe para uma festa à tarde. Um churrasco na Rua Ceará, no número 104, hospedaria do Clube De Moto do Balaios, um bar ao lado do Heavy Duty e do Garage.

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Bom, ele não pegou minha mãe. Uma pena! Aliás, as mães nunca namoram os caras que realmente a gente adoraria que elas ficassem, que dirá trepar com eles. Mas e daí? Estava salva enfim, e, passados alguns dias, ganhei um violão preto do meu Salvador com uma pantera negra pintada – que nunca aprendi tocar.

Dois anos se passaram. Estava com 16 anos. E na bagagem, muitos churrascos dos Balaios e uma intimidade pervertida com o local. Mas ainda me faltava à experiência que mais queria: ser frequentadora daquele lugar à noite, numa sexta-feira, com rock e som no talo, embebido pela escuridão e sem aquele clima de reunião de família. Na real, o que queria era entrar nas festas de rock do Garage, que tanto me contavam e falavam como algo de aventuras e desventuras.

Até que, do nada, esse (meu) dia chegou. Ganhei passe livre para viver a aventura desejada como cabaço de virgem para os homens namoros famílias de dois anos e muitos “pegas” no sofá da sala. Era noite de Ratos de Porão no Garage e mais um monte de bandas. No final, a coca-cola e a batata-frita do Heavy Duty era um alento. Sim, coca-cola, porque só bebia vinho à época, e uma caneca. Meia lata de cerveja me deixava tontinha.

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No outro fim-de-semana sufoquei com fumaça, mas foda-se! Era o Planet Hemp no palco do Garage. Canabis nunca foi minha praia. Só o cheiro arde meu nariz e me faz enjoar. Mas quem é que estava ali só para isso? Acreditem ou não, ninguém. O Garage sempre representou mais do que um fumódromo livre de canabis. Quem queria só se embebedar e chapar se dirigia à escadaria da Lapa, num tempo em que a Lapa era a “Lapa alternativa” e um verdadeiro deserto aos sábados. Mas um grande paraíso às sextas-feiras, com palco e banda de rock em frente à escadaria. Era do Caralho ou DUCA se você preferir assim.

Quem frequentava o Garage, o fazia em bandos. Gente jovem e adolescente que trocava LPs e CDs de bandas como Sex Pistols, Rolling Stones, Black Sabat, Metelica, Tape on Negative, Pink Floyd (mentira ninguém abria mão do seu LP ou cd do Pink), AC DC etc.  Enfim, muito Punk, Hard e Metal não necessariamente nesse ordem.

ImagemDepois, se descansava na calçada com uma garrafa de vinho barato, Martini (pior, ou Contini) e Gim, e se alimentava com a batata-frita “com porra do Heavy Duty” e ainda, se fosse sexta-feira, tudo isso vinha embevecido ao som de rock e blues tocado ao vivo no meio da rua. Puta que pariu! Eu amava a Ceará!

E foi num dia desses, descansando depois de um noitada no Garage (que  eu sequer entrei, já que o papo com turma estava tão inebriante, interrompê-lo seria um crime) é que uma patrulha da Polícia Militar passou por mim e meus amigos. Depois de cinco minutos, o carro da PM fez um novo passeio em direção à saída da rua. Mais uns dois minutos e lá estava de novo o carro fazendo uma manobra. Já quase na Avenida Radial Oeste e a tal da patrulha voltou de novo.

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A esta altura da noite todos os grupos sentados no Heavy Duty estavam de pulga atrás da orelha. Mas agiam naturalmente já que a PM sempre fazia algumas rodas por ali. Acontece que, de repente, o carro parou do lado esquerdo da rua e ficou olhando na nossa direção, isso aí, em minha direção e a dos meus amigos.

Eu conversava displicente e não dei muita importância, mas a galera que estava portando cigarros de capazes de fazer a turminha se tornar a melhor amiga de qualquer comediante, logo se ligou na situação exclamando um “Fudeu” tenso. Foi a deixa para eu pensar “Ué, fudeu o quê?

Daí fiquei branca! Meio mole e paralisada. Porque do lá de dentro da patrulhinha tinha uma mão que me apontava e fazia sinal para que eu chegasse perto do carro. Numa hora dessas, você olha para todas as direções rezando para que esteja errada. Afinal, se pensa “não isso não está acontecendo comigo”.

Mas a parada era comigo mesmo. Uma voz veio de dentro da patrulha e logo depois um homem soltou a sentença: – Cachinho vem aqui, anda.

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Enquanto meus amigos me olhavam com uma cara de desespero, eu olhava catatônica para o policial que se recostava no carro e ficava a me observar com uma expressão de desaprovação. Um segundo pedido da “autoridade” me fez acordar e descer da montanha russa que tinha pegado dentro da minha cabeça: “Cachinho, não vou chamar a segunda vez. Vem cá”.

Putz, era verdade. Eu não estava sonhando. Existia mesmo um policial fardado e uma patrulha parada me chamando e, pior, me esperando.

Completamente sem graça, com um sorriso amarelo, acenei de leve para o sargento da PM. Engoli a saliva, levantei sem graça, olhei de forma panorâmica para os meus amigos querendo dizer: “calma”. Ajeitei a blusa e, devagar, fui ao encontro do sargento Pereira, outro cliente e amigo do meu pai. Ele cumpria o plantão na 18º delegacia de Polícia, que fica justamente na Praça da Bandeira. Sua missão?  Para minha “sorte” era fazer rondas no inferninho da cidade a procura de menores para serem recolhidos bêbados e coibir o uso de drogas.

O PM almoçava quase todos os dias no bar do meu pai ou tomava uma gelada lá no final do expediente. Para minha sorte e azar tinha acompanhado meu crescimento, tendo inclusive, o número de telefone do meu pai. E agora, estava ali questionando o que euzinha fazia “no maior antro de perdição da cidade”. Sim, era assim que o Garage e a Rua Ceará eram conhecidos. Detalhe: muito antes da Vila Mimosa ser transferida para lá.

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Com o dedo em riste ele perguntou: – Eu posso saber o que a senhorita esta fazendo aqui? Seu pai sabe que você esta aqui? Aliás, Cachinho, sua mãe sabe? Melhor, não responde nada. Entra na patrulha que eu vou te levar pra casa A-G-O-R-A!

As perguntas vinham em cascata e ele sequer me dava à chance de dizer um “mas”. Enquanto isso, todos no Garage, Heavy Dutty, Bar do Zeca, enfim, toda a nação “garageana” olhava sem saber o que fazer: se corria ou ficava para ver no que daria aquela “dura”. Diversas meninas, também menores, invadiram o banheiro com medo de serem levadas. Os garotos tentavam disfarçar o óbvio, acompanhavam o desenrolar da situação jogando cigarros ilegais ao chão ou despachando nas meias.  Oh, sacrifício inútil.

E foi assim que, aos 16 anos, fui recolhida do Garage, o local proibido a menores por ser considerado local de vadios, bêbados e drogados, impróprio a adolescentes de “bem”, pois era “o antro de maus elementos mais mal visto da cidade”.

O pior de tudo é que era pensar: logo eu? Nunca tinha consumido qualquer tipo de droga ilegal. Até bebia álcool esporadicamente (na verdade as 2h15 estava ainda na segunda caneca de vinho), mas porra era a pessoa mais limpa se bobeasse naquela lugar, pior, nem nicotina fumava para desespero dos guris que tentavam em conquistar com baforadas artísticas (fumante tem cada uma). Enfim, em ter qualquer “flagra”, lá estava eu agora sendo recolhida pela polícia. Um King Kong histórico daqueles de fazer você nunca mais pisar no local.

Acontece que, já quase dentro do carro, criei coragem. Lembrei que tinha boca: – Perai,sargento, você não deixou eu responder nada e já está assim me tocando pra patrulha. Por acaso eu to matando ou roubando? Qual foi o meu crime, posso saber? Senta num bar e conversar? A propósito, para o seu governo, minha mãe sabe que estou aqui sim! Meu pai? Bom, meu pai não tem nada a ver com isso porque eu não moro com ele. Quer ligar lá pra casa e confirmar? Pode ligar. Desafiei o sargento.

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Pois bem, e não é que ele ligou! Mas da delegacia sentadinho na mesinha dele.

Mas levou um puta esporro da minha mãe que não admitiu a filha dela ser levada por uma patrulha no meio da noite como uma criminosa. Ela MANDOU ele me levar de volta exatamente para onde tinha me “retirado”’ porque segundo as ordens dela (hehehe!) eu tinha livre conduto para chegar em casa somente a partir das S-E-I-S da manhã (Eu sei eu sei…minha mãe era foda!). Ainda perguntou se ele não tinha mais o que fazer do que acordar ela as 3h da matina.

Bem, e foi assim que fui recolhida e devolvida ao Garage por vadiagem com apenas 16 anos, em menos de vinte minutos!

O sargento Pereira ficou puto. Mas como disse, atendeu as ordens de Madrecita! Aprendeu que, às vezes, as aparências enganam. E eu, meus caros amigos de banheiro, matei o preconceito e “voltei a vadiar”!

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Terminei minha caneca de vinho que ainda esta disposta na mesa do bar (com meus amigos, em choque, óbvio). Cheguei às 6h18 (como mamãe pediu) em casa com jornal, pão e mortadela, como mandava a rotina familiar de pernoite de rock. Afinal, não se esqueçam, a regra básica de alguém que chega em casa no horário de café da manhã, é levar o pão quente e a mortadela para felicidade geral da nação.

P.S: Quanto ao fato, da filhinha da mamãe está num antro de perdição, o mais quente da cidade, descobri os truques de Madrecita. Em certo momento, ao telefone com o sargento, mamãe disse assim: – Sargento, o senhor acha mesmo que eu sendo proprietária de bar na Praça da Bandeira (minha mãe era sócio de papi) não conheço o Zeca (outro proprietário de bar)? Sargentooooo, ela está no antro de perdição mais seguro da cidade. Bem vista, lhe asseguro!

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Ah…a arte das mães de vigiarem a gente sem nós sabermos de nada…É um talento, não? Minha mãe era uma mãe normalzinha, afinal, como todas as do mundo inteiro. Bem que dizem que elas só mudam de endereço.

 

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O beijador e a mulher

De repente o beijo chega. Foi no pescoço. Na curva sinuosa do pescoço ao encontrar os ombros. Foi um beijo suave e forte, sem pudor e Imagemmáscaras, sem culpa e reservas. Ela, a mulher, conhece esse beijo. Há poucos assim. Mas o beijador não sabe. Mentes humanas ainda representam nesse mundo conquistado o espaço de terras a serem desbravados. Assim, o beijador brinca, tenta gozar com a mulher. Diz-lhe: – Quem será que chega assim a beijar-te no cangote?

O homem toma um susto. A mulher revela o segredo. Já sabia que era ele. Mas não revela somente essa informação. Subverte a lógica simples. Diz-lhe: – sei que é você. Só você e outro homem me beijam assim.

O riso toma conta do ar. Ele “brincaliza” a divagação. – Nossa (esticado) que revelação hein? Isso muito é sugestivo.

Agora, são as gargalhadas e um riso de lado da mulher que apropriam-se do espaço. Ela é faceira. Rir na mente e no coração. Por fim, descortina-se:

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– ‘A’ Sabia que era você porque seu beijo e toque são ações de homem que não tem medo de chegar. Não tem receio de pegar. Não tem reservas. Você beija com o corpo e pega e abraça com pele. Você é livre ‘A’.

O homem ruboriza-se. Percebe que a brincadeira descompromissada desvelou mais do que supusesse. A amizade incondicional da mulher faceira. Ela percebe o ar sem graça do homem. Completa, então, o segredo: – mais alguém beija-me assim, meu outro ‘A’.

Ele pergunta o que o os une. Ela aquieta seu coração curioso. Responde: – o amor por mim e vossas orientações sexuais.

A sobrancelha suspende-se. O riso de lado a contamina novamente. Finaliza a subversão: – Somente homens que não tem o rompante de veres uma mulher como um ser sexual são tão livres assim.

Os dois abraçam-se sob a chuva. Riem de si. As almas dos amigos percebem que aconteceu ali uma linda declaração de amor e amizade, no ritmo daqueles cotidianos instantes. O carinho sublima-se. O momento é pleno a entrega.

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Por Tatiana Lima

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Uma saia, uma história, uma luta. “LUCAS FORTUNA PRESENTE!”

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Por Tertuliano Oliveira

Em 2004, uma das sedes do Congresso Brasileiro dos Estudantes de Comunicação Social(COBRECOS) foi a Universidade Católica de Brasília que, por meio da reitoria, dividiu os alojamentos em feminino e masculino. Na ocasião, um estudante da Universidade Federal de Goiás (UFG), Lucas Fortuna, dirigiu-se à reitoria vestindo uma saia para tentar constranger a administração superior e “agradecer” à Universidade por incentivar a prática homossexual. Ele já usava saia desde 2002, quando o Cobrecos foi realizado em Maceió – Alagoas.

Na época, outros estudantes da UFG decidiram aderir à vestimenta, instituindo nos encontros da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (ENECOS), um dia em que os homens vestiriam saia – surgindo assim o Movimento Pró-Saia.

Lucas Fortuna formou-se em Jornalismo, deixando de ser militante da executiva de estudantes, naturalmente. Mas continuou militante ativo do Movimento Gay em Goiânia, além de ter sido fundador do Grupo Colcha de Retalhos, que luta pela causa LGBT na UFG. Organizou diversas paradas gays na capital goiana e lutou pela aprovação do Projeto de Lei 122, que assegura a punição à homofobia no Brasil.

Na manhã deste domingo (18/11), aos 28 anos, Lucas foi encontrado morto na praia de Cabo de Santo Agostinho, próxima à cidade de Recife, no Estado de Pernambuco. Seu corpo foi encontrado trajando apenas cueca, com sinais de espancamento e ensanguentado. A carteira com documentos e o celular não foram levados.

Durante o ENECOM DF, realizado em julho deste ano, participei do movimento pela primeira vez. Vesti saia não só por um dia, mas em vários momentos durante a semana que durou o encontro, pelo combate às opressões e apoio à Diversidade Sexual.

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Foi divertido participar do movimento. Foi divertido compartilhar as fotos no Facebook e ouvir os comentários das pessoas que não sabiam do que se tratava.

Mas hoje, é com pesar que revejo as fotos daquele encontro. E em todas as ocasiões em que vestir uma saia, daqui para frente, será pensando no Lucas, e em todas as vítimas da discriminação, da ignorância e do preconceito, e no real significado desse gesto. Mais que pela criminalização da homofobia. Mais que por um pedido de respeito. Por amor. Em sinal de luto. Por uma sociedade em que não mais se caminhe temeroso de sofrer esse tipo de violência, simplesmente por exercer o direito de amar.

“Nunca me esquecerei da importância daquela atitude”

Por Gilka Resende

A imagem que surge na cabeça é de 2005. Era início da faculdade e eu conhecia a Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação Social (Enecos). Partíamos de várias partes do Brasil até Vitória com o objetivo de realizar um encontro de universitários, mas também de ideias e ideais. Para mim, um alívio. Deliciosa a sensação de não estar sozinha e de me misturar a outras pessoas esperançosas e motivadas a transformar realidades.

Tão maravilhosa como as pernas de um rapaz que quebrou o clima de uma importante, mas careta assembleia política durante o evento. Ele trajava mini-saia preta de pregas. Os cabelos também mereceram um penteado de chiquinhas. Tudo muito autêntico, leve e lindo. Era a encarnação da liberdade de expressão no Espírito Santo.

Ao microfone, durante poucos minutos, aquele então estudante de jornalismo provavelmente reafirmou a necessária democratização da mídia no país. Ou que a comunicação é um direito humano, seja esse homo, bi, trans ou heterossexual. Pode ainda ter defendido uma universidade realmente pública, gratuita, de qualidade e universalizada. Ou também ter apresentado propostas de grades curriculares para uma melhor formação de comunicadoras e comunicadores.

Enfim, passados esses anos, não consigo mais reportar ao menos uma frase. Porém, nunca me esquecerei da importância daquela atitude, daquela presença. Foi uma forma tão inteligente e descontraída de incentivar o debate de gênero, melhor ainda, sobre a desigualdade entre gêneros e suas consequências. 

Dia do Movimento Pró-Saia de 2006. Um ano depois da ideia de Lucas Fortuna. Delegação do Rio de Janeiro

Neste domingo (18), esse jornalista goiano foi assassinado. Morreu um jovem que militava contra a homofobia e todas as outras formas de opressão, pela diversidade sexual, por uma outra sociedade. Esta morte causa revolta, tristeza. Lucas se foi, mas sua força para lutar, que tanto já inspirou, estará sempre presente. Continuemos.

Desejo luz à família e aos amigos.

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As muitas vidas diárias do 350 – Irajá X Passeio.

Voltando para casa, na minha rotina atual de sábado, pós curso, vi carros da CORE e BOPE em Benfica.

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Pensei que a vida estaria diferente na Leopoldo Bulhões, mas seguia igual. Na linha do trem, vários

usuários de crack estavam deitados ou sentados fumando a droga entre papelões, roupas rasgadas e chapas. Crianças, famílias e motos iam e vinham. A vida era estranhamente normal.

Mas enquanto olhava a paisagem urbana misturada e conflitante de todos os dias, eu só me perguntava como aquela cena ficaria após a invasão da polícia em mais uma ação pacificadora. Será que os usuários de drogas não saíram de lá porque não sabiam do que vai acontecer ou por que não tem opção? Como será que serão tratados: como dependentes químicos ou criminosos? Não sei dizer. Mas uma vez serei expectadora de uma remodelação que ninguém sabe onde vai dar.

Como passageira da linha de ônibus 350 sou testemunhos dos conflitos entre moradores da favela, usuários de crack, passageiros locais, funcionários da empresa (trocador e motoristas) e a classe média que ainda anda na linha. Às vezes, os conflitos são na ida, outras é na volta. A “pobreza” bate na porta do ônibus pede:
– Na moral piloto dá uma carona até o Mandela.

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Manguinhos RJ: local refratário da miséria humana

Hoje (11/10) vim para o Centro da cidade de táxi (lotada). Dentro do carro somente eu e uma outra

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passageira no banco do carona. Uma determinada hora começou uma conversa sobre o trânsito. O que nos levou diretamente a falar da Leopoldo Bulhões (Manguinhos). A passageira do banco da frente (carona) comentou que não pega o trem de jeito nenhum:

– Deus me livre aqueles cracrudos. Eu tenho medo. Fico nervosa.

Respondi que de fato a miséria é agressiva. Dói de ver. Dá uma sensação de medo devido ao estranho (falava da pobreza em si). Que é difícil mesmo. Fui interrompida pelo motorista de táxi:

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