De lá para cá: Abusadamente igual

Mais e daí que um médico sobe morro e entra em favela para socorrer traficante? Seria certo deixar um ser humano esvaindo sangue até morrer? Claro que não. Ir ao hospital? Duvido que traficante vá, porque isso seria prisão certa. Além disso, até lá, no hospital haveria o risco de morrer seja pelas mãos de policiais ou pelas dos médicos. Sim, porque além de medo, questões éticas e morais e sobrevivência, essa situação que agora o livro narra traz traços de preconceito profissional, respeito aos direitos humanos e implicações em julgamentos em nossa postura quanto as encruzilhadas morais que vão refletir na sociedade que temos, vivemos, construímos e queremos.

Fiz parte de um grupo chamado Coletivo X – nome hipotético. Nosso grupo se encontrava semanalmente para discutir a respeito do tráfico de armas no Brasil. E  um dos integrantes era um artista, que foi baleado durante um assalto: Marcelo Yuka. Dou nome e sobrenome, porque Yuka sempre falou publicamente sobre o tema e inclusive sobre as atividades do grupo.

Yuka é cadeirante em decorrência daquele assalto. Recebei uma rajada de metralhadoras. Neste dia, o músico entrou para estatísticas de violência do Rio de Janeiro, como um cidadão comum. O informação “famoso músico da banda O Rappa” ainda não era conhecida  e não constava no prontuário de atendimento do hospital público para onde o “baleado” foi levado para ser socorrido. Para os médicos, que atenderam um rapaz jovem e barbudo, trajando boné, bermuda e camiseta com exatos oito projeteis de fuzil pelo corpo, era só mais um caso de PAF (sigla que toda pessoa ferida por tiro recebe estatísticas de hospitais e da polícia).

Essa é a rotina médica de um hospital no Rio, jovem ferido a bala a principio é bandido. Ainda, mas com oito tiros. E foi assim que Marcelo Yuka foi tratado. Foi o próprio Marcelo que narrou o dialogo entre enfermeiro e médico para o grupo em uma das reuniões.

– Doutor tem um monte de gente aí pra atender e o senhor quer que eu ocupe o raio X com bandido.

– Ele ainda não foi identificado como um traficante.

– Fala sério doutor! O senhor tem dúvida? Esse perdeu feio.

– É eu também acho. Mas ele precisa de atendimento.

– Doutor, mas tem gente de bem lá fora precisando de médico. Dos nossos serviços colega. Esse aí não sobrevive. Não mesmo.

– Também acho. Quais são os casos lá fora?

Silêncio na sala. Até que…

– Doutor eu não sou traficante, me ajuda. Me chamo Marcelo Yuka.

Ele foi atendido.

Mas Marcelo contou que ainda os médicos e enfermeiros não acreditaram. Na dúvida, prestaram socorro adequado. Foi só quando os familiares e a imprensa chegaram no hospital que a equipe médica foi convencida. Era o cara baleado não era traficante. Era o famoso músico de O Rappa.

Socorrer a vida de bandidos que podem ceifar a vida deles um dia é um dos paradoxos da rotina médica e de enfermeiros. Convivem com medo da polícia, de bandido, das sindicâncias hospitales e de si mesmo.

São os espelhos das ações e opiniões de todos nós em relação ao crime e das pessoas que os praticam. Do que é resguardar vida. Afinal, a pergunta é simples: e se fosse traficante?

A lembrança do relato de Marcelo não saia da minha cabeça. E minha mente ainda ficaria com muitos questionamentos e fortes sensações com a leitura de Abusado. Fechei o livro. Hora de respirar. E voltar a prestar atenção das ondas fortes que batem na areia da praia de Ipanema. Hora de pedir uma cerveja e acender um cigarro. Pensar…

No texto original, concluía dizendo “Puta que pariu será que isso está acontecendo nesse momento em alguma favela do Rio ou hospital? Perto ou longe daqui…

P.S: Durante a produção do meu trabalho de conclusão de curso ouvi relatos de ativistas de instituições de Direitos Humanos. Vários descrevem como a população das favelas, em muitos casos, não procura atendimento hospitalar por medo de serem presos nos hospitais acusados de pertencerem a quadrilhas de traficantes. No documentário Elas nas Favelas, um caso como esse foi contado. No jornal Folha de São Paulo, do dia XX, um homem ferido durante a operação policial na Favela da Maré, em frente aos repórteres entrou nas estatísticas de bandidos mortos da operação. Ele distribuía convites para o batizado do filho aos amigos que moram na localidade. Esse cidadão carioca não era famoso, mas foi socorrido por médicos. Mas não resistiu e morreu. A imprensa carioca não apurou (é no mínimo que posso julgar) e deu a notícia de sua morte como de um traficante. No dia 5 de dezembro, o jornal Extra publicou o fato de uma “suposta história de que um menino teria sido baleado após não aceitar ordens do trafico de atear fogo num carro” era mentira. O jornal classificou de boato. Mas para mim, historia iniciada a partir da desconfiança de um médico (que não acreditou na versão da família para um furo na perna do menino), e de tortura psicológica de agentes da segurança pública do Rio de Janeiro, não pode ser classificado de boato.  Por parte do médico é preconceito profissional e da polícia é crime.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
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