Meu lugar não é o ‘Divino’

Ontem (25/5), na casa do meu amigo (Alan Rodrigues Araújo) noveleiro de plantão, na sala de estar entre um pedaço de pizza e muitos risos, ele chamou atenção do grupo sobre as modificações realizadas em músicas pela direção da TV Globo para a novela AVENIDA BRASIL. Eu lerda e não noveleira não havia percebido. Na verdade, eu tinha até notado que algo estava diferente, pois uma das versões musicais da música tema da abertura da novela tem um certo “q” de espanhol e um português diferente, mas no corre corre da vida, confesso que passou batido.

Bom, o 1º caso a ser comentado é SOBRE a música ‘Danza Kuduro‘ gravada originalmente pelos cantores Luzenzo e Don Omar. A música que é uma mistura de Reggaeton com Kuduro, sofreu uma ‘adaptação’ em sua letra (desde a segunda semana de exibição da novela pelas informações obtidas na internet), tudo por conta de que na opinião do diretor da novela (Ricardo Waddington), o refrão ‘DANCE KUDURO’ pode dar margem a péssimos trocadilhos.

A palavra  “KUDURO” é uma é um estilo musical originado da Angola, significa “Bunda dura” por causa da maneira dos angolanos dançarem, porém o termo que em Portugal (aonde a música Vem Dançar Kuduro emplacou pela primeira vez) é comum, no Brasil, para Ricardo Waddington, PODERIA causa certo estranhamento em algumas pessoas “SE REPETIDO VÁRIAS VEZES NO HORÁRIO NOBRE” (declaração extraída da FSP). Logo o diretor Ricardo Waddington decidiu fazer algumas adaptações, trocando o termo “Vem Dançar Kuduro” por “Vem dançar com tudo”  evitar constrangimentos ou duplo sentido com a música.

O 2º comentário (observação do meu amigo noveleiro) é SOBRE a Música “O MEU LUGAR” de Arlindo Cruz. Um samba exaltação lindo que homenageia o bairro de Madureira, o lugar de “Todas as cores e para todas as cores” como definiu  Vírgínia fontes, historiadora do curso de Pós-graduação da UFF, certa vez  em entrevista ao jornal do Sintuperj (2009).

Em dado momento da letra a música diz “O MEU LUGAR,É SORRISO É PAZ E PRAZER, O SEU NOME É DOCE DE DIZER, MADUREIRA, LÁ LÁ LÁ IÁ”. Porém, a pedido do diretor da novela, esse refrão foi substituído para “O meu lugar, é sorriso é paz e prazer, p seu nome é doce de dizer, É DIVINO O,O,OOOOOOO, É DIVINO O, O, OOOO”.
DIVINO é o nome do bairro fictício do núcleo principal da novela que gira entorno da família do personagem de Murílo Benício,  o Tufão.

Na hora, a gente até brincou com meu amigo dizendo que só ele percebe essas coisas e tal. Mas depois em casa refleti que ele fez uma estupenda de uma boa observação. Principalmente, porque nos traz uma análise da influência do poder midiático de uma novela da TV Globo sob a cultura musical não só carioca, mas brasileira com tentáculos para fora dos limites brasileiros, no caso de Angola e Portugal.

Odeio, mas odeio de verdade mesmo qualquer patrulha ideológica. Acho que os autores da música são livres para “vender” seu produto e cormercializá-los, se assim veem sua arte como produto. Porém, sabemos que a qualquer arte vista sob está ótica perde seu valor como arte. Também cabe ressaltar a questão imagética subliminar de misturar real com ficção buscada pela TV Globo para a novela. Causar uma pseudo verossimilhança no público e uma fácil adaptação e simpática, ganhando público e ibope. A verdade é que existe uma força midiática devido à ascensão da classe média de mostrar como o “suburbano” é “nice” (legal). Pelo menos é a impressão que tenho. Uma coisa forçada eu diria já que como qualquer estratégia midiática acaba por se tornar fake. Uma necessidade de a TV falar com esse novo público e tentar colocá-lo na tevê, pois  hoje passaram a ser seu público consumidor e gerador de consideráveis lucros. Enfim, mercado. Além do mais, casa com a política de urbanização da cidade que devido as Olimpíadas resolveu enxergar o bairro e fazer obras (prefeitura)

É importante ressaltar que a adaptação foi feita pelo próprio Arlindo Cruz. Em declaração ao portal da TV Globo, ele diz que a música “Meu lugar” foi um “divisor de águas” da vida ele e que “casou totalmente com a trama, por falar da espiritualidade do povo carioca”. Ele ainda declarou na época que gostou “muito do capítulo de estreia. A primeira música foi a minha, minha mulher chorou, foi a maior emoção. Todo mundo aqui em casa ficou muito feliz!”, revela Arlindo. Para assistir a cena citada clique aqui.

Bom, eu pessoalmente quero dizer que acho belíssimo o samba de Arlindo Cruz em homenagem a Madureira, de tantas a cores sim, de todas e todos os tipos e classes de pessoas sim, a Madureira de minha mainha, de Tia Selma, prima Karine, tio Paulo e tantos mais. Contudo, definitivamente preciso dizer a todos que meu lugar doce e especial,  Não é o Divino, não é um set, um cenário montado para dá “vida” aos personagens ditos “suburbanos” da novela da TV Globo.

O Meu lugar é Madureira da realidade, onde estive no sábado e tocava forró antes do ônibus subir o viaduto e la na rua perto do viaduto um ótimo rock. Onde tem kombi, van e ônibus para todos os lugares. Ponto de refúgio, encontro e porto para os perdidos da noite que acabam indo para lá para pegar condução até os outros bairros do subúrbio. Madureira é coração e pulsar forte.

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Sobre Conversa no Banheiro

Uma jornalista fora do perfil. Repórter por essência.
Esse post foi publicado em comportamento, comunicação, Cotidiano, filosofia de botequim, Rio de Janeiro, suburbio carioca e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Meu lugar não é o ‘Divino’

  1. Amanda Assis disse:

    Mastrianni, acho que a escolha de usar um subúrbio fictício e dar a ele o nome “Divino” se deve ao fato de ter um time de 2ª divisão no bairro. Com certeza a Globo não pode usar o nome de um time que existe de verdade sem pagar os direitos.

  2. Mastrianni disse:

    Me gera muito incômodo essa história de bairro fictício. Afinal, a história se passa no Rio de Janeiro e não numa cidade fictícia, e enquanto os bairros da zona sul são retratados (e nomeados) em novelas à exaustão, o subúrbio não pode ser representado, e se for, não pode ser nomeado. Não sei exatamente o motivo dessa escolha por um bairro fictício, mas até consigo imaginar que tenha sido para resguardar a Rede Globo pela forma pejorativa como trata o subúrbio nessa novela, apesar de ter usado uma boa música.

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